{"id":42244,"date":"2012-06-02T20:20:45","date_gmt":"2012-06-02T23:20:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=42244"},"modified":"2012-06-02T20:20:45","modified_gmt":"2012-06-02T23:20:45","slug":"a-toga-a-lingua-e-o-cacador-de-blogs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/06\/02\/a-toga-a-lingua-e-o-cacador-de-blogs\/","title":{"rendered":"A toga, a l\u00edngua e o ca\u00e7ador de blogs"},"content":{"rendered":"<h1><\/h1>\n<p><img class=\"alignright\" src=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/arquivosCartaMaior\/FOTO\/92\/banner_35525.jpg\" alt=\"\" \/>Escudado na prote\u00e7\u00e3o republicana da toga, o ministro Gilmar Mendes desnudou uma controversa agenda pol\u00edtica pessoal na \u00faltima semana de maio. Onipresente na obsequiosa passarela da m\u00eddia amiga, lacrou seu caminho na 6\u00aa feira declarando-se um ca\u00e7ador de blogs advers\u00e1rios de suas ideias e das ideias de seus amigos. Em preocupante equipara\u00e7\u00e3o entre a autoridade da toga e a arbitrariedade da l\u00edngua, Gilmar decretou serem inimigos das institui\u00e7\u00f5es republicanas todos aqueles que contestam os seus malabarismos discursivos, a adequar den\u00fancias a cada 24 horas, num exerc\u00edcio de convencimento \u00e0 falta de testemunhas e fatos que as comprovem.<\/p>\n<p>A fragilidade desse discurso impele-o agora ao papel de censor a exigir da Procuradoria Geral da Rep\u00fablica, e do ministro Mantega, que sufoque blogs advers\u00e1rios asfixiando-os com o corte da publicidade oficial. Sobre ve\u00edculos que incluem entre suas fontes e &#8216;colaboradores informais&#8217;, not\u00f3rios acusados de integrar quadrilhas do crime organizado, o ministro nada observa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a da publicidade oficial. Cabe ao governo Dilma dar uma resposta ao autonomeado censor da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>O ataque da l\u00edngua togada contra a imprensa cr\u00edtica n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3rio. O dispositivo midi\u00e1tico conservador vive em andrajos de credibilidade e pautas. A semana final de maio estava marcada para ser um desses picos de desamparo, na despedida humilhante de seu her\u00f3i deca\u00eddo. E de fato o foi: em depoimento no Conselho de \u00c9tica do Senado, na 3\u00aa feira, o ex-l\u00edder dos demos na Casa, Dem\u00f3stenes Torres, deixaria gravado no bronze dos falsos savonarolas a lapidar confiss\u00e3o de que um chefe de quadrilha pagava as contas, mi\u00fadas, observaria, de seu celular. E ele, o centuri\u00e3o da moralidade, a direita linha dura assim cortejada pela l\u00edngua togada e pelo aparato conservador &#8211;quem sabe at\u00e9 para v\u00f4os maiores em 2014&#8211;, n\u00e3o viu nenhum trope\u00e7o \u00e9tico nesse pequeno mimo que elucida todo um perfil.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nO fecho de carreira do tribuno goiano contaminaria as manchetes que ele tantas vezes ancorou \u00e0 direita n\u00e3o fosse a providencial interven\u00e7\u00e3o da l\u00edngua amiga do ministro do STF, Gilmar Mendes. Na mesma 3\u00aa feira desde as primeiras horas da manh\u00e3, l\u00e1 estava ela a falar pelos cotovelos. Diuturnamente, contemplou a orfandade da m\u00eddia amiga naquele dia cinzento. A cada qual ofereceu uma frase brinde para erguer a moral da tropa e justificar a manchete com o carimbo &#8216;exclusivo&#8217; no alto da p\u00e1gina. N\u00e3o se poupou. O magistrado, n\u00e3o raro em destemperados decib\u00e9is, esfregou na opini\u00e3o p\u00fablica recibos e documentos que comprovariam o pagamento, com recursos pr\u00f3prios &#8211;&#8216;tenho-os para umas tr\u00eas voltas ao mundo&#8217;&#8211; de seu giro europeu, em abril de 2011, onde se encontraria com Dem\u00f3stenes Torres.<\/p>\n<p>Sua l\u00edngua foi perempt\u00f3ria em v\u00e1rios momentos a trair a evoca\u00e7\u00e3o liberal do emssor: &#8216;Vamos parar com essas suspeitas sobre viagens&#8221;, determinou. Para depois admitir em habilidosa antecipa\u00e7\u00e3o: por duas vezes utilizou carona a\u00e9rea do amigo Dem\u00f3stenes; por duas vezes voou sob os ausp\u00edcios do amigo que n\u00e3o possui ve\u00edculo a\u00e9reo pr\u00f3prio; do amigo que n\u00e3o paga nem as contas de celular. Contas mi\u00fadas, diga-se, a revelar um v\u00ednculo org\u00e2nico com a ub\u00edqua carteira gorda de acusados de integrar o condom\u00ednio criminoso goiano.