{"id":28068,"date":"2011-11-06T12:21:33","date_gmt":"2011-11-06T14:21:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=28068"},"modified":"2011-11-06T12:21:33","modified_gmt":"2011-11-06T14:21:33","slug":"na-academia-de-letras-de-itabuna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/11\/06\/na-academia-de-letras-de-itabuna\/","title":{"rendered":"Na Academia de Letras de Itabuna"},"content":{"rendered":"<p>(Discurso proferido por Cyro de Mattos na instala\u00e7\u00e3o da Academia de Letras de Itabuna &#8211; ALITA, audit\u00f3rio da Faculdade de Ci\u00eancia e Tecnologia, 5\/11\/2011).<\/p>\n<p><strong><\/strong>Ilustr\u00edssimo Senhor Presidente da Academia de Letras da Bahia, escritor Aramis Ribeiro Costa, Excelent\u00edssimo Senhor Presidente da Academia de Letras de Itabuna, Dr. Marcos Bandeira, ilustr\u00edssimas autoridades presentes ou aqui representadas, meus senhores, minhas senhoras.<\/p>\n<p>Come\u00e7o fazendo dois registros. O alegre vem do\u00a0 presidente da Academia de Letras da Bahia, escritor Aramis Ribeiro Costa, para\u00a0 quem\u00a0 o\u00a0 jornalista e cronista Antonio Lopes j\u00e1 teceu \u00a0\u00a0as merecidas refer\u00eancias e homenagens.\u00a0 Ressalto que cada dia vou vendo \u00a0mais como a vida precisa de pessoas como Aramis Ribeiro Costa. Homem de finos tratos, culto, cordial, sincero. Formado em Letras, m\u00e9dico conceituado em Salvador. Participativo presidente da Academia de Letras da Bahia. Sobretudo \u00e9 um escritor, que transita com facilidade no conto, romance, poesia e literatura infantil. N\u00e3o posso deixar de considerar que para mim \u00e9 no conto que desponta sua obra como uma das perpendiculares das letras brasileiras contempor\u00e2neas. Sou seu leitor e admirador, desde muito tempo, \u00a0da\u00ed incluir um de seus contos, \u201cDez Anos depois\u201d, um primor de narrativa curta, na antologia\u00a0 \u201cO Conto em Vinte e Cinco Baianos\u201d, livro que organizei e que foi adotado para o vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz, durante \u00a0o per\u00edodo de tr\u00eas anos. Aramis Ribeiro Costa possui uma flu\u00eancia admir\u00e1vel na escrita que seduz. Imagina\u00e7\u00e3o fecunda quando desenvolve uma hist\u00f3ria para flagrar instantes cr\u00edticos da vida. Sua prosa de fic\u00e7\u00e3o curta movimenta-se \u00a0na linhagem do conto tradicional,\u00a0 \u00e0 maneira de Guy de Maupassant e do norte-americano \u00a0O. Henry, com uma linguagem de apreens\u00e3o f\u00e1cil, que no seu escorrer espont\u00e2neo vai erguendo pequenos e grandes mundos. \u00a0Ele \u00e9\u00a0\u00a0 instigante nas observa\u00e7\u00f5es que faz da vida, \u00a0atrav\u00e9s de\u00a0 personagens frutos de um leg\u00edtimo criador de gente, por quem conhece os seres e as coisas no lado invis\u00edvel da alma, \u00a0no ilogismo das ilus\u00f5es e decep\u00e7\u00f5es, \u00a0mas ainda assim auscultados com ternura. Exp\u00f5e bem a psicologia das criaturas que pretende situar no discurso coeso. Uns autores \u00a0preferem armar \u00a0a hist\u00f3ria\u00a0\u00a0 com a palavra transgressora que \u00a0recria a vida. Outros, como Aramis Ribeiro Costa, prefere criar uma\u00a0 hist\u00f3ria com a linguagem simples e comunicativa da vida. Senhor escritor Aramis Ribeiro Costa, amplo e denso ficcionista, competente \u00a0presidente da Academia de Letras da Bahia, Itabuna sente-se honrada com a sua presen\u00e7a, que abrilhanta e enriquece muito este momento.