{"id":24987,"date":"2011-09-25T22:07:03","date_gmt":"2011-09-26T01:07:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=24987"},"modified":"2011-09-25T22:07:03","modified_gmt":"2011-09-26T01:07:03","slug":"marli-goncalves-em-se-os-cachorros-falassem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/09\/25\/marli-goncalves-em-se-os-cachorros-falassem\/","title":{"rendered":"Marli Gon\u00e7alves em: Se os cachorros falassem"},"content":{"rendered":"<p><center><span style=\"color: #ff0000;\"><em>Estar\u00edamos perdidos? Me ocorreu outro dia pensar como seria. Se os cachorros falassem, de verdade, ser\u00e1 que continuar\u00edamos conversando com eles? Contando segredos? O que ser\u00e1 que eles contariam da gente para os &#8220;outros&#8221;, os cachorros? O que nos diriam?<\/em><\/span><\/center><\/p>\n<p align=\"justify\">\n<img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/lh6.ggpht.com\/_PQy7A06gDto\/TMszWPVuHuI\/AAAAAAAAt3M\/va7UPbq3dc8\/marli%20gon%C3%A7alves%20nova.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"129\" \/>Vivo em uma regi\u00e3o de S\u00e3o Paulo onde, como diz o meu pai, tem mais cachorros do que gente. N\u00e3o tem hora. Pode ser de madrugada que voc\u00ea encontra prestativos humanos nas ruas com eles, passeando, farejando, vendo onde depositar\u00e3o suas necessidades, agora recolhidas em saquinhos que depois viram embrulhinhos pelos cantos. Eles t\u00eam todas as cores e tamanhos; s\u00e3o das mais variadas ra\u00e7as, incluindo as raras, super raras e rar\u00edssimas, daquelas que n\u00e3o adianta nem perguntar o nome para o dono &#8211; voc\u00ea n\u00e3o conhece mesmo. Invariavelmente esses donos empinam o nariz e respondem algo em uma lingua muito mais do que estrangeira, enrolam o <strong><em>&#8220;accent&#8221;<\/em><\/strong>e voc\u00ea vai continuar na mesma. Com cara de <strong><em>h\u00e3h\u00e3<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>Ultimamente tamb\u00e9m parece desfile de moda. Alguns ficam bonitinhos; outros, verdadeiros palhacinhos, rid\u00edculos, mas todo mundo acha &#8220;engra\u00e7adinho&#8221; ver os coitados com sapatinhos, botinhas, capuzes e &#8230;j\u00f3ias! Hora que penso no que eles diriam se pudessem. Como escolheriam, de vingan\u00e7a, as roupas para os seus donos, e o que acham de ser motivo de chacota, certamente, dos outros cachorros.<\/p>\n<p>E as cadelas<em>fashion victims <\/em>que sofrem mais ainda? No cio as obrigam a andar por a\u00ed com fraldinhas e calcinhas rendadas. J\u00e1 vi v\u00e1rias com unhas das patas pintadas, fora as que ganham <strong><em>bindis<\/em><\/strong>, aqueles adere\u00e7os indianos, no meio da testa, no &#8220;terceiro olho&#8221;, la\u00e7os e la\u00e7arotes. Se falassem&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><!--more--><\/p>\n<p>Gosto dos mais lesados, aqueles que os donos, descolados, quando enfeitam, os bichos at\u00e9 se mostram orgulhosos, companheiros, com camisetas legais (\u00e9, eu disse camisetas legais), roupas camufladas, vistosas coleiras. Esses s\u00e3o os que a gente v\u00ea em passeatas, educados, e andam por a\u00ed, alguns soltos, orgulhosos, certamente pensando que s\u00e3o gente. Viralatas tamb\u00e9m viraram <em><strong>cults<\/strong><\/em> de uns tempos para c\u00e1, e amados de forma t\u00e3o intensa como filhos adotados. Os escolhidos pelo cora\u00e7\u00e3o, como dizem.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que &#8211; verdade verdadeira &#8211; muitas vezes os animais s\u00e3o o retrato fiel dos seus donos, e isso se aplica especialmente aos c\u00e3es. Ent\u00e3o nem preciso contar tamb\u00e9m que alguns se &#8220;acham&#8221; melhores do que os outros. \u00c9 &#8211; eu tamb\u00e9m entendo um pouco da telepatia animal, por j\u00e1 ter praticado o esporte. Sei que a coisa est\u00e1 evoluindo e ficando pior com a sociedade de consumo fazendo quest\u00e3o de esfregar nas nossas caras as diferen\u00e7as de poder econ\u00f4mico, e usando os coitadinhos como &#8220;laranjas&#8221;. Pobre agora tem cachorro e leva no petshop? Pois bem, os ricos botam j\u00f3ias, implantam chips, daqui a pouco eles ganhar\u00e3o at\u00e9 celulares, inteligentes, claro, e passar\u00e3o mensagens nas redes sociais. Por enquanto, os donos j\u00e1 v\u00eam fazendo isso por eles, inclusive em ag\u00eancias sentimentais e matrimoniais. Outro dia, em um shopping de um outro bairro de S\u00e3o Paulo famoso pelo n\u00famero de peludos\/m\u00b2 eu vi, e se me contassem talvez eu n\u00e3o acreditasse, uma loja s\u00f3 de vender carrinhos de beb\u00ea cachorro, cestinhas de colocar beb\u00ea cachorro, malas cobertas de cristais, roupinhas de beb\u00ea cachorro, entre outras pe\u00e7as.