{"id":3565,"date":"2010-12-02T15:23:31","date_gmt":"2010-12-02T18:23:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=3565"},"modified":"2010-12-02T15:23:31","modified_gmt":"2010-12-02T18:23:31","slug":"os-ratos-da-die-zauberflote","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2010\/12\/02\/os-ratos-da-die-zauberflote\/","title":{"rendered":"Os ratos da Die Zauberfl\u00f6te"},"content":{"rendered":"<p><strong> MEHMED <\/strong><\/p>\n<p>Os ratos da Die Zauberfl\u00f6te<br \/>\n(em portugu\u00eas A flauta m\u00e1gica) \u00e9 uma \u00f3pera em dois atos de Wolfgang Amadeus Mozart, que parodiada, acomete meus sonhos invariavelmente.<br \/>\nN\u00e3o sei das raz\u00f5es on\u00edricas que fazem acometer o meu sono noturno por visitas t\u00e3o gratificantes. Sonhos m\u00edticos, fantasias epop\u00e9icas, her\u00f3icas, messi\u00e2nicas e salad\u00ednicas visitam o sono noturno proporcionando-me uns acordares felizes. Pelo menos sonho. N\u00e3o me debato em pesadelos.<br \/>\nUltimamente tenho sonhado invariavelmente como personagem da Die Zauberfl\u00f6te, (em portugu\u00eas) A flauta M\u00e1gica; aquela bel\u00edssima \u00f3pera em dois atos, de Mozart. Leiam bem o que escrevi: Personagem e n\u00e3o figurante. Figurantes s\u00e3o os ratos, pois neste meu sonho, a \u00f3pera est\u00e1 parodiada. Sou livre pra sonhar&#8230; Pelo menos isso \u00e9 gratificante.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Nos sonhos v\u00edvidos, sou um virtuose flautista, m\u00e1gico, intuitivo e talentoso, sempre assediado por convites que n\u00e3o d\u00e3o tr\u00e9guas ao meu descanso nem no weekend! Uma az\u00e1fama trabalhosa e extenuante. Dia ap\u00f3s dia, sem f\u00e9rias; l\u00e1 estou eu exterminando os mur\u00eddeos sem d\u00f3 nem piedade; mesmo assim, ativo e operacional, as filas n\u00e3o param de crescer \u00e0 porta do meu chal\u00e9 baiano. De h\u00e1 muito j\u00e1 n\u00e3o posso mais curtir o balan\u00e7o da rede no alpendre ao lado de Edmunda. Falta-nos privacidade para os \u201cmimos\u201d mais calorosos.<br \/>\nIh! Tem briga na fila! Dois pol\u00edcias e um Procurador trocam socos e ponta p\u00e9s por causa de um lugar na fila. Tem um senhor de batinas; outro vestindo um chambre negro com gola branca e um chap\u00e9u estranho \u00e0 cabe\u00e7a; tem um homem de verde com o peito cheio de medalhas, tem v\u00e1rios outros com bandeiras onde se l\u00ea CGU, MPF, TCM, TCE, ST&#8230; L\u00e1 pro fim da fila onde a minha vista cansada j\u00e1 n\u00e3o alcan\u00e7a; n\u00e3o d\u00e1 pra ler mais.<br \/>\nSento-me na poltrona atr\u00e1s da escrivaninha, arrumo alguns pap\u00e9is, fichas de inscri\u00e7\u00e3o, canetas e, chamo Edmunda, minha Assistente e companheira de cama, mesa, banho e etc. (O \u201cetc.\u201d entendo prudente e recatado omitir).  Em tom carinhosamente coloquial, determino-lhe: _ Amor! Pode mandar o primeiro da fila entrar; vou come\u00e7ar a atender.<br \/>\nO primeiro cliente, homem, j\u00e1 entra todo esbaforido, ofegante, taquic\u00e1rdico&#8230; Num relance, ele desfia desesperado, sem pontos nem v\u00edrgula, sem respirar e entre profusas l\u00e1grimas; uma ladainha de desespero e afli\u00e7\u00f5es as quais acometem irremediavelmente sua cidade e seus comunas.<br \/>\nInterrompi: _ Calma! N\u00e3o \u00e9 assim n\u00e3o! Primeiro; quem \u00e9 o senhor? Ocupa Cargo de confian\u00e7a? \u00c9 edil? Faz parte do governo da cidade? Que apito o senhor toca&#8230; Deixe-me ao menos preencher primeiro os seus dados cadastrais. Respire&#8230; Acalme-se homem de Deus!<br \/>\nEle, j\u00e1 mais recuperado, come\u00e7a:_ Doutor! Com a gra\u00e7a de Deus, n\u00e3o fa\u00e7o parte do governo municipal, n\u00e3o ocupo cargo de confian\u00e7a; sou um simples cidad\u00e3o. N\u00f3s o povo, nos cotizamos pra juntar o pagamento e vir aqui encarecer seus servi\u00e7os. Contudo, trago a mais comigo, algumas Cartas de Recomenda\u00e7\u00e3o de Deputada e vereadores que&#8230;?