{"id":2371,"date":"2010-11-17T11:19:27","date_gmt":"2010-11-17T14:19:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=2371"},"modified":"2010-11-17T11:19:27","modified_gmt":"2010-11-17T14:19:27","slug":"retado-ou-arretado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2010\/11\/17\/retado-ou-arretado\/","title":{"rendered":"RETADO OU ARRETADO?"},"content":{"rendered":"<p><img align = \"left\" src = \"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/HECKEL-NOVA.jpg\"\/>Dia desses o programa Mais Voc\u00ea da TV Globo, estando em Salvador, fez uma mat\u00e9ria propagando \u2013e como propagou!\u2013 ao vivo e em cores o turismo soteropolitano. <\/p>\n<p>\tDepois da exposi\u00e7\u00e3o de alguns pontos, como a revestida de ouro e jacarand\u00e1 Igreja de S\u00e3o Francisco e sua arte barroca, o Elevador Lacerda, a enorme e diversificada Feira de S\u00e3o Joaquim etc., etc., Ana Maria Braga, a apresentadora, assentou o quartel general no Mercado Modelo, local ideal sem d\u00favida para capitanear a divulga\u00e7\u00e3o da capital e por rebarba, a do Estado. Ent\u00e3o com entrevistas foi expondo nossa diversidade, n\u00e3o faltando, como de lei a rica r\u00edtmica representada pela capoeira e o \u201cax\u00e9\u201d e artistas do time principal.<\/p>\n<p>Com sua verve, e charme inconfund\u00edvel, ela ia visitando boxes. Num desses se mercava pimenta em garrafinhas de mais ou menos 300 mililitros, ao pre\u00e7o de \u201cdez real\u201d, como anunciara o balconista. Singela pron\u00fancia para a apresentadora, gozadora e brincalhona como ningu\u00e9m, numa interlocu\u00e7\u00e3o continuada com o Louro Jos\u00e9, colega de trabalho, prosseguisse uma sacanagem infind\u00e1vel: \u201cE a\u00ed Louro, \u00f3: custa \u2018dez real\u2019!\u201d. At\u00e9 a\u00ed tudo bem, pois escorregar na concord\u00e2ncia plural do dinheiro do pa\u00eds, que n\u00e3o faz muito mudava de nome como camele\u00e3o muda de cor, n\u00e3o deva motivar puni\u00e7\u00e3o dos puristas da l\u00edngua, al\u00e9m de ser um ocorrido muito menos grave do que os incessantes crimes cometidos por nossos representantes pol\u00edticos. <\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>\tDesculpas \u00e0 parte, o fato \u00e9 que o agravo maior se deu quando ela se referindo \u00e0 \u201cardilosa\u201d, soltou um sonoro \u201carretada\u201d (com o azinho no in\u00edcio), e o baiano supostamente da gema, correspondeu interagindo com outro \u201carretada\u201d, em vez do baianissimo \u201cretada\u201d. Mais uma brecha dando-lhe oportunidade de continuar \u2013com um \u201carretada\u201d pra cima e pra baixo\u2013 sacaneado e gozando meio mundo de baianos, inclusive ao papai aqui que assistia diante da telinha \u00e0 cena, e ficara \u201cp. da vida\u201d com toda aquela sacanagem. <\/p>\n<p>Viu? \u201cp. da vida\u201d mesmo, n\u00e3o \u00e9 exclusividade baiana, tampouco o \u201carretado\u201d da Ana Maria que, embora nordestino, o termo se formaliza nos limites norte da Bahia pra cima. Com \u201cretado\u201d \u00e9 outro departamento: tem ra\u00edzes aqui, integra o \u201cDicion\u00e1rio de Baian\u00eas\u201d do pesquisador Nivaldo Lari\u00fa, e com o qual o vendedor deveria, democraticamente, ter usado. <\/p>\n<p>Ilustrando a for\u00e7a do \u201cbaian\u00eas\u201d, essa maneira sui generis de express\u00e3o, \u201cporreta\u201d e \u201cchibungo\u201d, por exemplo, significando respectivamente \u201clegal, gente fina&#8230;\u201d e o universal \u201cgay\u201d e que pelo abrangente uso, parecem surgidos de uma nacional dicionariza\u00e7\u00e3o, na verdade (n\u00e3o absoluta, e com o perd\u00e3o se outra origem possu\u00edrem), eles integram o, podemos dizer, \u201cdialeto\u201d baiano.<\/p>\n<p>Inigual\u00e1vel, portanto a criatividade popular baiana, mas evidentemente a varia\u00e7\u00e3o no portuga brasileiro, n\u00e3o \u00e9 notoriedade s\u00f3 dos da Boa Terra; existe a dos ga\u00fachos, dos mineiros, dos cearenses entre outras tantas \u201cfalas\u201d caracterizadas. E nesse contexto se tem que antigamente \u2013pelos menos em Belmonte (Bebel para os \u00edntimos) era assim\u2013 sempre que o cidad\u00e3o saia de sua origem pra ganhar a vida no Rio de Janeiro, e ap\u00f3s um certo tempo voltava \u00e0 cidade natal, dizia-se que o cara voltou \u201cfalando carioca\u201d, naturalmente devido a agrad\u00e1vel e marcante sonoridade do sotaque, ali\u00e1s o \u201cs\u201d (olha a importante letrinha! ) deles \u00e9 bastante destacado, e o professor Pasquale Neto em uma de suas publica\u00e7\u00f5es no ensino da gram\u00e1tica, acentua que muita gente de l\u00e1 se expressa na norma padr\u00e3o, mesmo na linguagem do dia-a-dia. <\/p>\n<p>Tempos idos, meu caro Rog\u00e9rio Boca Preta (amigo machista juramentado aqui da Capitania dos Ilh\u00e9us que na certa pegar\u00e1 em meu p\u00e9 por eu andar assistindo Ana Maria), das diferen\u00e7as aberrantes nos v\u00e1rios aspectos entre um local e outro; hoje n\u00e3o. Por isso n\u00e3o entender qual a raz\u00e3o do nosso mercador, com toda uma efervescente globaliza\u00e7\u00e3o, da baianidade ter refugado o jeito de falar. Ainda que fosse causa, a Bahia n\u00e3o lhe ter dado r\u00e9gua e compasso at\u00e9 o momento. \u00d3, quanto ao escorrego, \u00e9 uma outra hist\u00f3ria adiante.<\/p>\n<p>Heckel Janu\u00e1rio. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia desses o programa Mais Voc\u00ea da TV Globo, estando em Salvador, fez uma mat\u00e9ria propagando \u2013e como propagou!\u2013 ao vivo e em cores o turismo soteropolitano. 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