{"id":39334,"date":"2012-04-24T22:58:35","date_gmt":"2012-04-25T01:58:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=39334"},"modified":"2012-04-24T23:06:31","modified_gmt":"2012-04-25T02:06:31","slug":"pofessores-da-bahiaescravos-do-governador-jacques-wagner","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/04\/24\/pofessores-da-bahiaescravos-do-governador-jacques-wagner\/","title":{"rendered":"Professores da Bahia\/Escravos do Governador Jacques Wagner"},"content":{"rendered":"<p>Boa noite a todas\/todos<br \/>\nSegue uma reflex\u00e3o minha sobre a greve de professores da rede estadual de ensino do estado da Bahia deflagrada na ultima quarta-feira (11\/04\/2012).<br \/>\nEla me foi provocada por uma colega que solicitou uma reuni\u00e3o para que retorn\u00e1ssemos ao trabalho. Sempre fui a favor do livre direito de express\u00e3o e da exposi\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias conflitantes, por isso exponho aqui a minha.<br \/>\nSe ap\u00f3s l\u00ea-la acharem por bem socializ\u00e1-la, sintam-se a vontade.<br \/>\nEntra ano e sai ano e n\u00f3s, profissionais da educa\u00e7\u00e3o, repetimos nas escolas, nas salas de aula, na sala dos professores, em casa, em conversa com amigos, na m\u00eddia&#8230;.o quanto nossos sal\u00e1rios s\u00e3o baixos, o quanto a nossa profiss\u00e3o \u00e9 desvalorizada, o descaso dos governantes a respeito da educa\u00e7\u00e3o, que os pais n\u00e3o d\u00e3o valor a educa\u00e7\u00e3o dos filhos, e at\u00e9 que nossos alunos s\u00e3o desinteressados e n\u00e3o sabem da import\u00e2ncia que a educa\u00e7\u00e3o tem na vida deles. Exigimos o respeito que a nossa profiss\u00e3o, que a nossa fun\u00e7\u00e3o social, que os anos de estudos, que o \u00e1rduo trabalho di\u00e1rio de lidar com centenas de crian\u00e7as e\/ou adolescentes merece. Mas, quando chega um momento crucial como esse, em que uma greve de professores \u00e9 deflagrada porque um governante se recusa a cumprir o acordo por ele assumido, que tentou por meio de diferentes manobras fazer com o que reajuste dos professores de todo o Estado brasileiro fosse inferior ao que a presidenta determinou, em cumprimento da lei (ratificada pelo supremo Tribunal de Justi\u00e7a), \u00e9 que percebemos que RESPEITO \u00c9 PRA QUEM SE RESPEITA.<br \/>\n\u00c9 muito triste que num momento crucial como esse, onde a nossa categoria de professores deveria estar unida para que enfrent\u00e1ssemos os muitos percal\u00e7os que a decis\u00e3o tomada na ultima quarta-feira vai nos gerar na m\u00eddia, nas declara\u00e7\u00f5es do governador (se ele se der ao trabalho), do secret\u00e1rio de educa\u00e7\u00e3o, de alunos, dos pais de alunos, tenhamos muitas vezes que lutar para convencer nossos pr\u00f3prios colegas a aderir ao movimento que luta para o bem e pelos direitos de todos os professores. Alguns munidos de argumentos como: \u201ca greve n\u00e3o vai dar em nada\u201d; \u201cvai prejudicar apenas a n\u00f3s professores, e aos alunos, pois o governo n\u00e3o t\u00e1 nem a\u00ed\u201d; \u201cvai sacrificar nossos s\u00e1bados e merecidas f\u00e9rias do final do ano\u201d, ou at\u00e9, \u201ceu j\u00e1 ganho acima do piso\u201d, ent\u00e3o, para que lutar?<br \/>\nO clima de derrotismo tomou conta dos professores baianos em decorr\u00eancia do constante desrespeito do atual governo com a educa\u00e7\u00e3o, desde seu primeiro mandato, quando ele foi o primeiro governador a zerar os contracheques dos professores porque estes estavam em greve ou a ser irredut\u00edvel na perspectiva de que s\u00f3 negociaria se volt\u00e1ssemos a trabalhar (a n\u00f3s tratar como cachorros que colocam o rabo entre as pernas quando o dono bate o p\u00e9). Mas, n\u00e3o somos os \u00fanicos a nos sentir assim derrotados, humilhados, com medo. Basta lembrar o tratamento autorit\u00e1rio e desrespeitoso dado aos policiais em greve recente (n\u00e3o quero, com isso, abonar as falhas de alguns policiais). \u00c9 o funcionalismo p\u00fablico baiano que se sente assim, diante de postura t\u00e3o agressivamente autorit\u00e1ria do atual governador, que nos faz questionar: cad\u00ea a sensibilidade do sindicalista de outrora?