{"id":28279,"date":"2011-11-08T21:13:31","date_gmt":"2011-11-08T23:13:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=28279"},"modified":"2011-11-08T21:13:31","modified_gmt":"2011-11-08T23:13:31","slug":"kdt-em-ida-de-um-baiano-pobre-a-um-restaurante-chique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/11\/08\/kdt-em-ida-de-um-baiano-pobre-a-um-restaurante-chique\/","title":{"rendered":"KDT em: Ida de um baiano pobre a um restaurante chique&#8230;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: serif; font-size: small;\">Eu jurava que nunca iria gastar meus suados reais num restaurante cheio de<br \/>\nfrescuras. Um lugar onde voc\u00ea pede um prato e vem um pedacinho de carne do<br \/>\ntamanho e da espessura de meia folha de papel de of\u00edcio, dobrada ao meio<br \/>\nacompanhada de uma migalha de arroz com um molhinho e uma folha de louro e<br \/>\nque custam os olhos da cara e o de baixo tamb\u00e9m. E onde todos tiram uma onda retada.<\/p>\n<p>Mas eis que Deus, sem ter nada melhor pra fazer, olhou pra mim e disse:\u00b4&#8221;-T\u00fa<br \/>\nvai sim, sacana&#8221; e num belo dia, ap\u00f3s ligar para a R\u00e1dio Metr\u00f3pole de seu<br \/>\nM\u00e1rio Qu\u00e9rtz, ganhei uma cortesia de 50 badar\u00f3s para gastar num desses<br \/>\nrestaurantes, no caso espec\u00edfico, aquele que fica no Rio Vermelho. O que tem<br \/>\no nome daquele pintor espanhol, xar\u00e1 de nossa cidade. N\u00e3o \u00e9 o daqui. \u00c9 o Dali.<\/p>\n<p>E l\u00e1 fui eu devidamente acompanhado para o restaurante burgu\u00eas e pensando:<br \/>\n\u201cHoje vou tirar onda, minha porra!!!\u201d<\/p>\n<p>Botei aquela roupa comprada em 7 vezes na Riachuelo que eu s\u00f3 uso em<br \/>\nocasi\u00f5es especiais e me piquei pra l\u00e1.<\/p>\n<p>Chegando no local, fui recebido por um neg\u00e3o do tamanho da zorra na porta.<br \/>\nPensei: &#8220;Esse filadaputa vai me barrar&#8221; Que nada. O cara veio com um \u201cBoa<br \/>\nnoite senhor&#8221; Senhor, sacana&#8230; Me senti at\u00e9 gente. L\u00e1 no Cai Duro, a maior<br \/>\nrever\u00eancia que recebo \u00e9 quando o gar\u00e7om me chama de \u201cbrother\u201d. O neg\u00e3o era<br \/>\nmanobrista, s\u00f3 que n\u00e3o precisava de manobrista j\u00e1 que eu tinha um motorista.<br \/>\nUm motorista e um cobrador.<\/p>\n<p>O neg\u00e3o me passou para um outro cara, que perguntou se eu queria ficar no<br \/>\nbar ou ir pro lounge? E eu pensando &#8220;Que desgra\u00e7a \u00e9 lounge?&#8221;. Depois \u00e9 que<br \/>\neu fui ver que era a parte de cima do bar. Porra, que frescura .<br \/>\nBastava perguntar &#8220;Vai ficar no bar ou quer subir?&#8221;<\/p>\n<p>Esse outro cara me passou para uma morena que me encaminharia pra minha<br \/>\nmesa. \u00c0quela altura eu j\u00e1 estava ficando cansado daquela paletada. Eu vim<br \/>\ncomer ou fazer trekking? E o pior \u00e9 que naquele ritmo, quando eu chegasse \u00e0<br \/>\nmesa j\u00e1 teria dado meia noite e eu n\u00e3o teria mais buz\u00fa pra voltar pra casa.