<\/p>\n<p>O que eles, os pr\u00f3prios, diriam de tudo isso?<\/p>\n<p>Mas do que eu gosto mesmo, a prop\u00f3sito, \u00e9 acompanhar nas ruas o bate-papo, a conversinha, o lerolero, o di\u00e1logo, o trelel\u00ea dos donos com seus animais. J\u00e1 ouvi cada uma! Os donos fazem aquela vozinha mais aguda de crian\u00e7a. Perguntam, e respondem eles mesmos, numa esp\u00e9cie de tradu\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea sem igual. Adivinham as vontades, explicam as rabugices, tecem considera\u00e7\u00f5es sobre seus passos e movimentos. \u00c9 mam\u00e3e pra l\u00e1, papai para c\u00e1; e tem a vers\u00e3o av\u00f4 e av\u00f3, quando s\u00e3o estes que cuidam dos bichos de seus filhos.<\/p>\n<p>Est\u00e3o pensando que estou criticando?<strong><em>N\u00e3o!<\/em><\/strong>Eu fa\u00e7o igual, ou melhor, fa\u00e7o e fiz, muito, com os tr\u00eas que tive na vida. E, como sou boa confessora, admito, ainda converso como &#8220;madrinha&#8221; de alguns com os quais convivo. Acho mesmo um exerc\u00edcio fascinante, porque eles te olham com aqueles zoinhos compreensivos, e voc\u00ea &#8220;ouve&#8221; de alguma forma o que eles est\u00e3o querendo comunicar. Quem tem, ou gosta, sabe. Eles pedem desculpas. Reclamam. Fazem birra. Pedem para sair. Mostram ci\u00fames. Ent\u00e3o, acho que falam, sim.<\/p>\n<p>Quero saber \u00e9 se falam entre si, e o que comentam. Meu pequin\u00eas da adolesc\u00eancia sabia mais de mim do que muita gente sabe at\u00e9 hoje, portador que era dos meus segredos mais rec\u00f4nditos. O poodle que tive depois, menos. Ele era bem pentelho, com medos adquiridos que sempre achei que, para curar, precisariam ir parar no div\u00e3 de um psiquiatra. J\u00e1 a minha menina, a que criei como <em>filha<\/em>, minha linda husky que conviveu comigo do dia de seu nascimento at\u00e9 a morte, quinze anos depois, ah, esta n\u00e3o s\u00f3 sabia tudo, como tamb\u00e9m foi, inclusive, c\u00famplice de uns bons feitos.<\/p>\n<p>De repente me deu a d\u00favida se ela contou para algu\u00e9m os detalhes do que convers\u00e1vamos e faz\u00edamos juntas, passeando por a\u00ed.<\/p>\n<p><center><span style=\"font-size: xx-small;\"><em><strong> S\u00e3o Paulo, sinfonia de aus e miaus, 2011 <\/strong><\/em><\/span><\/center><br \/>\n<span style=\"font-size: x-small;\"><strong><em><span style=\"text-decoration: underline;\">(*) Marli Gon\u00e7alves \u00e9 jornalista<\/span><\/em><\/strong>. <strong> Agora tem uma gata, a <\/strong><strong><em>Love<\/em><\/strong>. Gato \u00e9 gato, bem legal tamb\u00e9m, mas outra coisa. Dedico esse texto ao <strong><em>Kiko<\/em><\/strong>, o pequin\u00eas invocado e meio gamb\u00e1, o primeiro, tamb\u00e9m chamado de <em>Porpeta<\/em>; ao belo poodle prateado <strong><em>Tommy<\/em><\/strong> (inspirado na \u00f3pera rock do <em>The Who<\/em>, porque ele parecia o Roger Daltrey quando nasceu) e, em particular, \u00e0 <strong><em>Morgana<\/em><\/strong>, <em>n\u00e9e<\/em> Morgana Rainha das Fadas, seu nome no pomposo papel de pedigree, a husky da qual tanto tenho saudades de levar um bom papo todos os dias.<br \/>\n<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estar\u00edamos perdidos? Me ocorreu outro dia pensar como seria. Se os cachorros falassem, de verdade, ser\u00e1 que continuar\u00edamos conversando com eles? Contando segredos? O que ser\u00e1 que eles contariam da gente para os &#8220;outros&#8221;, os cachorros? O que nos diriam? Vivo em uma regi\u00e3o de S\u00e3o Paulo onde, como diz o meu pai, tem mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[12],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24987"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24987"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24987\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24990,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24987\/revisions\/24990"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24987"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24987"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24987"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}