<br \/>\nInterrompi: _Pule esta parte. Comigo vale a Constitui\u00e7\u00e3o: \u201cTodos os cidad\u00e3os s\u00e3o iguais perante a lei\u201d (menos os pol\u00edticos, claro! Esses s\u00e3o imunes, refrat\u00e1rios e reincidentes).  _Vamos aos fatos que interessam: Onde fica a sua cidade; qual o estado de infesta\u00e7\u00e3o e comprometimento pelos ratos; quais as ra\u00e7as dos ratos e popula\u00e7\u00e3o, etc.<br \/>\nEle, j\u00e1 mais calmo_ A nossa cidade fica no litoral Sul da Bahia; o estado de infesta\u00e7\u00e3o \u00e9 end\u00eamico, desesperador como uma infec\u00e7\u00e3o generalizada; est\u00e3o atacando tudo. Comem as verbas, comem o dinheiro, roem o patrim\u00f4nio p\u00fablico, cagam e mijam por toda a cidade, em qualquer lugar, inclusive pra\u00e7as p\u00fablicas, hospitais, postos de sa\u00fade, escolas, postos de assist\u00eancia social. Ate a Botica que misturava e fazia rem\u00e9dios para os doentes da cidade; fechou! Eles atacam de dia e \u00e0 noite de Segunda a Domingo! N\u00e3o um dia de tr\u00e9gua!<br \/>\n_ Tudo bem. Vou dar prioridade a sua solicita\u00e7\u00e3o e, estarei descendo para l\u00e1 hoje mesmo. Est\u00e1s vendo essa enorme e grossa flauta? Pois \u00e9: N\u00e3o falha&#8230; Vai entrar rasgando! Pr\u00f3ximo, por favor&#8230;<br \/>\nE Fui. Ao chagar a cidade, dispensei de pronto a oferta dos mimos da Geni; aquela que antes, j\u00e1 havia salvado a cidade do homem que cheirava a brilha-cobre; do Zepelim? Dos canh\u00f5es? Lembram? Do Chico Buarque?<br \/>\nPois \u00e9; o pau comeu, melhor dizendo, a Flauta longa e grossa comeu solta. Ratos-cotias enormes de gordos, ratos de esgoto, ratos de telhado, ratos de gabinetes, de tesourarias, ratos de hospitais&#8230;  Foi um exterm\u00ednio generalizado ponto a ponto e pente fino. Perigos? Houveram sim. Principalmente quando um grande bando de ratazanas robustas e malhadas tentou comer a nossa flauta. Eu vi a coisa preta e enorme que me incutia medo. As mais robustas avan\u00e7avam sobre a rotunda cabe\u00e7a da flauta e, as mais gordinhas, se agarravam ao p\u00e9 e intercurso das extremidades, tentando derrubar e comer a minha flauta a qualquer custo. N\u00e3o fosse a nossa flauta constitu\u00edda de ultra-resistente material, duro como o diamante; hoje ela seria uma fl\u00e1cida defunta.<br \/>\nMas venci a batalha; confesso-me orgulhoso da vit\u00f3ria sobre o mal, sobre os selvagens meliantes mur\u00eddeos que assolavam aquele munic\u00edpio Sul baiano. A guerra n\u00e3o acabou amanh\u00e3 tem mais&#8230;<br \/>\nAinda um tanto ofegante e agitado, come\u00e7o a sentir um perfume peculiar de caf\u00e9 com cravo e canela; dos quitutes matinais e de \u00e1gua de flores. E no cangote, um bafo quente cheirando a Kolynos e, um ro\u00e7ar macio como veludo ao pesco\u00e7o que me fez soltar a flauta pra buscar tateando com as m\u00e3os, as origens dessas deliciosas sensa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEu estava apenas sendo carinhosamente despertado do meu sonho epop\u00e9ico. Eis que vejo ao meu lado, da maneira como veio ao mundo; a minha querida Edmunda, meu sonho realidade.<br \/>\nCom voz terna e carinhosa ela diz: _ \u201cAmor! Solta a flauta; sou eu! Vem comer o teu caf\u00e9 da manh\u00e3 vem!\u201d<br \/>\nSonhar \u00e9 \u00f3timo! Depois eu conto outro viu? Agora vou comer o comer o meu caf\u00e9 da manh\u00e3, que ningu\u00e9m \u00e9 de ferro. Ou \u00e9?<br \/>\nMehmed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MEHMED Os ratos da Die Zauberfl\u00f6te (em portugu\u00eas A flauta m\u00e1gica) \u00e9 uma \u00f3pera em dois atos de Wolfgang Amadeus Mozart, que parodiada, acomete meus sonhos invariavelmente. 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