{"id":33972,"date":"2012-01-20T12:41:20","date_gmt":"2012-01-20T14:41:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=33972"},"modified":"2012-01-20T12:41:20","modified_gmt":"2012-01-20T14:41:20","slug":"marli-goncalves-em-sp-cidade-louca-errante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/01\/20\/marli-goncalves-em-sp-cidade-louca-errante\/","title":{"rendered":"Marli Gon\u00e7alves em: SP, cidade louca, errante"},"content":{"rendered":"<p><center><span style=\"color: #ff0000;\"><em>J\u00e1 pensei em fazer m\u00fasica, j\u00e1 pensei at\u00e9 em uma campanha por voc\u00ea. J\u00e1 disse que te amo em mais de uma l\u00edngua. Este ano quero cantar Parab\u00e9ns pra Voc\u00ea, por tudo que tem, e por (conseguir) continuar viva e tentando ser amada. Ou, pelo menos, respeitada. Nossa velha dama, S\u00e3o Paulo<\/em><\/span><\/center><\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/lh6.ggpht.com\/_PQy7A06gDto\/TMszWPVuHuI\/AAAAAAAAt3M\/va7UPbq3dc8\/marli%20gon%C3%A7alves%20nova.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"129\" \/>S\u00e3o Paulo \u00e9 uma prostituta grande, forte, experiente. Ensina seus meninos a crescer, imp\u00f5e que lhe paguem pelo prazer que d\u00e1. \u00c9 maltratada, mal falada, e mesmo assim continua aberta recebendo todos 24 horas por dia. Tem horas que nem a maquiagem pesada disfar\u00e7a seu cansa\u00e7o, e ela se deixa levar, arrasada. Mas logo se recupera, n\u00e3o para, n\u00e3o para, e volta ao trabalho, \u00e0 efervesc\u00eancia. Na vida toma muitos sustos, v\u00ea muita viol\u00eancia ao seu redor, o mundo c\u00e3o que mija em seus postes ou pernas, mas tamb\u00e9m vive o glamour e o luxo quando o cliente que a consome \u00e9 generoso.<\/p>\n<p>Ela anda \u00famida, molhadinha, at\u00e9 encharcada neste ver\u00e3o. Suas f\u00e9rias foram curtinhas, e ela tinha se enfeitado toda para brilhar \u00e0 noite neste fim de ano. Mas a abandonam pelo Sol, pela praia, por um tal ar puro e, se l\u00e1 onde tem essas coisas, tamb\u00e9m chove, seus amantes voltam correndo. Aqui se come melhor. Se diverte mais. Se aprende mais em filmes, livros, teatro, cultura. Inclusive, os seus cafet\u00f5es exigem que a cidade volte logo a trabalhar. E ela vende o que tem de melhor, mesmo que mecanicamente, sem se entregar totalmente.<\/p>\n<p>Nem bonita, nem feia, nem totalmente um ou outro, apenas uma cidade armada ao lado de um p\u00e1tio h\u00e1 458 anos, e que bem que podiam ter escolhido melhor local para arriar acampamento&#8230; mais para perto do mar. Fosse assim, o Rio de Janeiro teria dan\u00e7ado e ela, sim, seria a Maravilhosa. Mas cresceu para os lados, para cima, e at\u00e9 para baixo, por baixo, suas entranhas, e hoje essas veias j\u00e1 v\u00e3o se entupindo.<\/p>\n<p>Ela vai se aguentando assim e a pega a bolsinha e vai rodar pelas esquinas. Quase n\u00e3o tem horizontes para ver nem para se ver, faz isso apenas em poucos espelhos de \u00e1gua limpa que encontra, quando passa pelos poucos parques, em busca de ar, da cor verde, de um pouquinho de natureza. Nos rios, t\u00e3o sujos, nem ela consegue se mirar. Apenas tapar o nariz, nestes que viraram banheiros p\u00fablicos, descargas sem fim. E ela sonha: no dia que os rios voltarem navegar\u00e1 neles todos os fins de semana, vendo muitas fam\u00edlias felizes. N\u00e3o custa sonhar.<\/p>\n<p align=\"justify\"><!--more--><\/p>\n<p>Quando procura o c\u00e9u para ver as estrelas ou a lua essa nossa cidade vagabunda apenas sorri e lembra do macaco do filme King-Kong. Tem vontade de pegar os helic\u00f3pteros na m\u00e3o &#8211; parecem brinquedos passando por sua cabe\u00e7a. Quem os controla? S\u00e3o tantos! E os avi\u00f5es, ent\u00e3o! Ronco constante indo e vindo, brilhando mais alto. E a cidade sonha: quem est\u00e1 indo, quem est\u00e1 chegando?<\/p>\n<p>\u00c0s vezes a cidade fala sozinha enquanto caminha e \u00e9 caminhada. \u00c0s vezes se det\u00e9m conversando com bronzes, bustos, cria\u00e7\u00f5es em concreto, est\u00e1tuas imortais e hist\u00f3ricas, esculturas instaladas para lembrar de algo, algu\u00e9m, alguma coisa, algum fato seu ou feito de alguns dos seus tantos amantes. Ser\u00e1 por amor a ela que constru\u00edram tanta coisa bonita\u00b8 subiram tantos arranha-c\u00e9us, pensaram mans\u00f5es, fizeram tantas j\u00f3ias para enfeit\u00e1-la? Seus colares s\u00e3o marginais, e a enfeitam com rodoaneis, trilhos, pontes, t\u00faneis e viadutos. Se foi por amor, estranho, qual sentimento levou a que ela tamb\u00e9m tenha tantas chagas, plagas indiz\u00edveis, cicatrizes, e mis\u00e9ria e horror?