{"id":37090,"date":"2012-02-26T20:10:44","date_gmt":"2012-02-26T22:10:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=37090"},"modified":"2013-02-14T13:34:26","modified_gmt":"2013-02-14T16:34:26","slug":"a-morte-do-tradutor-de-guimaraes-rosa-para-o-alemao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/02\/26\/a-morte-do-tradutor-de-guimaraes-rosa-para-o-alemao\/","title":{"rendered":"A morte do tradutor de Guimar\u00e3es Rosa para o alem\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Oi Rabat,<\/p>\n<p>S\u00f3 agora sei da not\u00edcia. Morreu em janeiro Curt Meyer-Clason, o grande tradutor de autores latino-americanos na Alemanha. Que coisa lament\u00e1vel. Pessoas como Curt Meyer-Clason n\u00e3o deviam morrer. \u00c9 uma perda sem tamanho para a humanidade, de grande tristeza para a literatura ocidental  e, em especial, para os autores latino-americanos. A literatura brasileira chora muita essa perda.<\/p>\n<p>Tive a sorte de ser traduzido por ele. E  gra\u00e7as \u00e0 sua tradu\u00e7\u00e3o,  meu livro &#8220;Zwanzig Gedichte von Rio und andere Gedichte&#8221; (Vinte Poemas do Rio e Outros Poemas&#8221; foi publicado na Alemanha, pela Projekte-Verlag,  de Halle.  Foi a maior alegria que tive em minha modesta carreira liter\u00e1ria. O maior pr\u00eamio que recebi. Ele se correspondeu comigo. Guardo suas cartas como um tesouro que n\u00e3o tem pre\u00e7o. Pretendo public\u00e1-las um dia.<\/p>\n<p>Um grande abra\u00e7o.<\/p>\n<p>Cyro de Mattos<\/strong><\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Curt Meyer-Clason, que morreu em janeiro, foi um dos maiores divulgadores da literatura latino-americana na Europa. Traduziu para o alem\u00e3o obras seminais como \u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d, de Guimar\u00e3es Rosa, e \u201cCem Anos de Solid\u00e3o\u201d, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez<\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\n<strong>Foto retirada por solicita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nVer coment\u00e1rio<\/strong><br \/>\n&#8212;<\/p>\n<p>Curt Meyer-Clason, o grande divulgador da literatura brasileira, latino-americana e portuguesa na Europa no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, morreu em Munique, sul da Ale\u00acma\u00acnha, em janeiro, aos 101 anos.<\/p>\n<p>Meyer-Clason, tradutor, escritor, editor, ensa\u00edsta e cr\u00edtico, deixou uma obra incompar\u00e1vel \u2014 cujo volume e conte\u00fado s\u00f3 aos poucos \u00e9 conhecida em sua profundidade. Seu nome n\u00e3o constava nas manchetes de primeira p\u00e1gina \u2014 s\u00f3 nos c\u00edrculos editoriais, entre autores e leitores. Os estudiosos do ramo ter\u00e3o d\u00e9cadas de trabalho para pesquisar, analisar e interpretar a enorme quantidade de documentos, registros, apontamentos que Curt Meyer-Clason produziu e deixou para a posteridade. Em seu acervo encontram-se, al\u00e9m disso, milhares de cartas de autores que traduziu.<\/p>\n<p>Sua biografia \u00e9 t\u00e3o diversificada como os livros que traduziu. Por uma invulgar casualidade do destino, sua vida enveredou por um caminho que jamais planejara.