<\/p>\n<p>O registro triste vem do escritor, tradutor e jornalista Marcos Santarrita. Pertenceu \u00e0 minha gera\u00e7\u00e3o, em Salvador, naqueles idos de 1959 a 1964,\u00a0 juntamente com o Alberto Silva, Carlos Falck,\u00a0 \u00a0Adelmo Oliveira, Fernando Batinga, Ildasio Tavares, Oleone Coelho Fontes, Maria da Concei\u00e7\u00e3o Paranhos e \u00a0Ricardo Cruz, entre outros. \u00a0\u00a0No final de cada semana, l\u00e1 estavam alguns desses companheiros em algum bar, na \u00a0Rua da Ajuda,\u00a0 para, \u00a0entre goles de cerveja e muita conversa, percorrermos \u00a0\u00a0os jardins quentes da noite. Falava-se e discutia-se sobre Kafka, Sartre, Brecht, Proust,\u00a0 Joyce, Faulkner, Camus. Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimar\u00e3es Rosa,\u00a0 Graciliano Ramos, Autran Dourado, An\u00edbal Machado, L\u00facio Cardoso, Lima Barreto, Adonias Filho, Jorge Amado. Maiacowsky, Fernando Pessoa, Mario de S\u00e1 Carneiro,\u00a0 Carlos Drummond de Andrade. Garcia Lorca, Robert Frost. Arist\u00f3teles, Carlos Bouso\u00f1o, D\u00e1maso Alonso, Kurtius, Oto Maria Carpeaux. Marx, Garaudy, Lukacs.\u00a0\u00a0 Fic\u00e1vamos inflamados quando coment\u00e1vamos algum livro desses grandes escritores. Nossos quase deuses no mundo. Nem sab\u00edamos que est\u00e1vamos sendo escolhidos pela orquestra\u00e7\u00e3o do destino para exercer tempos depois\u00a0 o solit\u00e1rio e solid\u00e1rio exerc\u00edcio da vida com a\u00a0 arte da palavra. De todos n\u00f3s, Marco Santarrita era o mais revoltado com as trai\u00e7\u00f5es \u00a0da vida. Leitor voraz, buscando equilibrar-se entre as cren\u00e7as e os vazios do desespero. Eu dizia que ele era o nosso Lima Barreto. Ele n\u00e3o gostava. Completava que ele seria o nosso Dostoievski, ela tinha aquele sorriso que alargava o rosto. N\u00e3o havia outra op\u00e7\u00e3o para ele, a n\u00e3o ser o de se tornar um grande escritor.\u00a0 Ah, o tempo, que sabe todos os transes e tr\u00e2nsitos,\u00a0 une e dispersa. Cada um de n\u00f3s depois tomou o seu rumo, empreendeu o seu v\u00f4o nos caminhos da vida.\u00a0 Pensando naqueles anos adolescentes \u00e9 que fiz esse poema:<\/p>\n<p><strong>Passarinhos<\/strong><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Eram passarinhos<\/p>\n<p>No frescor dos sonhos,<\/p>\n<p>Na l\u00e3 da aurora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eram passarinhos<\/p>\n<p>Bicando os gomos da noite<\/p>\n<p>Na aventura da madrugada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eram passarinhos<\/p>\n<p>De cantares afoitos<\/p>\n<p>No arco-\u00edris das horas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eram passarinhos<\/p>\n<p>Dispersos nas penas<\/p>\n<p>Das ra\u00e7\u00f5es duras.<\/p>\n<p>Marcos Santarrita foi para o Rio de Janeiro, aos 25 anos de idade, l\u00e1 sobreviveria como jornalista e tradutor, sem esquecer \u00a0seu sonho maior, que pulsava dentro dele\u00a0 como desejo flamejante. Tornou-se tradutor de grandes escritores,\u00a0 redator de jornais importantes como \u00daltima Hora e Jornal do Brasil. E estreou com as novelas de <em>A Solid\u00e3o dos Homens<\/em>, livro que teve o pref\u00e1cio de Adonias Filho. Enfrentando os instantes da chuva, nos dias \u00a0adversos da cidade grande, \u00a0persistiu na constru\u00e7\u00e3o de uma obra pujante no corpo das letras brasileiras. E conseguiu. Cresceu, amadureceu, impeliu-se com talento e sensibilidade para ser de fato um\u00a0 romancista expressivo, que elaborou seu discurso, de livro para livro, \u00a0com o foco na ossatura hist\u00f3rica, social e existencial dos que carregam duros conflitos em seu estar no mundo. Os seus romances <em>Lady Luana, Dana\u00e7\u00e3o dos Justos, A Santa de Itaju\u00edpe e Mares do Sul, <\/em>por