<\/p>\n<p>Fui acomodado na varanda que fica sobre o mar. O mesmo cheiro de maresia da<br \/>\nRibeira. Mas era uma maresia chique da zorra. As algas deveriam ser daquelas<br \/>\ncriadas nas \u00e1guas termais dos mares da Gr\u00e9cia, colhidas em Mikonos,<br \/>\nimportadas de avi\u00e3o e jogadas embaixo da sacada do restaurante daqui.<\/p>\n<p>O restaurante era massa. Velas por todos os lados. Um tel\u00e3o. Uma decora\u00e7\u00e3o<br \/>\nbala. E um daqueles quadros borrados. Daqueles em que os endinheirados ficam<br \/>\nparados na frente, n\u00e3o entendem porra nenhuma da pintura, mas ficam olhando<br \/>\ncom a m\u00e3o no queixo, a testa franzida fazendo tipo e dizendo coisas do tipo:<br \/>\n\u201ceste quadro representa toda a magnitude do ser, expressada pelas linhas<br \/>\nassimetricamente delineadas pelo tra\u00e7o introspecto do artista e n\u00e3o sei mais<br \/>\no que&#8230; Pra mim era um quadro borrado. N\u00e3o gostou? Me bata!<\/p>\n<p>Arte abstrata uma banana. Lembrei logo daquele cartaz\/ propaganda antigo da<br \/>\nMarlboro que fica na parede do pir\u00e3o do Bar do Pascoal no Santo Ant\u00f4nio.<br \/>\nPode ser sintoma de pobreza mais achei mais legal a foto daquele cowboy que<br \/>\nse lenhou de c\u00e2ncer no pulm\u00e3o, do que esse quadro borrado chique.<\/p>\n<p>Ao fundo tocava uma m\u00fasica internacional. N\u00e3o entendi nada do que a cantora<br \/>\ncantava, mas pelo menos n\u00e3o era arrocha, ax\u00e9, pagode e nem Ana Carolina. N\u00e3o<br \/>\nag\u00fcento mais ouvir &#8220;Eu queeero te roubar pra mim&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 as pessoas nem respiram. Um ar soturno de museu de cera. Se voc\u00ea olha<br \/>\nmuito para algu\u00e9m, essa pessoa j\u00e1 pensa que voc\u00ea quer roub\u00e1-la, sei l\u00e1. Rico<br \/>\nquando conversa, n\u00e3o ri. Parecem estar em coma. E as caras e bocas daquela<br \/>\ngente bonita? V\u00e3o \u00e0 merda.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: serif; font-size: small;\"><!--more--><\/p>\n<p>Ao fundo, um bigodudo fumava um charuto do tamanho de um tubo de 50mm da<br \/>\nTigre, daqueles de passar tolete. Dava cada baforada, como se escrevesse no<br \/>\nar com a fuma\u00e7a &#8220;eu tenho uma Land Rover e um C5 Pallas&#8221; Eu tenho uma<br \/>\ncobertura no Le Parc&#8221; &#8220;Eu sou o fod\u00e3o&#8221;. E eu pensando: &#8220;Esse filadaputa deve<br \/>\nestar devendo duas parcelas do leasing do CIVIC. Mais uma e o banco toma.&#8221;<\/p>\n<p>Chega o gar\u00e7om e oferece o couvert. Olhei ao redor, mas n\u00e3o tinha ningu\u00e9m<br \/>\ntocando. Tinha sim um tel\u00e3o enorme. Ser\u00e1 que eu teria que pagar pra assistir<br \/>\nTV nessa zorra?<\/p>\n<p>O gar\u00e7om trouxe o tal do couvert. Era comida. Na verdade, era uma cenoura<br \/>\ncortada na horizontal, em quatro, com um p\u00e3o cacetinho torrado cortado em<br \/>\nrodelas com duas cumbuquinhas, uma com manteiga e outra com pat\u00ea. O pre\u00e7o?