<\/p>\n<p>Curt Meyer-Cla\u00acson nasceu em 1910 em Ludwigsburgo, cidade pr\u00f3xima \u00e0 Stuttgart, no sudoeste da A\u00acle\u00acmanha. Seus ancestrais eram da nobreza; seu pai era oficial no ex\u00e9rcito prussiano. Frequentou o gin\u00e1sio em Stuttgart e, em seguida, matriculou-se numa escola de co\u00acm\u00e9rcio. Era a carreira que pretendera seguir. Partiu para o norte da Alemanha. Em Bremen encontrou trabalho numa firma americana que atuava no ramo de importa\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o e tinha filial em Le Havre. O jovem empregado aprendera, segundo suas pr\u00f3prias palavras, a \u201cclassificar algod\u00e3o\u201d. Do\u00acminava o ingl\u00eas e o franc\u00eas e por isso foi incumbido de tratar da correspond\u00eancia da empresa, trabalho este que tornava necess\u00e1rio seu constante deslocamento entre Bremen e Le Havre.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Em 1936 a firma enviou-o ao Brasil, para trabalhar em S\u00e3o Paulo como \u201ccontrolador de algod\u00e3o\u201d. Nesta fun\u00e7\u00e3o conheceu os mais importantes portos do Brasil, tamb\u00e9m passava longos per\u00edodos na Argentina.<\/p>\n<p>Radicou-se em Porto Alegre, onde dirigiu uma empresa fabricante de m\u00f3veis. Curt Meyer-Cla\u00acson tornou-se personagem conhecida na sociedade local. Desfrutava os prazeres que seu novo ambiente oferecia. Era jovem e na \u00e9poca, o que era raro em sua i\u00acda\u00acde, j\u00e1 era dono de um autom\u00f3vel convers\u00edvel, uma prova de reconhecido status. Mais tarde, em uma de suas entrevistas, Meyer-Clason, em refer\u00eancia \u00e0quela \u00e9poca, disse: \u201cNaqueles tempos eu era um dandy. Eu adorava tr\u00eas coisas: mo\u00e7as bonitas, gravatas e t\u00eanis\u201d.<\/p>\n<p>Corria o ano de 1942. En\u00acquanto na Europa a Segun\u00acda Guerra\u00a0 estava em pleno andamento, no Brasil Get\u00falio Var\u00acgas tratava de manejar-se entre os blocos rivais. Curt Meyer-Clason foi confrontado com os algozes do Estado Novo. Foi preso e condenado a 20 anos de pris\u00e3o \u2014 sob a acusa\u00e7\u00e3o estar en-volvido em espionagens a favor do governo nazista da Alemanha. At\u00e9 hoje essas acusa\u00e7\u00f5es nunca foram confirmadas. Curt Meyer-Clason foi parar no pres\u00eddio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, on\u00acde ficou preso por cinco anos. Sobre Ilha Grande, disse ele, mais tarde: \u201cO tempo pa\u00acrou, enquanto que, em ou\u00actras partes do mundo, mi\u00aclh\u00f5es de ho\u00acmens da mesma ida\u00ac\u00ac\u00acde se matavam mutuamente\u201d.<\/p>\n<p>Seu companheiro no c\u00e1rcere, outro cidad\u00e3o alem\u00e3o, o bar\u00e3o Gerhard von Klein, poliglota e extremamente culto, conseguiu despertar em Curt Meyer-Clason o interesse pela leitura. \u201cFoi a\u00ed que eu aprendi a ler. L\u00eda\u00acmos tudo: Rilke, Thomas Mann, Friedell; Mon\u00actaigne, Pascal, Pro\u00acust, Bernanos, Berdjiajew, Bu\u00ac-ber, os grandes russos e autores brasileiros. Tornei-me um outro homem.\u201d<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia de sua amarga experi\u00eancia com a repress\u00e3o do Estado Novo, aliada as suas naturais aptid\u00f5es, aos seus interesses, as suas paix\u00f5es e a sua\u00a0 imensa capacidade de trabalho, trouxe-lhe, mais tar\u00ac\u00acde, os m\u00e9ritos que indubitavelmente merece. O caminho por ele per\u00accorrido foi acidentado e tortuoso. Os anos de c\u00e1rcere foram a\u00a0 casualidade do seu destino. Liberto do pres\u00eddio da Ilha Grande, Curt Meyer-Clason estabeleceu-se no Rio de Janeiro, foi trabalhar no \u201ccom\u00e9rcio de compensa\u00e7\u00e3o aliment\u00edcia exportando madeira de pinho contra a importa\u00e7\u00e3o de u\u00edsque escoc\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>Em 1954, de\u00acpois de 17 anos no Bra\u00acsil, Mey\u00acer-Clason regressa \u00e0 Alemanha \u201ccomo um