exemplo, mostram \u00a0\u00a0que a literatura possui um \u00a0discurso poderoso para perceber o esp\u00edrito do mundo com as vestes da \u00a0aventura humana, entre o jogo e o drama, o desespero e o precip\u00edcio. \u00a0O mais verdadeiro de todos os discursos, que tantas vezes \u00e9 feito com dor, muita dor, \u00a0n\u00e3o para agradar a grupos, mas para fundamentar a vida com as suas verdades essenciais. E ser \u00fatil ao outro e o mundo. Ele nasceu em Aracaju, residiu em Itaju\u00edpe e faleceu, h\u00e1 poucos mais de 30 dias, \u00a0no Rio de Janeiro. Falei com ele antes de partir, dei-lhe coragem,\u00a0 mostrei o quanto a vida precisa dele como romancista. Ele me respondeu que estava vencendo a crise. Foi indicado por mim e aprovado por unanimidade pelos membros fundadores para ser um dos nossos membros efetivos \u00a0da Academia de Letras de Itabuna. Sua aus\u00eancia traz \u00a0uma perda enorme para a nossa academia.<\/p>\n<p>Meus senhores, minhas senhoras.<\/p>\n<p>Programaram-me para que eu, representando os membros da ALITA, \u00a0\u00a0falasse acerca da import\u00e2ncia dessa academia de letras, que ora est\u00e1 nascendo.\u00a0 N\u00e3o deviam fazer isso. Eu n\u00e3o queria. A solenidade ficaria cansativa. Al\u00e9m disso, \u00a0sempre gostei \u00a0de ouvir quem sabe proferir o discurso com a palavra oral, s\u00e1bia, \u00a0sonora e casti\u00e7a. Ouvir para aprender. E sempre me senti \u00e0 vontade com a palavra escrita. \u00a0Foi com a \u00a0palavra escrita que, bem ou mal, \u00a0cheguei at\u00e9 aqui. Lembro, nesse momento, que meu personagem Tidoramim, da narrativa Os Brabos, come\u00e7a seu mon\u00f3logo assim: \u201cVoc\u00ea veja, Capivari, se o Pai Grande botou a gente nesse conforme duma boca e dois ouvidos \u00e9 pra menos falar e muito mais ouvir. E sendo assim eu mesmo me bendigo: sou de menos falar, menos palavrar, menos discutir. Sou de mais olhar, mais ouvir, mais pensar, mais sonhar, mais sentir\u201d.\u00a0 Tidoramim \u00e9 uma criatura inocente, ensimesmada,\u00a0 acha que a vida \u00e9 melhor e intensa para quem a l\u00ea em sil\u00eancio. Nasceu no campo, cresceu \u00a0\u00a0e aprendeu a se comunicar com os seres e as coisas ouvindo \u00a0a linguagem dos p\u00e1ssaros\u00a0 e dos bichos.<\/p>\n<p>Meus senhores, minhas senhoras. \u00c9 preciso compreender a criatura humana com a sua \u00edndole introspectiva e n\u00e3o confundi-la com o pedante. \u00c9 preciso n\u00e3o ser leviano e compreender o ser humano em sua loucura l\u00facida, \u00a0n\u00e3o conceb\u00ea-lo como um bicho diferente, perigoso sonhador, \u00a0um caso sem jeito, n\u00e3o faz nada de proveito real, trata-se de um rancoroso, inconseq\u00fcente amea\u00e7ador do sistema. \u00c9 preciso\u00a0 amar as pessoas como elas s\u00e3o e o que t\u00eam a nos dizer quando saem de dentro de si com os sentimentos puros e verdadeiros. \u00a0\u00a0Aparentemente todos n\u00f3s somos iguais, mas cada qual dentro de si carrega uma\u00a0 fera ou um anjo, raramente. Cada cidade, que se quer civilizada, precisa reconhecer e estimar seus homens de letras, seus escritores, seus poetas, seus artistas. Beber o\u00a0 suco melhor de sua intelig\u00eancia. \u00a0Porque o que vale mesmo n\u00e3o \u00e9 a casca, o verniz,\u00a0 que simula os artif\u00edcios e as mazelas, transmite sem esfor\u00e7o a corrup\u00e7\u00e3o e a mentira. O que vale \u00e9 a verdade com sua \u00e9tica, que nos alimenta de humanidades sem as fronteiras do preconceito, E nos impinge o sentido rico da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Nessas circunst\u00e2ncias \u00a0sempre me perguntei