<\/p>\n<p>Nossa velha puta muda de ponto. Norte, Sul, Leste, Oeste. Clientes diferentes a consomem. Tem hora que ela d\u00e1 mais para um do que para outro. Mas atende a todas as ra\u00e7as, etnias, nacionalidades\u00b8 falando todas as l\u00ednguas de um jeito muito seu, assim como o pr\u00f3prio portugu\u00eas. Ela marca os <em>erres<\/em>. Come os <em>esses<\/em>. Mistura tend\u00eancias, bebidas, sotaques, povos e palavras. Chopps. Pastel. Pizza. Macarr\u00e3o. Virado.<\/p>\n<p>Ultimamente, nossa velha anda contente. Uma feliz cidade. \u00c9 que no ver\u00e3o de uns tempos para c\u00e1 &#8211; antes n\u00e3o era assim &#8211; v\u00ea mais carnes, dorsos, pernas, colos, descobertos, nus. E at\u00e9 chinelo de dedo nem \u00e9 mais t\u00e3o proibido assim! Quase chora \u00e9 quando pensa no inverno que quando faz frio mesmo chega a ser cortante, e as pessoas s\u00e3o cebolas vestidas, que v\u00e3o se descascando, algumas elegantes, e outras n\u00e3o, nem pensam em combinar, a n\u00e3o ser com o destino, para n\u00e3o morrerem de frio. Cores e nomes, como n\u00e3o disse o Caetano que viu a deseleg\u00e2ncia discreta de nossas meninas. Aqui se usa muito preto. Preto e estampas. As mulheres amam as estampas e os homens, as listras. Se v\u00ea mesmo de tudo por aqui, observa. E assim as flores nascem nos vestidos e, ainda, nos canteiros, nas \u00e1rvores que os cupins ainda n\u00e3o pegaram nem ventos derrubaram, flores que enfeitam um pouco mais a sua aridez cinzenta em vasos.<\/p>\n<p>A velha senhora continua olhando suas entranhas e com minhoquinhas na cabe\u00e7a. Quer derrubar minhoc\u00f5es. Fazer uns puxadinhos. Pensa em como se manter limpa, com tantos clientes, sem tempo que n\u00e3o o dos banhos da chuva, sem sab\u00e3o, sem perfume. Assim n\u00e3o pode nem cobrar o que merece pelos seus servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Mais um anivers\u00e1rio. Ser\u00e1 imortal? Ser\u00e3o v\u00e1rias vidas? Qual m\u00fasica tocar\u00e1 para ouvir quando e se as britadeiras, buzinas, sirenes e tantos barulhos deixarem? Que ritmo vai tocar, dan\u00e7ar, que moda vai criar, de quem vai depender?<\/p>\n<p>De repente, essa nossa amiga fica preocupada. Lembra que nesse ano vai ter elei\u00e7\u00e3o e l\u00e1 vai o seu destino para o jogo novamente; seu santo nome ser\u00e1 falado, pisado, sua hist\u00f3ria revista, criticada. V\u00e1rios aventureiros tentar\u00e3o conquist\u00e1-la, veja s\u00f3.<\/p>\n<p>Mas tudo bem. O importante \u00e9 que essa cortes\u00e3 ainda d\u00e1 um bom caldo, e \u00e9 cobi\u00e7ada por membros imponentes.<\/p>\n<p><center><span style=\"font-size: xx-small;\"><em><strong> Feliz Anivers\u00e1rio, S\u00e3o Paulo, Geni, 2012.<br \/>\n<\/strong><\/em><\/span><\/center>\u2022 <span style=\"font-size: x-small;\"><strong><em><span style=\"text-decoration: underline;\"> (*) Marli Gon\u00e7alves \u00e9 jornalista<\/span><\/em><\/strong>.<strong> Paulistana. Nasceu na Rua Augusta, um dos melhores lugares para se fazer ponto na cidade. Fazer a vida. Ou pelo menos tentar. Agora quem sonha sou eu, por uma cidade melhor, menos vagabunda, menos errante, menos errada.<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 pensei em fazer m\u00fasica, j\u00e1 pensei at\u00e9 em uma campanha por voc\u00ea. J\u00e1 disse que te amo em mais de uma l\u00edngua. Este ano quero cantar Parab\u00e9ns pra Voc\u00ea, por tudo que tem, e por (conseguir) continuar viva e tentando ser amada. Ou, pelo menos, respeitada. Nossa velha dama, S\u00e3o Paulo S\u00e3o Paulo \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[12],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33972"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33972"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33972\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33975,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33972\/revisions\/33975"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33972"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33972"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33972"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}