rec\u00e9m-nascido\u201d. Fixa resid\u00eancia em Munique e come\u00e7a a trabalhar como revisor para v\u00e1rias editoras. Nessa \u00e9poca ele era um dos mais frequentes visitantes do Consulado Geral do Brasil para onde se dirigia quase que diariamente \u201ca fim de matar a saudade que sentia dopa\u00eds\u201d. N\u00e3o demorou e Meyer-Clason foi sendo solicitado para trabalhos de tradu\u00e7\u00e3o. Foi assim que nasceu a ideia e o seu desejo de transferir a literatura latino-americana e a forma de vida do continente \u00e0 Europa. Come\u00e7ou a verter obras do espanhol,\u00a0 portugu\u00eas, franc\u00eas e ingl\u00eas para o alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Curt Meyer-Clason permaneceu em Munique at\u00e9 1969. Nesse entretempo j\u00e1 havia traduzido Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, Juan Carlos Onetti, C\u00e9sar Vallejo, Augusto Roa Bastos, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e outros. Meyer-Clason tornara-se figura respeitada nos c\u00edrculos editoriais e culturais da Alemanha. Paralelamente ao seu trabalho, Meyer-Clason mantinha estreito contato com quase todos os autores latino-americanos vivos da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Em 1969 Meyer-Clason recebeu o convite para assumir a fun\u00e7\u00e3o de diretor do Instituto Goethe, em Lisboa. Permaneceu na capital lusitana at\u00e9 sua aposentadoria em 1976. Portugal ainda vivia sob a influ\u00eancia dos anos da ditadura de Antonio de Oliveira Salazar, que deixara o governo, por quest\u00f5es de sa\u00fade, em 1968. Seu sucessor, Marcelo Caetano, seguindo a mes\u00acma linha pol\u00edtica de repress\u00e3o salazarista, at\u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, em 1974, em nada diminu\u00edu o controle dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Meyer-Clason resolveu o problema \u00e0 sua maneira. Transformou o Instituto Goethe, de Lisboa, \u201cnu\u00acma porta aberta para a Eu\u00acropa\u201d. A sede do instituto servia de ponto de encontro para escritores, representantes da intelectualidade portuguesa e dissidentes de todas as correntes pol\u00edticas. Por outro lado, Meyer-Clason convidava autores e intelectuais alem\u00e3es para encontros com autores portugueses. Os alem\u00e3es\u00a0 Wer\u00acner Herzog, Peter Weiss, Walter Jens, Martin Walser, G\u00fcn\u00acther Grass, Heinrich B\u00f6ll, Hans-Mag\u00acnus Enzensberger e o austr\u00edaco Tho\u00acmas Ber-nhard s\u00e3o apenas alguns dos proeminentes da cultura alem\u00e3 que passaram por Lisboa naquela \u00e9poca. Com uma companhia teatral de Lisboa, Meyer-Clason organizou apresenta\u00e7\u00f5es do dramaturgo alem\u00e3o Bertholt Bre\u00ac\u00accht na capital lusitana. Para\u00aclelamente Meyer-Clason ajudou au\u00ac\u00actores portugueses, como Miguel Torga, Jos\u00e9 Sara\u00acmago, Ant\u00f3nio Lo\u00acbo Antunes, a encontrar editoras para lan\u00e7ar suas obras na Alemanha.<\/p>\n<p>O Instituto Goethe, de Lisboa, foi transformado em laborat\u00f3rio cultural \u201cEu vivia a meio passo da ilegalidade\u201d, diria mais tarde. Em sua obra \u201cDi\u00e1rios Portu-gueses\u201d, ele\u00a0 relata em detalhes os problemas enfrentados em Por\u00actugal du-rante o per\u00edodo repressivo. Curt Meyer-Clason tornou-se figura cultural respeit\u00e1vel em Portugal. Quando circulou a not\u00edcia de que deixaria a dire\u00e7\u00e3o do Instituto Goethe, em Lisboa, foi iniciada uma campanha na m\u00eddia portuguesa, liderada por Ant\u00f3nio Lobo Antunes, com o objetivo de convenc\u00ea-lo a permanecer.