o que \u00e9 uma academia de letras? Para que serve? Todo intelectual para que seja completo deve ingressar em uma academia de letras? \u00a0Para que ent\u00e3o se sinta realizado como um ente que pensa e sente? O poeta Carlos Drummond de Andrade resistiu durantes anos aos ass\u00e9dios do presidente Austrag\u00e9silo de Athayde para que ele fosse membro da Academia Brasileira de Letras. O trivial l\u00edrico de Itabira n\u00e3o suportava falar nesse assunto. J\u00e1 outro poeta maior, pleno de ternura e mansid\u00e3o porque acreditava na exist\u00eancia das flores como meio para inaugurar\u00a0 novos sentidos na permanente paix\u00e3o da vida,\u00a0 o ga\u00facho M\u00e1rio Quintana, tentou v\u00e1rias vezes ingressar na Academia Brasileira\u00a0 de Letras e sempre foi derrotado. Certa vez um jornalista perguntou-lhe por que insistia tanto em ser membro da Academia Brasileira de Letras quando na verdade ela era que precisava dele e de sua obra para se tornar mais rica. \u00a0Ele respondeu com esses versos<em>: Eu sou passarinho\/ Enquanto os outros passar\u00e3o. <\/em>Quando fui receber o Grande Pr\u00eamio\u00a0 da Associa\u00e7\u00e3o Paulista dos Cr\u00edticos de Artes, em S\u00e3o Paulo, no Memorial da Am\u00e9rica Latina, em 1992, por meu livro O Menino Camel\u00f4, conheci Rachel de Queiroz, que naquela oportunidade iria receber a mesma l\u00e1urea por seu monumental romance <em>Memorial \u00a0de Maria Moura<\/em>. Aproximei-me dela e disse que era de Itabuna, cidade onde ela havia passado\u00a0 os primeiros anos de casada. Estava feliz por conhec\u00ea-la. Quando adolescente, havia lido seus romances <em>O Quinze, Caminho de Pedras e As Tr\u00eas Marias, <\/em>disse.<em> <\/em>Seu ingresso na Academia Brasileira de Letras, como a primeira mulher que rompia as barreiras do preconceito de uma institui\u00e7\u00e3o cultural r\u00edgida, \u00a0deixava centenas de brasileiros sorrindo de contente e, em especial, as mulheres. Ela observou que n\u00e3o acreditava nisso de legado e de imortalidade em academia de letras. A gente aparece e desaparece, fica tudo na poeira do tempo, muita coisa acontece por acaso como num lance de dados, porque tem de acontecer, completou.<\/p>\n<p>Nesses tr\u00eas casos que agora relato, percebe-se que \u00a0as posturas diferentes est\u00e3o entrela\u00e7adas de verdade com rela\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00e0 maneira de conceber o que \u00e9 e para que vale uma academia de letras. O poeta Carlos Drummond de Andrade d\u00e1 a entender que o que vale mesmo \u00e9 a obra, o escritor sustenta-se \u00e9 com o que produz no reino da sensibilidade. N\u00e3o \u00e9 uma academia de letras que faz que eu seja um bom escritor. J\u00e1 M\u00e1rio Quintana, com os seus versos que se tornaram c\u00e9lebres, diz que o espa\u00e7o duma academia de letras \u00e9 tamb\u00e9m a campina onde \u00a0passarinhos podem comer o alpiste para cantar e encantar. E voar. \u00a0\u00c9 ali tamb\u00e9m o lugar dos sonhos, que circulam e se propagam pelas cidades do imagin\u00e1rio. \u00a0Enquanto a romancista cearense Raquel de Queiroz, com leve ironia,\u00a0 penso, \u00a0pretendeu me dizer \u00a0que um\u00a0 legado liter\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 tudo, at\u00e9 \u00a0pode perdurar mais do lado de c\u00e1 na vida, mas \u00e9 pouco, muito pouco, \u00e9 o \u00ednfimo no macro, fr\u00e1gil e incapaz de decifrar o mist\u00e9rio insond\u00e1vel da morte. Sabemos que nesse\u00a0 mist\u00e9rio c\u00f3smico, que nos habita e nos envolve, o sol, a lua, as estrelas n\u00e3o dependem de n\u00f3s. Isso d\u00f3i,\u00a0 faz mais triste a vida, nessa noite sem amanh\u00e3, \u00a0que nos acompanha desde tempos imemoriais.