<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Para esses colegas, s\u00f3 gostaria de lembrar que, na hist\u00f3ria, nenhum ganho social veio sem luta. Luta que custou, muitas vezes, a vida e a liberdade de muitas pessoas. Todos os direitos alcan\u00e7ados, o foram com sangue , suor e l\u00e1grimas. E agora vamos desistir porque precisaremos trabalhar nos s\u00e1bados e sacrificar as f\u00e9rias? E os muitos mortos, presos e torturados para que pud\u00e9ssemos ter direitos iguais, direito ao voto e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica? Direito \u00e0 vida e \u00e0 liberdade, direito de ir e vir, de expressar nossas opini\u00f5es, os direitos trabalhistas: jornada de trabalho, f\u00e9rias, sal\u00e1rio m\u00ednimo, seguro desemprego, licen\u00e7a maternidade, e tantos outros mais? Estamos, quando evocamos essas perdas m\u00ednimas que teremos, desrespeitando a luta e a vida dessas pessoas. E, quando dizemos que n\u00e3o vamos ganhar nada agora, esquecemos que muitos morreram sem ver os frutos de sua luta, mas nem por isso eles deixaram de vir. Muitas vezes n\u00e3o lutamos para ganhar, e sim, para n\u00e3o nos deixarmos vencer pelo autoritarismo, pela tirania, pela intoler\u00e2ncia.<br \/>\nNo Brasil, hoje, virou moda declarar as greves ilegais e punir os sindicatos e trabalhadores com multas absurdas. H\u00e1, em curso, um processo de criminaliza\u00e7\u00e3o das greves. Esse direito hist\u00f3rico, que nos rendeu muitas vit\u00f3rias sociais importantes, que corrigiu situa\u00e7\u00f5es criminosas e at\u00e9 de atentados \u00e1 vida (dado as condi\u00e7\u00f5es desumanas, insalubres, extenuantes de trabalho de algumas categorias), passou a ser cerceado pela justi\u00e7a que com isso vem paralisando os trabalhadores que disp\u00f5em de poucos meios para fazer valerem seus direitos. No entanto, essa mesma justi\u00e7a n\u00e3o tem a mesma celeridade para corrigir os abusos trabalhistas, fazer valerem acordos firmados entre empregados e empregadores, n\u00e3o se apresenta como caminho poss\u00edvel, para o qual podemos apelar, quando nos sentimos lesados, desrespeitados em nossos direitos de trabalhador.<br \/>\nNo caso dos trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o, uma quest\u00e3o me inquieta, e creio que seja importante nos perguntarmos: por que, das profiss\u00f5es de maior prest\u00edgio no nosso pa\u00eds em s\u00e9culos passados, s\u00f3 o magist\u00e9rio perdeu seu brilho? Isso n\u00e3o ocorreu com m\u00e9dicos, advogados, engenheiros, que continuam sendo respeitados pela sociedade e bem melhor remunerados do que os professores.<br \/>\nO atual descaso com a educa\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o \u00e9 algo recente. Alguns estudiosos o localizam no processo de amplia\u00e7\u00e3o do ensino p\u00fablico, especialmente quando este passou a abarcar os pobres, na d\u00e9cada de 1930. Outros discutem os v\u00e1rios mecanismos utilizados durante a Ditadura Militar brasileira (1964-1985), que acabaram por desestruturar a educa\u00e7\u00e3o: diminuir sucessivamente suas verbas (em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o de sua oferta); a persegui\u00e7\u00e3o de professores, a vigil\u00e2ncia das escolas e de seus profissionais, a persegui\u00e7\u00e3o e desintegra\u00e7\u00e3o de entidades de classe ( estudantis e dos profissionais da educa\u00e7\u00e3o); a mudan\u00e7a curricular (imposi\u00e7\u00e3o de EMC, OSPB e Estudos Sociais no lugar de Hist\u00f3ria, Geografia, Filosofia e Sociologia); o rebaixamento salarial do professorado; os cursos de licenciatura de curta dura\u00e7\u00e3o, etc.<br \/>\nNo processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a partir de 1985, apesar da educa\u00e7\u00e3o servir de bandeira para todo e qualquer pol\u00edtico que subisse num palanque desde ent\u00e3o, seja qual for sua cor pol\u00edtica, nenhum deles cumpriu suas promessas eleitorais de fazer da educa\u00e7\u00e3o um dos pilares da governan\u00e7a brasileira.