<\/p>\n<p>Entre os autores portugueses que verteu para o alem\u00e3o est\u00e3o E\u00e7a de Queir\u00f3s, Camilo Castelo Bran\u00acco, Miguel Torga, Fernando Na\u00acmora, Carlos de Oliveira Al\u00acmeida Faria, Urbano Tavares Ro\u00acdrigues, Jorge de Sena, Eugenio de An-drade e Sofia de Mello Brey\u00acner-Andresen. Tamb\u00e9m editou colet\u00e2neas de contos, poesias, fic\u00e7\u00e3o e ensaio.<\/p>\n<p>Em 1976 Curt Meyer-Clason mais uma vez regressa a Munique, onde se dedica inteiramente aos seus trabalhos de tradu\u00e7\u00e3o e \u00e0 reda\u00e7\u00e3o de textos e ensaios. Como autor deixou 15 t\u00edtulos, entre os quais \u201cEquador\u201d, um romance biogr\u00e1fico no qual narra sua juventude sem orienta\u00e7\u00e3o e identidade pessoal como resultado do per\u00edodo hist\u00f3rico que passava a Alemanha no fim do s\u00e9culo 19 e princ\u00edpio do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Sua obra principal, no entanto, encontra-se em seu amplo trabalho de tradutor. \u00c9 imposs\u00edvel\u00a0 mencionar neste texto todos os t\u00edtulos das obras por ele traduzidas, pois a lista completa ultrapassa mais de 150 t\u00edtulos. Para ilustrar seguem, al\u00e9m dos autores portugueses j\u00e1 mencionados (cuja lista n\u00e3o est\u00e1 completa), outros nomes de autores brasileiros e latino-americanos traduzidos por Curt Meyer-Clason:\u00a0 Adonias Filho, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, M\u00e1rio de Andrade, Jorge Luis Borges, Ign\u00e1cio de Loyola Bran\u00acd\u00e3o, Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Carvalho, Rub\u00e9n Dar\u00edo, Autran Dourado, Almeida Faria, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, Ferreira Gullar, Clarice Lispector, Machado de Assis, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Gerardo Mello Mour\u00e3o, Pablo Neruda, Darcy Ribeiro, Jo\u00e3o U\u00acbaldo Ri\u00acbei\u00acro, Augusto Roas Bastos, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, Fernando Sabino, Cyro de Mattos, Jos\u00e9 Sarney, C\u00e9sar Vallejo, Oct\u00e1vio Paz , Antonio Di Bene\u00acdet\u00acto e muitos outros.<\/p>\n<p>Impressionante tamb\u00e9m \u00e9 a lista de autores de outras nacionalidades que foram traduzidos por Curt Meyer-Clason. Eis alguns exemplos: Louis Baudin, Brendan Behan, Isaiah Berlin, Erich Blau, Alphonse Boudard, Geoffrey H.S. Bushnell, Alfred Chester, Antonio Di Benedetto, Jean Descola, Jos\u00e9 Gorostiza, Bernard Gorsky, Ronald Hardy, Alan Harrington, Sean Hignett, Martin Buber, Alberto Moravia, Luc Stang, Mempo Gi\u00acardinelli, Vlad\u00edmir Nab\u00f3kov, Henry Roth, Elie Wiesel.<br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o de autores aqui citados n\u00e3o \u00e9 completa. Curt Meyer-Clason n\u00e3o traduziu apenas um t\u00edtulo de cada autor, em alguns casos traduziu suas obras completas ou parte destas.<\/p>\n<p>Conheci Curt Meyer-Clason em 1992, por oportunidade de um semin\u00e1rio organizado pela Uni\u00acversidade de Stuttgart. O renomado tradutor fora convidado para proferir uma s\u00e9rie de palestras sobre literatura latino-americana. Na \u00e9poca Meyer-Clason estava com 82 anos, uma idade em que muita gente nem mais sai de casa. Sua apar\u00eancia f\u00edsica chamava aten\u00e7\u00e3o. Alto como um soldado prussiano, de camisa e cachecol vermelho, subia ereto ao palco, n\u00e3o demonstrando a idade. Homem de personalidade carism\u00e1tica,\u00a0 cativava a audi\u00eancia com suas primeiras frases e prendia-lhes a aten\u00e7\u00e3o at\u00e9 o t\u00e9rmino das palestras que, em regra, duravam duas horas. Vinha com seus textos preparados, mas nem sempre os usava ou usava-os s\u00f3 por alguns minutos. N\u00e3o raras vezes punha-os de lado e continuava a falar conforme lhe vinham as ideias. Formava suas frases de forma precisa, palavras exatas, com uma lucidez de esp\u00edrito que transbordava seu profundo conhecimento liter\u00e1rio. \u201cO homem \u00e9 uma biblioteca ambulante\u201d, disse um cidad\u00e3o ao meu lado.