<br \/>\nR$ 7,90. Que porra \u00e9 essa? No restaurante &#8220;O L\u00edder&#8221; do Largo Dois de Julho<br \/>\neu bato um sanduich\u00e3o de pernil de porco e queijo de cuia que tem aquele<br \/>\nmolho secreto maravilhoso com uma Coca e ainda sobram R$ 1,50. Gentilmente<br \/>\nrecusei o couvert. &#8220;N\u00e3o estava disposto&#8221;. Olhe que ag\u00e1 da porra&#8230;<\/p>\n<p>E as bebidas? Cada 8 latinhas l\u00e1 no chique daria para tomar uma caixa no bar<br \/>\nde Licinho, em Jequi\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Resolvemos pedir o prato. O card\u00e1pio tinha um monte de nomes que mais<br \/>\npareciam a escala\u00e7\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o da Thecoslov\u00e1quia da copa de 86. Pedimos um<br \/>\ntal de &#8220;Salm\u00e3o ao molho Nag\u00f3ia&#8221;. Olhando a descri\u00e7\u00e3o do prato, era uma posta<br \/>\nde salm\u00e3o com arroz, acompanhada de um molho \u00e0 base de Inhame e ervilhas. Eu<br \/>\nnem sabia que tinha inhame no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto esper\u00e1vamos o prato, mostrei \u00e0 gata que estava comigo, um coroa que<br \/>\nestava acompanhado de uma deliciosa morena que eu acho que vi naquele site *<br \/>\n*www.elitegr&#8230;deixa* &lt;<\/span><a href=\"http:\/\/www.elitegr\/\" target=\"_blank\"><span style=\"font-family: serif;\">httt:\/\/www.elitegr.<\/span><\/a><span style=\"font-family: serif;\">..deixa\/&gt;* pra l\u00e1.<br \/>\n**<br \/>\nBem. O cara estava numa marra danada tirando uma de en\u00f3logo (aquele cara que<br \/>\nsabe sobre vinhos, ou finge que sabe) e faz quest\u00e3o de se mostrar na frente<br \/>\nde todo mundo como se s\u00f3 ele entendesse da bebida. E eu de c\u00e1, explicando \u00e0<br \/>\nminha gata os movimentos. Porra. Eu tamb\u00e9m sei sobre vinhos, eu tenho acesso<br \/>\n\u00e0 internet, tem Lan House l\u00e1 em Plataforma, . Sei algumas coisas<br \/>\nsobre vinhos, mas, n\u00e3o fico tirando onda de muita merda. E n\u00e3o tenho<br \/>\nbesteira. Eu bebo um aut\u00eantico &#8220;Pinot Noir&#8221; da mesma forma que bebo um<br \/>\n&#8220;Abaira&#8221; com Coca-Cola e gelo, sem problemas.<\/p>\n<p>E o cara seguia cheirando a rolha, olhando o r\u00f3tulo, colocando a ta\u00e7a contra<br \/>\na vela, abrindo o buqu\u00ea, sentindo o tanino e o escambau. Aquele n\u00e3o era um<br \/>\nbebedor de vinho. Era praticamente um t\u00e9cnico da NASA.<\/p>\n<p>Chega o prato.<\/p>\n<p>Cara, que mizera era aquilo? Um taquinho de salm\u00e3o do tamanho de um celular<br \/>\nN-73 da Nokia, s\u00f3 que mais fino, acompanhado de uma cumbuca de arroz virada<br \/>\nde cabe\u00e7a pra baixo e tr\u00eas ervilhas de cada lado, melecado por um molhinho<br \/>\nderramado em forma de &#8220;S&#8221;. O est\u00f4mago disse, &#8220;Voc\u00ea \u00e9 viado, porra? Quer me<br \/>\nlenhar? E eu? Como \u00e9 que eu fico?&#8221;<\/p>\n<p>E ainda por cima, como todo bom pobre neo-classe m\u00e9dia, perguntei \u00e0 minha<br \/>\ngata por que o peixe era rosa.