{"id":26431,"date":"2011-10-14T18:38:33","date_gmt":"2011-10-14T21:38:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=26431"},"modified":"2011-10-14T18:40:16","modified_gmt":"2011-10-14T21:40:16","slug":"marli-goncalves-em-tique-taque-tique-taque%e2%80%a6-e-la-nave-va","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/10\/14\/marli-goncalves-em-tique-taque-tique-taque%e2%80%a6-e-la-nave-va\/","title":{"rendered":"Marli Gon\u00e7alves em: Tique-taque, tique-taque\u2026 E la nave va"},"content":{"rendered":"<p><center><span style=\"color: #ff0000;\"><em> M\u00e3os ao alto! Voc\u00ea est\u00e1 sendo roubado, mas o ladr\u00e3o diz que \u00e9 bonzinho e tem motivos. V\u00e3o nos roubar uma hora, e ela s\u00f3 ser\u00e1 devolvida depois que o Carnaval chegar e passar. 60 minutos, 3600 segundos. Como se o nosso tempo, j\u00e1 incontrol\u00e1vel tempo, tamb\u00e9m estivesse nas m\u00e3os de quem det\u00e9m o poder. Porque essa t\u00e3o propalada economia n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel tanto quanto \u00e9 a mudan\u00e7a nas nossas cabe\u00e7as? <\/em><\/span><\/center><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><em><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/lh6.ggpht.com\/_PQy7A06gDto\/TMszWPVuHuI\/AAAAAAAAt3M\/va7UPbq3dc8\/marli%20gon%C3%A7alves%20nova.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"129\" \/>Tic, Tac, Tique-taque, tic, tic, tic <\/em><\/strong>. Como tudo muda, mudam tamb\u00e9m os nossos rel\u00f3gios nesta vida e nos fazem pensar no inspirador tempo, cantado em versos e prosas demoradas. S\u00f3 n\u00e3o muda o barulho infernal do rel\u00f3gio que n\u00e3o arrancamos do c\u00e9rebro. Chegou de novo o hor\u00e1rio de ver\u00e3o que acontece na primavera. Mas isso apenas nos torna mais lentos, inst\u00e1veis, diferentes do sincronismo constante e do barulho irritante do tique-taque que nos leva um pouco de vida e vi\u00e7o diariamente. Pare. Ou\u00e7a. Est\u00e1 l\u00e1: <strong>tiquetaque, tic-tac<\/strong>.<\/p>\n<p>O tempo n\u00e3o para, mas o governo resolve ano ap\u00f3s ano engatar a marcha-a-r\u00e9. O tempo s\u00f3 estanca para quem morre ou parte &#8211; e que muitas vezes leva junto o tempo de quem ficou contando minutos para ir tamb\u00e9m. Tudo t\u00e3o relativo que deixa at\u00f4nito quem se atreve a pensar sobre ele, limitado, diferente \u00e0s vezes &#8211; dependendo de onde se est\u00e1 &#8211; e ao mesmo tempo t\u00e3o igual dia ap\u00f3s dia.<\/p>\n<p>O rapaz vinha andando tranquilo. Talvez tivesse vivido um bom feriado. Teria ele ganho presente do dia das crian\u00e7as? Que planos fazia a caminho do trabalho? Um segundo e o tempo dele acabou, quando voou aos ares junto com o restaurante que explodiu no Rio de Janeiro esta semana. Vi e sofri. Me arrependo porque a imagem ficou muito gravada pelos meus olhos. Acabei vendo ainda dezenas de outras vezes pela tev\u00ea aquela cal\u00e7ada arborizada, da rua tranquila na sua normalidade de mais um dia carioca. O garoto vinha andando decidido para sentar na sua cadeirinha no banco onde trabalhava, camisa branca (ter\u00e1 sido passada cuidadosamente pela sua m\u00e3e naquela manh\u00e3?) quando voou e explodiu &#8211; dizem, peda\u00e7os dele e de tudo foram arremessados a mais de 50 metros de dist\u00e2ncia. Um segundo, dois, tr\u00eas? Quando visivelmente at\u00e9 as \u00e1rvores se deslocaram pela explos\u00e3o ele deve ter achado que era terremoto. Qual foi seu \u00faltimo pensamento, teve tempo?<br \/>\n<!--more--><br \/>\nSempre me surpreendo com essas trag\u00e9dias. N\u00e3o que elas sejam exatamente previs\u00edveis, embora \u00e0s vezes nos pare\u00e7a que caminhamos sobre um mundo todo prestes a explodir, sumir, e o que sempre pode acontecer dependendo da p\u00edfia fiscaliza\u00e7\u00e3o nas cidades ou da incapacidade de alerta geral vindo dos governos, no caso das grandes cat\u00e1strofes.