<\/p>\n<p>No fim de cada palestra, foram seis no decorrer de uma semana, Curt Meyer-Clason permanecia \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para eventuais perguntas. Numa palestra, j\u00e1 era tarde, o ponteiro do rel\u00f3gio ultrapassava as 23h, e ao responder uma das perguntas, Meyer-Clason fez refer\u00eancia a sua tradu\u00e7\u00e3o de \u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d e aos seus contatos com Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa. Aproveitei para formular uma pergunta: \u201cSr. Meyer-Clason, eu gostaria de saber se o senhor teve muitos problemas para traduzir o \u2018Grande Sert\u00e3o\u2019\u201d. O conferencista olha-me de forma inquisit\u00f3ria, em seguida, num relance, deixa seus olhos vagar pela sala enorme e observa: \u201cEscuta, esta sala \u00e9 demasiadamente grande para este pequeno grupo. Conhe\u00e7o um barzinho, pertinho, a uma quadra e meia daqui. Que lhes parece, vamos todos para l\u00e1, e a\u00ed eu respondo a sua pergunta\u201d.<\/p>\n<p>Fomos. Seis pessoas, com ele sete. Mal o gar\u00e7om trouxe os drinques, Meyer-Clason, sentado a minha frente, volta \u00e0 minha pergunta: \u201cVoc\u00ea quer saber se eu tive pro\u00ac\u00ac\u00acblemas com a tradu\u00e7\u00e3o de o \u2018Grande Sert\u00e3o\u2019?\u201d E logo enveredou na resposta. Em tom professoral, Meyer-Clason, come\u00e7a seu mon\u00f3logo, que nos prende: \u201c\u00c9 l\u00f3gico que n\u00e3o foi trabalho f\u00e1cil. Mas gra\u00e7as \u00e0 amizade que, h\u00e1 longos anos, eu j\u00e1 vinha mantendo com Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, foi-me poss\u00edvel resolver as partes mais dif\u00edceis com o aux\u00edlio do pr\u00f3prio autor. Durante aquele per\u00edodo, Jo\u00e3o e eu trocamos mais de 500 cartas. Eu punha as quest\u00f5es, formulava as perguntas e ele respondia. Al\u00e9m disso, Guimar\u00e3es Rosa veio a Munique v\u00e1rias vezes a fim de discutirmos os termos e as passagens mais complicadas. Perma\u00acnecia, \u00e0s vezes, de tr\u00eas a quatro semanas. Regressava ao Brasil para retornar algumas semans mais tarde. \u00c0s vezes discut\u00edamos dias a fim de encontrar a terminologia certa ou adequada de um s\u00f3 voc\u00e1bulo que, muitas vezes, nem se encontrava no dicion\u00e1rio. O que muito contribuiu neste trabalho foi o fato de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa ter sido poliglota. Falava fluentemente v\u00e1rios idiomas, entre os quais tamb\u00e9m o alem\u00e3o que aprendera durante o per\u00edodo de 1938 a 1942, no qual fora c\u00f4nsul-geral do Brasil, em Hamburgo. Ali\u00e1s, o mesmo m\u00e9todo de trabalho Jo\u00e3o Gui-mar\u00e3es Rosa manteve posteriormente com o seu tradutor italiano e americano. Tra\u00acduzir o \u201cGrande Sert\u00e3o\u201d \u00e9 mais ou menos como traduzir o \u201cUlisses\u201d, de James Joyce\u201d, disse Meyer-Clason enquanto bebericava seu drinque. Despe\u00acdimo-nos quando o ponteiro j\u00e1 se aproximava das quatro horas da manh\u00e3 e o mestre-tradutor, o