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;\u00c9 salm\u00e3o, tabar\u00e9u&#8221;.<\/p>\n<p>E eu l\u00e1 tenho obriga\u00e7\u00e3o de saber que salm\u00e3o \u00e9 rosa? Peixe rosa eu s\u00f3 vi uma<br \/>\nvez e era porque estava estragado. Nem pedi farinha pra ela n\u00e3o se retar<br \/>\ncomigo.<\/p>\n<p>Enquanto eu comia, pensava \u201cComo \u00e9 que gente rica se sustenta?\u201d Aquilo n\u00e3o<br \/>\nd\u00e1 sustan\u00e7a, como dizia meu av\u00f4. Se eu comer meu feij\u00e3o sem farinha, fico<br \/>\nlogo com fome depois, imagine aquela merreca? Morreria de inani\u00e7\u00e3o em dois<br \/>\ndias.<\/p>\n<p>Mas ainda tinha a sobremesa.<\/p>\n<p>Seguindo a indica\u00e7\u00e3o de minha amiga Camila Cintra, ass\u00eddua freq\u00fcentadora do<br \/>\nlocal (e dos melhores locais de Salvador e Austr\u00e1lia, diga-se de passagem) e<br \/>\nburguesa brother, pedi um tal de &#8220;petit gateau&#8221; que ela tinha me dito ser de<br \/>\ncair os dentes de t\u00e3o gostoso.<\/p>\n<p>Perguntei ao gar\u00e7om como era o tal Gato Pequeno (tradu\u00e7\u00e3o minha) e ele me<br \/>\ndisse em tom de mist\u00e9rio armado, para valorizar a sobremesa, que &#8220;era uma<br \/>\nsobremesa que congressava harmonicamente o calor com o frio num misto de<br \/>\nencantamento e vigor saboroso das duas sobremesas&#8221;.<\/p>\n<p>Cara. Pela descri\u00e7\u00e3o, aquilo n\u00e3o era s\u00f3 uma sobremesa, era o conte\u00fado do<br \/>\nc\u00e1lice sagrado. Do Santo Graal. Bebido pelo pr\u00f3prio Jesus na Santa Ceia.<\/p>\n<p>Fiquei numa expectativa retada e quando chegou a sobremesa, era um bolinho<br \/>\nde chocolate quente, nada demais, que vinha acompanhado de uma bola de<br \/>\nsorvete de creme. Era gostosinho sim, mas n\u00e3o vi nada de mais.<\/p>\n<p>Sei que minha amiga Camilinha ao ler isso, dir\u00e1 que eu tenho o paladar<br \/>\nprejudicado pela pobreza, isso porque eu disse uma vez que as trufas do<br \/>\nTango Caf\u00e9 de Praia do Forte, que ela e metade da Bahia barona achavam<br \/>\ndeliciosas, eram meia boca, amargas e caras e que eu preferia uma boa caixa<br \/>\nde bombons Lacta.<\/p>\n<p>Mas na moral, o sorvete do Auditorium de Ailton era mais gostoso do<br \/>\nque aquele que acompanhava o Petit Gateau.<\/p>\n<p>No final das contas, gastei mais R$ 25,00 al\u00e9m da cortesia e sa\u00ed num rango<br \/>\nda zorra.<\/p>\n<p>A salva\u00e7\u00e3o foi me picar pro Mercado do Rio Vermelho ao lado e forrar o<br \/>\nest\u00f4mago com uma deliciosa moqueca de arraia regada com algumas<br \/>\ngelosas, sentado numa leg\u00edtima cadeira de pr\u00e1sco.<\/p>\n<p>Volto num restaurante chique? Craro.<\/p>\n<p>Se descolar uma cortesia de novo&#8230; <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8212;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desconhe\u00e7o a autoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu jurava que nunca iria gastar meus suados reais num restaurante cheio de frescuras. 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