{"id":40478,"date":"2012-05-10T18:41:42","date_gmt":"2012-05-10T21:41:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=40478"},"modified":"2012-05-10T18:41:42","modified_gmt":"2012-05-10T21:41:42","slug":"os-que-estao-vivos-e-os-que-estao-mortos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/05\/10\/os-que-estao-vivos-e-os-que-estao-mortos\/","title":{"rendered":"Os que est\u00e3o vivos e os que est\u00e3o mortos"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Fernando Henrique Cardoso<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Os que est\u00e3o vivos e os que est\u00e3o mortos \u2013 (Fernando Henrique Cardoso)<br \/>\nNo fundo estamos condenados ao mist\u00e9rio. As pessoas dizem, eu gostaria de sobreviver al\u00e9m da minha materialidade. Eu n\u00e3o acredito que v\u00e1 sobreviver, mas, pelo menos na mem\u00f3ria dos outros, voc\u00ea sobrevive.<br \/>\nVivi intensamente isso com a perda da Ruth. Olhando para tr\u00e1s, \u00e9 claro que ela estava com um problema grave de sa\u00fade. Apesar disso fizemos uma viagem longa e fascinante \u00e0 China. \u00c9 como se o problema n\u00e3o existisse. A gente sabe que um dia vai morrer e no entanto vive como se fosse eterno.<br \/>\nDepois da morte de Ruth e, mais recentemente, de outros amigos, como Juarez Brand\u00e3o Lopes e Paulo Renato, eu me habituei a conversar com os que morreram. N\u00e3o estou delirando. Os mortos queridos est\u00e3o vivos dentro da gente. A mem\u00f3ria que temos deles \u00e9 real.<br \/>\n\u00c0 medida que vamos ficando mais velhos, convivemos cada vez mais com a mem\u00f3ria. Conversamos com os mortos. Por interm\u00e9dio da Ruth, passei a lembrar mais dos outros que morreram, dos meus pais, meus av\u00f3s. Os que morreram e nos foram queridos continuam a nos influenciar. O que n\u00e3o h\u00e1 mais \u00e9 o contr\u00e1rio. N\u00e3o podemos mais influenci\u00e1-los.<br \/>\nEu n\u00e3o penso na morte. Sei que ela vem. J\u00e1 senti a morte de perto. N\u00e3o em mim. Senti a morte de perto nos meus. E procuro conviver com ela atrav\u00e9s da mem\u00f3ria. Os que se foram continuam na minha mem\u00f3ria e eu converso com eles. Minha m\u00e3e meu pai, minha av\u00f3, minha mulher, meu irm\u00e3o, meus amigos que se foram s\u00e3o meus referentes \u00edntimos. Tudo isso constitui uma comunidade \u2013 posso usar a palavra \u2013 espiritual, que transcende o dia a dia.<br \/>\nEnt\u00e3o, a morte existe, ela \u00e9 parte da vida, \u00e9 angustiante, n\u00e3o se sabe nunca quando ela vai ocorrer. Eu s\u00f3 pe\u00e7o que ela seja indolor. N\u00e3o sei se ser\u00e1. Ningu\u00e9m sabe como e quando vai morrer. Pessoalmente, tenho mais medo do sofrimento que leva \u00e0 morte do que da morte propriamente dita.<br \/>\nSe n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter a pretens\u00e3o ut\u00f3pica de sobreviver como pessoa f\u00edsica, \u00e9 poss\u00edvel ter a aspira\u00e7\u00e3o de viver na mem\u00f3ria, come\u00e7ando por conviver com a mem\u00f3ria dos que se foram. Isso tem alguma materialidade? Nenhuma. Isso \u00e9 cient\u00edfico? N\u00e3o \u00e9. Mas \u00e9 uma maneira de voc\u00ea acalmar sua ang\u00fastia existencial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Henrique Cardoso Os que est\u00e3o vivos e os que est\u00e3o mortos \u2013 (Fernando Henrique Cardoso) No fundo estamos condenados ao mist\u00e9rio. As pessoas dizem, eu gostaria de sobreviver al\u00e9m da minha materialidade. Eu n\u00e3o acredito que v\u00e1 sobreviver, mas, pelo menos na mem\u00f3ria dos outros, voc\u00ea sobrevive. Vivi intensamente isso com a perda da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[12],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40478"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40478"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40478\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":40480,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40478\/revisions\/40480"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40478"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40478"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40478"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}