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 esse tempo? \u00c9 anal\u00f3gico? Digital? El\u00e9trico ou a pilha? Aqui \u00e9 um; l\u00e1 \u00e9 outro. No rel\u00f3gio que voc\u00ea usa pode ser menos, mais, autom\u00e1tico. Agora mesmo a operadora <em>Vivo<\/em> resolveu que o tal hor\u00e1rio de ver\u00e3o seria antes e o instalou autom\u00e1tico nos celulares, adiantando, sem mais, uma hora, uma semana antes. Com ordem de quem? A quem recorrer pelo susto do acordar atrasado, sem estar atrasado, no domingo? A palpita\u00e7\u00e3o de achar que perdeu compromissos? Aconteceu, e quem tem <em>Vivo<\/em> passou. Reclamar para Deus, ou para quem se acha no direito de (re) estabelecer as horas?<\/p>\n<p>Lembrei do tique e do taque compassado do velho despertador de corda e que no sil\u00eancio da noite amplia o som. Lembrei do r\u00e1dio-despertador e seu som exclusivo, que nos abandonava a qualquer falta de luz. Lembrei at\u00e9 do infal\u00edvel rel\u00f3gio solar, atrav\u00e9s dos tempos. Lembrei at\u00e9 do nosso pr\u00f3prio rel\u00f3gio, o biol\u00f3gico, a quem mais uma vez teremos de recorrer &#8211; pelo menos n\u00f3s, os atingidos de alguns Estados brasileiros. Este ano inclu\u00edram os baianos que andar\u00e3o acelerados uma hora, impulsionados at\u00e9 o carnaval passar. Daqui ou\u00e7o as reclama\u00e7\u00f5es arretadas dos amigos de l\u00e1. Um deles, Fernando Coelho, jornalista e poeta, escreveu: <em>&#8220;INOCENTEM O SOL. Minha amada Salvador n\u00e3o tem metr\u00f4. Mas tem hor\u00e1rio de ver\u00e3o. N\u00e3o tem o Elevador Lacerda digno. Mas tem o hor\u00e1rio de ver\u00e3o. N\u00e3o tem um transporte p\u00fablico decente. Mas o hor\u00e1rio de ver\u00e3o \u00e9 fundamental. A viol\u00eancia corr\u00f3i as fam\u00edlias, mas o hor\u00e1rio de ver\u00e3o \u00e9 diferente, coisa das autoridades&#8221;<\/em>, vai falando, para no fim quase implorar: <em>&#8220;E n\u00e3o culpem o Sol por isso&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p>Ele tem raz\u00e3o. N\u00e3o culpem o Sol. E n\u00e3o culpem a luz. Cientistas estudam esse mecanismo pouco su\u00ed\u00e7o que trazemos em n\u00f3s, e que se modifica quando afetado. Dizem que at\u00e9 nossos cabelos, a sua barba talvez, mostram bem o que nos acontece, e de acordo com as mudan\u00e7as externas acusam que entramos em <strong><em>jet lag<\/em><\/strong>, e que at\u00e9 os cegos podem sentir &#8211; aquela sensa\u00e7\u00e3o de cair no v\u00e1cuo. Neste mundo de malucos h\u00e1 estudos, n\u00e3o comprovados, at\u00e9 sobre o nosso rel\u00f3gio biol\u00f3gico poder ser adiantado ou atrasado quando se ilumina com uma lanterninha a pele macia da parte de tr\u00e1s dos nossos joelhos!<\/p>\n<p>Mais estranho, mas pelo menos mais divertido e melhor do que quando mudamos porque os governos querem que seja assim. <strong><em>Eu, hein?!?<\/em><\/strong><\/p>\n<p><center><span style=\"font-size: xx-small;\"><em><strong>S\u00e3o Paulo, vambora, vambora, t\u00e1 na hora, na hora. 2011<\/strong><\/em><\/span><\/center>\u2022 <span style=\"font-size: x-small;\"><strong><em><span style=\"text-decoration: underline;\"> (*) Marli Gon\u00e7alves \u00e9 jornalista<\/span><\/em><\/strong>. <strong>Sabe que tem quem gosta. Sabe que tem quem aproveita. Um dia tamb\u00e9m gostou, mas sempre pensa no tempo e ele faz tic-tac, tic-tac com a Terra girando normal, natural, protestando contra mudan\u00e7as por decretos<\/strong>.<br \/>\n<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e3os ao alto! Voc\u00ea est\u00e1 sendo roubado, mas o ladr\u00e3o diz que \u00e9 bonzinho e tem motivos. V\u00e3o nos roubar uma hora, e ela s\u00f3 ser\u00e1 devolvida depois que o Carnaval chegar e passar. 60 minutos, 3600 segundos. Como se o nosso tempo, j\u00e1 incontrol\u00e1vel tempo, tamb\u00e9m estivesse nas m\u00e3os de quem det\u00e9m o poder. 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