{"id":37896,"date":"2012-04-02T11:08:17","date_gmt":"2012-04-02T14:08:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=37896"},"modified":"2012-04-02T11:08:17","modified_gmt":"2012-04-02T14:08:17","slug":"luiz-castro-em-decolores-58","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/04\/02\/luiz-castro-em-decolores-58\/","title":{"rendered":"Luiz Castro em: DECOLORES"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/luiz-castro.jpg\" class=\"alignleft\" width=\"300\" height=\"118\" \/><strong>PENS\u00c3O VASCO <\/strong><br \/>\n Sempre tive a curiosidade de ouvir dos mais experientes as est\u00f3rias e hist\u00f3rias ocorridas em nossa cidade nos tempos \u00e1ureos do cacau.<br \/>\nAl\u00e9m do saudoso S\u00e1 Barretto, tenho outros informantes  de primeira linha que considero  os imortais:  Moreia, Popoff e Venicius Dias, que conhecem est\u00f3rias que at\u00e9 Deus duvida.<br \/>\nDurante minha conviv\u00eancia com o escritor H\u00e9lio P\u00f3lvora, ent\u00e3o Presidente da Funda\u00e7\u00e3o Cultural de Ilh\u00e9us, fui enriquecido com  preciosas  historias grapiunas,  atrav\u00e9s de suas obras literarias, entre elas refiro-me sobre \u201cO Boiadeiro da Pens\u00e3o Vasco\u201d .<br \/>\n\u201cOcorreu que o dono da Pens\u00e3o Vasco, Pedro Duarte, chamado de Pedro Corr\u00f3, viu sem maior interesse o novo h\u00f3spede sentar-se \u00e0 mesa. Sujeito baixo, forte, de bigode grosso, botas com esporas, chapel\u00e3o que teve a lembran\u00e7a de tirar e pendurar no cabide. Devia ser vaqueiro. Pecuarista, nem imaginar.<br \/>\nMas, terminando o repasto, o boiadeiro mostrou quem era.<br \/>\n&#8211; Menino \u2013 chamou ele, puxando um ma\u00e7o grande de c\u00e9dula de alto valor &#8211; , v\u00e1 me comprar um sorvete.<br \/>\n&#8211; A quem tenho a honra? \u2013 disse ent\u00e3o Corr\u00f3, com uma mesura.<br \/>\n&#8211; Pode me chamar de Cavalcanti.<br \/>\n&#8211; Caro Senhor Cavalcanti, al\u00e9m do sorvete n\u00e3o lhe apetece um docinho caseiro?<br \/>\nO rolo de c\u00e9dula continuava na m\u00e3o do boiadeiro.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>&#8211; Rodelas de banana? \u00c9 o doce preferido da clientela. Carambola? Caju em caldas? \u2013 ofereceu Madame Carmen, mulher de Corr\u00f3, que acompanhava a conversa e armou um sorriso cativante.<br \/>\nSorvete tomado, docinho saboreado. Corr\u00f3, que era de Belmonte. Levou Cavalcanti para conhecer os pontos principais da cidade.<br \/>\nVoltaram tarde \u00e0 Pens\u00e3o Vasco. Mas de dez da noite. Cavalcanti soltou um bocejo de desgovernar queixo e preparou-se para se recolher.<br \/>\n&#8211; J\u00e1? T\u00e3o cedo assim?<br \/>\n&#8211; Durmo com as galinhas.<br \/>\n&#8211; Que desperd\u00edcio? \u2013 disse Corr\u00f3. \u2013 Eu ia lhe propor companhia mais calorosas&#8230;<br \/>\n&#8211; Onde? Quem? \u2013 interessou-se Cavalcanti.<br \/>\n&#8211; Aqui mesmo. Uma rodinha de p\u00f4quer.