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 por acaso que a nossa profiss\u00e3o caiu no descr\u00e9dito, e que somos desrespeitados todos os dias por governantes, m\u00eddias, sociedade, alunos e pais de alunos. Que somos agredidos psicologicamente, moralmente, profissionalmente e at\u00e9 fisicamente por aqueles que deveriam ser nossos parceiros na dif\u00edcil tarefa de educar as novas gera\u00e7\u00f5es. \u00c9 isso o que acontece cotidianamente, e em momentos como esses, em que os professores chegam ao seu limite e decidem pela greve, vemos estes agentes, muitas vezes, vir \u00e1 p\u00fablico para culpar, detratar e at\u00e9 execrar publicamente a postura dos professores. Isso porque, segundo eles, no final, os alunos s\u00e3o os \u00fanicos prejudicados. Onde estavam esses profundos, atuantes e vorazes defensores da educa\u00e7\u00e3o quando: os alunos n\u00e3o t\u00eam aulas, porque n\u00e3o h\u00e1 professores (por insufici\u00eancia no n\u00famero de professores nas redes estadual e municipal, por falta de professores concursados em determinadas \u00e1reas ou localidades, por licen\u00e7a m\u00e9dicas, e tantas outras situa\u00e7\u00f5es? E QUE FIQUE BEM CLARO: NESSES CASOS, AS AULAS N\u00c3O S\u00c3O REPOSTAS!). E o governo, na sua morosidade, leva meses para sanar esse problema! Quando escolas, at\u00e9 a presente data, ainda n\u00e3o come\u00e7aram as aulas devido \u00e0 n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o de reformas indispens\u00e1veis a seu in\u00edcio(reformas essas que deveriam ter sido feitas durante o recesso letivo); ou quando os governantes n\u00e3o repassam as verbas para as escolas, por conta, segundo eles, da burocracia, e elas precisam fazer milagres para manterem-se abertas e funcionando (ESSE \u00c9 O CASO DA BAHIA NO MOMENTO); ou quando falta a merenda; ou quando professores e alunos precisam trabalhar e estudar, respectivamente, em salas mal iluminadas, sem ventila\u00e7\u00e3o, extremamente quentes (no calor nordestino, baiano que conhecemos), e, no per\u00edodo das chuvas, goteiras por todos os lados&#8230;Essa lista poderia se estender de forma quase que intermin\u00e1vel, mas, nada disso prejudica o aluno! O governo, com seu descaso; a m\u00eddia, com seus produtos \u201cde alta qualidade\u201d; a sociedade, com seu consumismo; alguns pais, com sua falta de tempo; NADA DISSO PRENJUDICA O ALUNO! A \u00daNICA COISA QUE O FAZ, \u00c9 GREVE DE PROFESSOR.<br \/>\nReconquistar nossa auto-estima, auto-respeito, amor-pr\u00f3prio: \u00e9 o que o professor precisa de forma urgente! S\u00f3 n\u00f3s podemos fazer isso por n\u00f3s mesmos. PRECISAMOS NOS SENTIR, ANTES DE TUDO, DIGNOS DE RESPEITO, PARA SERMOS RESPEITADOS. Precisamos assumir nossas extensas responsabilidades e exigirmos, de igual forma, nossos direitos (at\u00e9 mesmo para termos condi\u00e7\u00f5es de falar de cidadania para nossos alunos).<br \/>\nEsse texto \u00e9, acima de tudo, um convite ao professor para essa reconquista.<br \/>\nS\u00f3 quando andarmos nas ruas de novo, orgulhosos de nossa profiss\u00e3o, de cabe\u00e7a erguida, como fazem os m\u00e9dicos, advogados, engenheiros, dentistas&#8230; N\u00e3o teremos mais vergonha, nem medo de fazer greve, de lutar por nossos direitos. E, pela dignidade e auto-respeito que exalaremos N\u00c3O, HAVER\u00c1 NINGU\u00c9M (M\u00cdDIA OU GOVERNANTES) QUE TENHA CORAGEM DE NOS DETRATAR PUBLICAMENTE E DE SENTIREM QUE FAZEM MAIS PELA EDUCA\u00c7\u00c3O DESSE PA\u00cdS DO QUE N\u00d3S, QUE ESTAMOS NAS SALAS DE AULAS DURANTE 200 DIAS, TODOS OS ANOS.<\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\nElis\u00e2ngela Sales Encarna\u00e7\u00e3o &#8211; Professora da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da rede estadual de ensino p\u00fablico do estado da Bahia. Graduada, especialista e mestre em Hist\u00f3ria<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boa noite a todas\/todos Segue uma reflex\u00e3o minha sobre a greve de professores da rede estadual de ensino do estado da Bahia deflagrada na ultima quarta-feira (11\/04\/2012). Ela me foi provocada por uma colega que solicitou uma reuni\u00e3o para que retorn\u00e1ssemos ao trabalho. 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