<\/p>\n<p>Meus senhores, minhas senhoras. Uma academia de letras \u00a0tem por objetivo o cultivo da l\u00edngua e da literatura nacionais, \u00a0em suas rela\u00e7\u00f5es com as artes e as ci\u00eancias humanas consideradas como \u00a0ideais. \u00a0Vale lembrar que\u00a0 a Academia Brasileira de Letras inspirou-se no modelo franc\u00eas e que no in\u00edcio funcionava \u00a0para expressar o sorriso da sociedade. Importava-lhe apenas o cultivo das \u00a0belas letras \u00a0porque viv\u00edamos numa \u00e9poca em que os nossos intelectuais pensavam\u00a0 o Brasil com o pensamento na Fran\u00e7a. A nossa Academia Brasileira de Letras era assim fiel ao modelo que lhe deu origem, flutuante e perfumada \u00a0ao estilo de vida francesa na \u00a0bela \u00e9poca, no final do s\u00e9culo XIX e come\u00e7o do XX. \u00a0Suas atividades estavam sintonizadas com o\u00a0 adorno do liter\u00e1rio atrav\u00e9s da r\u00e9cita, a cantata e\u00a0 o sarau dos sal\u00f5es aristocr\u00e1ticos. Nas\u00a0 trilhas dessa valsa repetitiva, a Academia Brasileira de Letras caminhou por muito tempo \u00a0e inspirou outras academias nas capitais e interiores brasileiros. A partir da segunda metade do s\u00e9culo XX, teve que mudar de comportamento, a sociedade exigiu-lhe essa mudan\u00e7a de h\u00e1bito. Teria de ser um espa\u00e7o criativo e din\u00e2mico, se n\u00e3o quisesse ficar \u00e0 margem do processo da vida com sua evolu\u00e7\u00e3o permanente. Ent\u00e3o passou a participar da vida em sociedade para o bem melhor e intenso das letras. \u00a0O mesmo\u00a0 fez a Academia de Letras da Bahia de uns anos para c\u00e1, \u00a0promovendo cursos, oficinas, concursos, simp\u00f3sios, ciclo de estudos, fazendo a inser\u00e7\u00e3o da universidade em seu espa\u00e7o de bases acad\u00eamicas.<\/p>\n<p>Em um mundo em que os valores espirituais cada vez mais se tornam descart\u00e1veis, os valores materiais tomam conta de tudo, as gera\u00e7\u00f5es correm e voam numa automa\u00e7\u00e3o incr\u00edvel, que nos deixa estarrecidos, \u00a0cabem \u00e0s\u00a0 Academias de Letras cultivar como nunca a import\u00e2ncia da l\u00edngua,\u00a0 da literatura e da comunica\u00e7\u00e3o, como manifesta\u00e7\u00f5es\u00a0 inerentes aos\u00a0 seres humanos no elogio da vida. Por isso mesmo \u00e9 que, atrav\u00e9s de atividades m\u00faltiplas, liter\u00e1rias, art\u00edsticas e culturais, podemos dizer que hoje \u00a0perenizam \u00e0queles que as personalizam quando ent\u00e3o usam os sinais vis\u00edveis da escrita e\u00a0 da orat\u00f3ria como instrumentos \u00fateis para a compreens\u00e3o da exist\u00eancia. Mas isso s\u00f3 se faz real, eficaz e\u00a0 abrangente,\u00a0 duradouro e\u00a0 de alcance maior na vida, \u00a0se houver nas suas atividades e projetos \u00a0a parceria dos setores importantes da sociedade.<\/p>\n<p>Como tudo na vida, uma academia de letras precisa de recursos para sobreviver com dignidade. Executar com seriedade e trabalho suas atividades e projetos. Necessita da ajuda positiva das pessoas, da sociedade,\u00a0 dos setores empresariais, dos poderes legislativo e\u00a0 executivo do nosso munic\u00edpio. Ela ser\u00e1 sempre tr\u00f4pega se depender apenas do esfor\u00e7o e do idealismo de alguns membros abnegados. \u00c9 preciso \u00a0que no or\u00e7amento do\u00a0 legislativo e do executivo exista uma cota ideal, decente, \u00a0\u00a0para ajudar a nossa academia de letras, \u00a0que agora est\u00e1 nascendo com o prop\u00f3sito firme de levar o bem liter\u00e1rio