erudito em literatura brasileira, n\u00e3o demonstrava ne\u00acnhum vest\u00edgio de cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>Os temas das noites seguintes n\u00e3o foram menos cativantes: Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Literatura Latino-Americana e Jorge Luis Borges; Bra\u00acsilidade, As Mais Importantes Correntes da Literatura Brasileira, nos exemplos de Jorge Amado, Car\u00aclos Drummond de Andrade e Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa; Pablo Neruda e a voz do Chile; O mundo de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez; Poder e Pol\u00edtica na Literatura Latino-A\u00acmericana. Todas as noites, ao fim da palestra, encontr\u00e1vamo-nos no mesmo barzinho \u201ca uma quadra e meia daqui\u201d. Na \u00faltima noite, um dos participantes do pequeno gru\u00acpo, um estudante de literatura da Universidade de Heidelberg co\u00acmenta: \u201cEsta semana valeu para dois anos de estudos universit\u00e1rios. Nunca aprendi tanto em t\u00e3o pou\u00acco tempo\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s estes encontros continuei a manter contato durante algum tempo com o invulgar mestre. Guardo, desta \u00e9poca, alguma cartas que trocamos.<\/p>\n<p>Curt Meyer-Clason foi integrante da Associa\u00e7\u00e3o dos Es\u00accritores Alem\u00e3es; do pen Clube da Ale\u00acmanha; e membro-correspondente da Academia Brasileira de Letras. Em 1972 recebeu o Pr\u00ea\u00acmio de Tradutor, da Academia Ale\u00acm\u00e3 para L\u00edngua e Poesia, e em 1996 foi agraciado com a Gr\u00e3-Cruz de M\u00e9rito da Rep\u00fablica Federal da Alemanha.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as ao trabalho deste grande divulgador as literaturas brasileira, latino-americana e portuguesa\u00a0 tornaram-se conhecidas na Eu\u00acropa. Meyer-Clason foi, como ele mes\u00acmo dizia, \u201cum construtor de pontes entre v\u00e1rios pa\u00edses\u201d. No s\u00e9culo 20, nenhum outro estudioso divulgou tanto e t\u00e3o bem a literatura brasi-leira na Europa. Foi um dos ma\u00aciores defensores do Brasil, apesar dos anos que passou nas pestilentas celas da pris\u00e3o da Ilha Grande. Seus profundos conhecimentos sobre a literatura brasileira n\u00e3o t\u00eam compara\u00e7\u00e3o. Trabalhou em sil\u00eancio at\u00e9 os seus \u00faltimos dias e em sil\u00eancio se despediu, no m\u00eas de janeiro,\u00a0 para a sua \u00faltima viagem. A literatura brasileira e o Bra\u00ac\u00acsil muito lhe devem. Rendamos-lhe o profundo respeito e a homenagem perene que merece.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oi Rabat, S\u00f3 agora sei da not\u00edcia. Morreu em janeiro Curt Meyer-Clason, o grande tradutor de autores latino-americanos na Alemanha. Que coisa lament\u00e1vel. Pessoas como Curt Meyer-Clason n\u00e3o deviam morrer. \u00c9 uma perda sem tamanho para a humanidade, de grande tristeza para a literatura ocidental e, em especial, para os autores latino-americanos. A literatura brasileira [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37090"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37090"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37090\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":37094,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37090\/revisions\/37094"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37090"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37090"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37090"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}