{"id":30341,"date":"2011-12-08T11:06:53","date_gmt":"2011-12-08T13:06:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=30341"},"modified":"2011-12-08T11:06:53","modified_gmt":"2011-12-08T13:06:53","slug":"os-parentes-de-feliciana-da-vera-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/12\/08\/os-parentes-de-feliciana-da-vera-cruz\/","title":{"rendered":"OS PARENTES DE FELICIANA DA VERA CRUZ"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><strong>(\u00a0 f\u00e1bula infantil\u00a0 )<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><strong>Por Guilherme Albagli<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Era uma vez uma terra distante onde os \u00edndios buscavam viver em paz. \u00a0\u00a0Mas, de repente, ali chegaram os Kara\u00edba, chefiados por Lu\u00eds de Almeida, pondo os \u00edndios a correr sert\u00e3o acima. Mais tarde, precisaram destes para cortar cana e os trouxeram de volta &#8211; tr\u00eas mil -; os escravizaram e os confinaram na aldeia do Bukim, na beirada do Itanhy.<\/p>\n<p>Foi no Bukim, em 1770, que nasceu Kunh\u00e3poranga, a mais linda menina j\u00e1 vista naquela aldeia Tupinamb\u00e1. Em 1785 ela encantou a Jo\u00e3o Brake, pe\u00e3o de uma est\u00e2ncia de gado ali perto, que a ca\u00e7ou no mato e a batizou Feliciana da Vera Cruz. Ela nunca aprendeu a falar o portugu\u00eas, mas Jo\u00e3o falava bem a sua l\u00edngua e dizia \u00e0 mulher:<\/p>\n<p><em>\u201cPiri\u00e7a, ix\u00e9 wirain, end\u00e9 kunh\u00e3 porangaet\u00e9&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p><em><\/em>Ela sorria e desaparecia na cozinha do alpendre dos fundos da casa, voltando com caf\u00e9 e <em>\u201cpossoka<\/em>\u201d de banana da terra cozida com c\u00f4co ralado.\u00a0\u00a0 \u00c0s vezes, Jo\u00e3o Brake ficava na rede, olhando o canavial, quando ela aparecia com uma cuia de coco com \u201c<em>yakuba<\/em>\u201d- \u201c\u00e1gua esquentada\u201d-, na sua l\u00edngua natal. Derramava \u00e1gua quente na farinha de tapioca, esperava inchar e a temperava com a\u00e7\u00facar e lim\u00e3o ou mel e p\u00f3 de amendoim torrado.<\/p>\n<p>\u201c<em>Ix\u00e9 kunh\u00e3in, end\u00e9 katuet\u00e9&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p><em><\/em>Ela sorria e desaparecia na cozinha.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Nasceu-lhes, em 1790, Antonia \u2013 mulher decidida que montava cavalo em pelo, correndo canaviais -. Enviuvou cedo, ficando com dois filhos, dois engenhos e, na vila, um casar\u00e3o antigo onde hospedou, por uma noite, o Casal Imperial.<\/p>\n<p>Depois de longa seca seguida por uma epidemia com muitas mortes, o filho ca\u00e7ula de Ant\u00f4nia vendeu seu engenho e migrou \u00e0 Bahia com mulher e tr\u00eas filhas, comprando um laranjal no Cabula. Mas rolou uma proposta indesejada de casamento para uma das mo\u00e7oilas rec\u00e9m-chegadas. Isso foi em 1875. Vendeu logo o s\u00edtio e se mudou para uma terra mais ao sul, onde come\u00e7ava a se plantar uma novidade chamada cacau. Ali, as suas filhas mais velhas desposaram dois irm\u00e3os, caboclos nativos, e tiveram muitos filhos, netos, bisnetos, trinetos, tetranetos&#8230;<\/p>\n<p>A ca\u00e7ula das tr\u00eas irm\u00e3s, professora em\u00e9rita, n\u00e3o casou. Foi ela quem primeiro ensinou \u00e0s meninas do lugar a assinar o nome. Foi ela quem transmitiu \u00e0s sobrinhas parte da sua mem\u00f3ria familiar e muito se orgulhava da sua origem amer\u00edndia. Conheceu a bisav\u00f3 Feliciana e entendia o que esta falava. Morreu em 1947, aos 90 anos, numa semana de raios, rel\u00e2mpagos, tempestades e trov\u00f5es ininterruptos. Parecia um dil\u00favio. Parecia Tup\u00e3 chamando a sua filha de volta e a avisando, na sua l\u00edngua, que a sua miss\u00e3o na Terra fora bem cumprida.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>A Metafic\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica, irm\u00e3 do Realismo Fant\u00e1stico e do Romance Hist\u00f3rico, \u00e9 um g\u00eanero liter\u00e1rio fruto do entrela\u00e7amento da Hist\u00f3ria com a Fic\u00e7\u00e3o. Foram explorados por grandes autores contempor\u00e2neos consagrados: Garcia-M\u00e1rquez, Amado, Saramago, Dias Gomes, Yourcenar, A. Hayley.<\/p>\n<p>Embora estes g\u00eaneros acima tenham denomina\u00e7\u00f5es recentes, sempre foram conhecidos textos para o p\u00fablico infantil entremeando fantasia e hist\u00f3ria. \u201cNau Catarineta\u201d conta e canta a hist\u00f3ria semi-real de um barco perdido no oceano por \u201csete anos e um dia\u201d.\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cSargento Ded\u00e9o\u201d \u00e9 um exemplo da literatura infantil paulista, dos anos de 1950, mesclando doce fantasia e Hist\u00f3ria do Brasil. Monteiro Lobato socializa personagens hist\u00f3ricos e realistas com personagens fict\u00edcios (Pedrinho, Narizinho) e fant\u00e1sticos ( Em\u00edlia, \u00a0Visconde,\u00a0 Saci, Caipora, Cuca ).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u00a0 f\u00e1bula infantil\u00a0 ) Por Guilherme Albagli &nbsp; Era uma vez uma terra distante onde os \u00edndios buscavam viver em paz. \u00a0\u00a0Mas, de repente, ali chegaram os Kara\u00edba, chefiados por Lu\u00eds de Almeida, pondo os \u00edndios a correr sert\u00e3o acima. 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