{"id":21861,"date":"2011-08-12T18:34:29","date_gmt":"2011-08-12T21:34:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=21861"},"modified":"2011-08-12T18:34:29","modified_gmt":"2011-08-12T21:34:29","slug":"a-moribunda-senhora-ilheus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/08\/12\/a-moribunda-senhora-ilheus\/","title":{"rendered":"A Moribunda Senhora Ilh\u00e9us"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/ROBERTO-RODRIGUES-FOTO-NOVA.jpg\" class=\"alignleft\" width=\"300\" height=\"138\" \/>Era uma vez uma velha senhora que tinha nome de santo guardi\u00e3o e protetor dos povos. Chamava-se S\u00e3o Jorge dos Ilh\u00e9us. Em outros tempos fora at\u00e9 apelidada de nobreza. Deram-lhe a alcunha de Princesinha do Sul. Dizem &#8211; e alguns nost\u00e1lgicos ainda lembram-se disso -, que em tempo idos bem longe, ela vivera n\u00e3o como princesa, mas sim como uma verdadeira rainha e tinha t\u00edtulos, s\u00faditos, admiradores, f\u00e1ceis alegrias e grandes riquezas. Muitos at\u00e9 afirmam que por dotes divinos, Deus lhe deu uma \u00e1rvore que produzia verdadeiros frutos de ouro. Mudas dessas \u00e1rvores foram plantadas nos seus quintais e nos quintais dos seus vizinhos. Em pouco tempo todos ficaram ricos e a velha senhora se sentiu realizada e digna das ben\u00e7\u00f5es de Deus. Cumprira o seu legado e prop\u00f3sito. Alardeava isso por todos os cantos. Hoje, a velha senhora agoniza sobre o leito moribundo e, certa do que lhe espera, apenas chora em sil\u00eancio. Ver-se poucas esperan\u00e7as no seu frio olhar.<\/p>\n<p>Quem a viu em tempos t\u00e3o passados, vestida elegantemente em trajes di\u00e1rios de gala, adornada de pura seda chinesa, reluzente ouro de Minas e p\u00e9rolas orientais e a v\u00ea agora, acredita serem duas pessoas distintas. Onde havia o sorriso reluzente das alegrias diuturnas, mora agora a boca banguela e com h\u00e1lito pouco admirado. Onde havia os bailes reluzentes, banquetes celestiais e festas sem fim, se ver agora a solid\u00e3o, o ostracismo e o abandono. S\u00e3o dois mundos muitos diferentes. Todos sabem disso. A velha senhora n\u00e3o s\u00f3 perdeu a beleza da juventude, mas perdeu tamb\u00e9m os seus verdadeiros amantes.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Antes, havia parceiros cheirosos e ricos para todas as suas dan\u00e7as. Todos se diziam seus filhos, muitos lhe amavam sem pudor ou segredo. As j\u00f3ias eram presentes di\u00e1rios. As sinfonias e \u00f3peras eram ouvidas at\u00e9 nas cozinhas dos seus tantos lares. Seus filhos falavam facilmente o idioma franc\u00eas igual a Jacques Bertrand e Alexandre Dumas. Seus empregados sabiam o idioma alem\u00e3o que facilmente se ouvia no seu porto. Todos, sem distin\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a ou credo, recebiam suas prote\u00e7\u00f5es maternais e at\u00e9 os mais humildes, vivendo nos seus ares, prosperavam. Pode-se dizer que essa velha senhora tinha, al\u00e9m de frutos de ouro no quintal, verdadeiros poderes de Midas. Tinha-os, \u00e9 certo. Por\u00e9m, os perdeu. Ou foram roubados?<\/p>\n<p>Hoje, abandonada e esquecida no asilo da hist\u00f3ria, a velha senhora Ilh\u00e9us come migalhas que lhe chegam a poucas m\u00e3os de raras caridades. Alguns dos seus filhos ditam as regras nas salas dos antigos casar\u00f5es e quando n\u00e3o destroem o que herdaram, fazem de tudo para que se esque\u00e7a a bela hist\u00f3ria dessa velha senhora. Parece que esses t\u00eam algum mal horr\u00edvel no cora\u00e7\u00e3o e adubam o seu matric\u00eddio com descasos, roubos e tantas mentiras.<\/p>\n<p>T\u00edsica de sonhos e sofrendo de vastas cataratas nos horizontes das oportunidades, a velha senhora Ilh\u00e9us prefere viver de lembran\u00e7as e nem chora mais pelo seu sofrimento. Em sil\u00eancio, parece que prefere a morte. N\u00e3o diz isso, mas \u00e9 o que percebemos no seu desgastado semblante. J\u00e1 n\u00e3o chora nem ri. Vive como algu\u00e9m que teve uma grande decep\u00e7\u00e3o amorosa e se fechou em si, feito uma ostra que n\u00e3o produz mais belas p\u00e9rolas. Prefere as profundezas escuras das lamas dos manguezais.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda alguns raros amantes e filhos verdadeiros dessa nobre senhora, que de vez em quando, cantam can\u00e7\u00f5es de grandes amores e alegres saudades e alardeiam juras eternas. Eles somente cantam, cantam e cantam&#8230; S\u00f3 isso. Todos dizem que amam a velha senhora, mas ningu\u00e9m tem coragem de lev\u00e1-la para sua casa e am\u00e1-la de verdade, d\u00e1-lhe aten\u00e7\u00e3o, respeito e cuidados especiais.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s a amamos, mas preferimos ficar distantes para n\u00e3o ver o seu sofrimento e triste agonia. Todos n\u00f3s, &#8211; digo novamente -, todos n\u00f3s somos culpados pelo que fizemos com essa triste senhora. Todos n\u00f3s somos ingratos, inconseq\u00fcentes e demagogos, quando falamos desse nosso velho amor. Na verdade, a amamos da boca para fora e preferimos a nostalgia \u00e0 a\u00e7\u00e3o concreta.<\/p>\n<p>A nossa senhora Ilh\u00e9us est\u00e1 morrendo. Ser\u00e1 que n\u00f3s n\u00e3o estamos vendo isso? Onde est\u00e3o os seus amantes reais e verdadeiros? Onde est\u00e3o os seus defensores? Onde est\u00e3o os seus filhos conscientes dos papeis dos verdadeiros filhos?<\/p>\n<p>Os covardes, como eu, choram distantes e fogem da batalha final.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Satan\u00e1s d\u00e1 conselhos nos ouvidos palacianos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\nRoberto Carlos Rodrigues<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez uma velha senhora que tinha nome de santo guardi\u00e3o e protetor dos povos. Chamava-se S\u00e3o Jorge dos Ilh\u00e9us. Em outros tempos fora at\u00e9 apelidada de nobreza. Deram-lhe a alcunha de Princesinha do Sul. 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