e cultural para os outros, os que fazem essa comunidade ser progressista. Gente da elite, \u00a0mediana e pobre. \u00a0Para que seus passos sejam largos e o sorriso que compraz \u00a0o rosto esteja sempre no semblante de nossa querida Itabuna. \u00c9 \u00a0preciso que essa parceria se torne um costume consciente, lei que ajuda a regrar a vida como um corpo social coeso e equilibrado. \u00a0Para que assim \u00a0nossa amada regi\u00e3o e nossa querida Bahia se orgulhem de nossa Academia de Letras. Reconhe\u00e7am que a ALITA de fato \u00a0propicia meios para a valoriza\u00e7\u00e3o\u00a0 da auto-estima dos outros no mundo. Contribui em parte \u00a0para retirar o homem grapi\u00fana do \u00f3cio e da zona de risco. \u00a0Repito, uma entidade dessa natureza \u00e9 de fato atuante, marcante,\u00a0 quando ao seu lado existe uma parceria de amigos e patrocinadores.<\/p>\n<p>\u00c9 do pernambucano Jo\u00e3o \u00a0Cabral de Melo Neto esse poema:<\/p>\n<p>Tecendo a Manh\u00e3<\/p>\n<p>Um galo sozinho n\u00e3o tece uma manh\u00e3:<br \/>\nele precisar\u00e1 sempre de outros galos.<br \/>\nDe um que apanhe esse grito que ele<br \/>\ne o lance a outro; de um outro galo<br \/>\nque apanhe o grito de um galo antes<br \/>\ne o lance a outro; e de outros galos<br \/>\nque com muitos outros galos se cruzem<br \/>\nos fios de sol de seus gritos de galo,<br \/>\npara que a manh\u00e3, desde uma teia t\u00eanue,<br \/>\nse v\u00e1 tecendo, entre todos os galos.<br \/>\nE se encorpando em tela, entre todos,<br \/>\nse erguendo tenda, onde entrem todos,<br \/>\nse entretendendo para todos, no toldo<br \/>\n(a manh\u00e3) que plana livre de arma\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA manh\u00e3, toldo de um tecido t\u00e3o a\u00e9reo<br \/>\nque, tecido, se eleva por si: luz bal\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 de minha autoria esse pequeno poema que fiz ontem e que agora utilizo para encerrar a minha fala:<\/p>\n<p>O Milagre da Poesia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>L\u00e1 longe o velho sol<\/p>\n<p>N\u00e3o pintava os desertos<\/p>\n<p>Com as cores da\u00a0 manh\u00e3.<\/p>\n<p>A lua n\u00e3o espalhava dores,<\/p>\n<p>A chuva n\u00e3o fecundava<\/p>\n<p>O ventre mineral da terra.<\/p>\n<p>O v\u00e1cuo in\u00fatil era tudo.<\/p>\n<p>A\u00a0 raz\u00e3o e a emo\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Estenderam a palavra<\/p>\n<p>No vazio do mundo.<\/p>\n<p>Com suspiros e pesares,<\/p>\n<p>Embora existam as flores,<\/p>\n<p>A vida deu-me os sabores.<\/p>\n<p>A poesia, \u00a0os rumores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Discurso proferido por Cyro de Mattos na instala\u00e7\u00e3o da Academia de Letras de Itabuna &#8211; ALITA, audit\u00f3rio da Faculdade de Ci\u00eancia e Tecnologia, 5\/11\/2011). Ilustr\u00edssimo Senhor Presidente da Academia de Letras da Bahia, escritor Aramis Ribeiro Costa, Excelent\u00edssimo Senhor Presidente da Academia de Letras de Itabuna, Dr. Marcos Bandeira, ilustr\u00edssimas autoridades presentes ou aqui representadas, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28068"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28068"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28068\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28071,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28068\/revisions\/28071"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28068"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28068"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28068"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}