<br \/>\n&#8211; Mas eu n\u00e3o sei jogar&#8230;<br \/>\n&#8211; O amigo olha, aprende logo, da\u00ed a pouco est\u00e1 ensinando&#8230;<br \/>\nForam ao jogo. As rodadas de p\u00f4quer come\u00e7avam \u00e0s 23 h na Pens\u00e3o Vasco, reunindo coron\u00e9is, gerentes de banco, comerciantes abastados. O boiadeiro Cavalcanti conseguiu perder pouco na primeira noite. Na segunda, contabilizou preju\u00edzo maior. Mas aquele rolo de notas banc\u00e1rias, alvo de olhares \u00e1vidos, diminu\u00eda com um ritmo que, na opini\u00e3o dos parceiros, caracterizava a marcha lenta.<br \/>\nAinda bem que, na terceira noite, o boiadeiro Cavalcanti colocou o ma\u00e7o ostensivamente no tampo da mesa, ao seu lado. Era um desafio acintoso. Devia haver ali uma bolada. Corr\u00f3 e seus amigos trocaram olhares enviesados, engolindo em seco.<br \/>\n&#8211; Um u\u00edsque, Coronel Cavalcanti \u2013 aventurou Corr\u00f3.<br \/>\nMadame C\u00e1rmen, em pessoa, trouxe a dose ambarina em pequena bandeja com toalha rendada.<br \/>\n&#8211; Esse \u00e9 do bom, envelhecido 28 anos, a marca preferida da clientela.<br \/>\n&#8211; Hoje eu topo tudo \u2013 avisou Boiadeiro \u2013 Estou com a cachorra. \u00c9 tudo ou nada, oito ou oitenta.<br \/>\nOs jogadores se entreolharam. Boiadeiro engoliu uma talagada e prop\u00f4s em voz t\u00edmida que fossem dobradas, at\u00e9 mesmo triplicada as apostas. Estava cansado daquele joguinho fraco, maneiro. E assim se fez aquela noite na Pens\u00e3o Vasco.<br \/>\nNuma sala pr\u00f3xima, Madame C\u00e1rmen ouvia tudo e esfregava as m\u00e3os, prelibando perfumes franceses e sedas da China.<br \/>\nQuem imaginava um final diferente n\u00e3o conhece os modelos da esperteza humana. Isso mesmo , senhores: o vaqueiro ou boiadeiro Cavalcanti entrou em s\u00fabita mar\u00e9 de sorte e, ao cabo de tr\u00eas horas, j\u00e1 havia tomado uma parte da safra futura dos coron\u00e9is e o sal\u00e1rio vindouro dos gerentes de bancos. Uma pequena fortuna.<br \/>\nMoral da historia: \u201cSe um tigre invade um templo e n\u00e3o quer sair, melhor incorpor\u00e1-lo ao ritual \u201c.<br \/>\nPois bem, Cavalcanti, o boiadeiro, for incorporado \u00e0 Pens\u00e3o Vasco. Corr\u00f3 deu-lhe quarto especial, com direito a tr\u00eas fartas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias e roupa lavada. Com seu jeito ing\u00eanuo e fala tr\u00f4pega de tabar\u00e9u do interior, Boiadeiro tinha apenas de sentar-se \u00e0 mesa de jogo para atrair os incautos. Sempre que chegavam incautos a Ilh\u00e9us \u2013 fato que, naquele tempo, acontecia com certa freq\u00fc\u00eancia. \u201c<\/p>\n<p>Colabora\u00e7\u00e3o de Luiz Castro<br \/>\nBacharel Administra\u00e7\u00e3o de Empresa<br \/>\nFespi 1991, <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PENS\u00c3O VASCO Sempre tive a curiosidade de ouvir dos mais experientes as est\u00f3rias e hist\u00f3rias ocorridas em nossa cidade nos tempos \u00e1ureos do cacau. Al\u00e9m do saudoso S\u00e1 Barretto, tenho outros informantes de primeira linha que considero os imortais: Moreia, Popoff e Venicius Dias, que conhecem est\u00f3rias que at\u00e9 Deus duvida. 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