<\/p>\n<p>Gilmar estava determinado a servir de reden\u00e7\u00e3o ao dispositivo midi\u00e1tico demotucano num dia t\u00e3o aziago. N\u00e3o desapontou amigos, ainda que tenha escandalizado o pa\u00eds que espera serenidade e equidist\u00e2ncia dos que vocalizam um Supremo Tribunal Federal. Ofensivo, execrou blogs e sites cr\u00edticos &#8212; esses sim, bandidos e gangsters&#8211; que arguiram e ainda arguem as fronteiras da identidade de valores que aproximou o magistrado do senador deca\u00eddo.<\/p>\n<p>Fez mais ainda: acusou Lula de ser a central de boatos contra ele para &#8216;melar o julgamento do mensal\u00e3o&#8217; &#8211;como se o ex-presidente Lula n\u00e3o pudesse, n\u00e3o devesse ter opini\u00e3o sobre fatos relevantes da vida pol\u00edtica nacional &#8211;prerrogativa que outras togas mais serenas n\u00e3o contestam e legitimam. Ao jornal O Globo, na linha da frase \u00e0 la carte, facilitou a manchete pronta para dissolver a ter\u00e7a-feira de cinzas do conservadorismo: &#8216;O Brasil n\u00e3o \u00e9 a Venezuela onde Ch\u00e1vez manda prender juiz&#8217;. O di\u00e1rio retribuiu a gentileza em manchete garrafal de duas linhas no alto da p\u00e1gina. Um contrafogo sob medida \u00e0 humilhante baixa no Senado. Incans\u00e1vel, a l\u00edngua foi provendo xistes e chutes a emiss\u00e1rios de reda\u00e7\u00f5es sedentas, mas cometeu alguns deslizes.<\/p>\n<p>Esqueceu que um pilar de sua vers\u00e3o sobre a famosa conversa com Lula &#8211;origem de toda celeuma que descambou em ataque \u00e0 liberdade de imprensa&#8211; residia nos pequenos detalhes que emprestam veracidade ao bom contador; um deles, o cen\u00e1rio: a cozinha. Teria sido naquele recinto profano do escrit\u00f3rio do ex-ministro Nelson Jobim, abrigado de qualquer solenidade e sem a presen\u00e7a do anfitri\u00e3o, que ocorrera o ass\u00e9dio moral inesperado de um Lula chantageador contra um Gilmar irretoc\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quadro perfeito. Exceto pelo fato de n\u00e3o se sustentar nem mesmo no matraquear do interessado. Sim, o mesmo magistrado suprimiu o precioso cen\u00e1rio despido de testemunhas na vers\u00e3o apresentada ao jornal Valor do dia 30-05 quando afirmou literalmente: &#8216;Jobim esteve presente durante todo o tempo&#8217;. Como? E a cozinha? E a privacidade a dois que lubrificou o ass\u00e9dio de um Lula irreconhec\u00edvel?<\/p>\n<p>Evaporou-se: Jobim estava presente o tempo todo. A contradi\u00e7\u00e3o ostensiva mirava agora outro alvo: o pr\u00f3prio Jobim, em retribui\u00e7\u00e3o ao desmentido categ\u00f3rico do anfitri\u00e3o para o relato original do epis\u00f3dio \u00e0 VEJA. No mesmo Valor, Gilmar insinuaria contra Nelson Jobim uma suspeita de cumplicidade com Lula por ter lan\u00e7ado na mesa da conversa o nome de um desafeto: Paulo Lacerda. Ex-dirigente da ABIN, Lacerda foi demitido em 2008 depois que a mesma lingua togada denunciou aos mesmos parceiros da m\u00eddia uma suposta escuta da PF em seu escrit\u00f3rio &#8211;fato nunca comprovado. Na 5\u00aa feira (31-05) o entendimento da investida contra Jobim ficaria completo: Serra, o candidato predileto do conservadorismo, amigo de Gilmar, prestou-se \u00e0 colaborar com Veja; desinteressadamente; a exemplo do que tantas vezes o fez desinteressado o tamb\u00e9m o colaborador Dad\u00e1, araponga de aluguel do esquema Cachoeira. Serra incitou o amigo Jobim a falar com a revista sobre o encontro. \u00c9 um tra\u00e7o do ve\u00edculo da Abril &#8211;comprovado nos documentos dispon\u00edveis na CPI do Cachoeira&#8211; recorrer a colaboradores desse espectro para obter &#8216;provas&#8217; que sustentem suas mat\u00e9rias pr\u00e9-fabricadas.<\/p>\n<p>Surpreendido pela trama rasteira Jobim tirou a escada de VEJA e deu troco duplo: desmentiu Gilmar no Estad\u00e3o; confirmou a Monica Bergamo, da Folha, o que tantos sabem: Serra n\u00e3o falha; sua biografia de bastidores est\u00e1, esteve e estar\u00e1 sempre entrela\u00e7ada a golpes e den\u00fancias que contemplem a regressividade udenista da qual VEJA constitui a corneta mais atuante e Gilmar o novo expoente da agressividade lacerdista.<\/p>\n<p>Diante do maratonismo verbal n\u00e3o sobraria f\u00f4lego aos jornais e jornalistas amigos para conceder ao leitor um pequeno espa\u00e7o de reflex\u00e3o sobre a momentosa semana final de maio, que deixa mais d\u00favidas do que certezas. Ademais da evanescente cozinha do escrit\u00f3rio do ex-ministro Nelson Jobim, outros pontos de interroga\u00e7\u00e3o merecem retrospecto. Por exemplo:<\/p>\n<p>a) a reportagem publicada por Carta Maior no dia 29-04 &#8221; Cachoeira arruma avi\u00e3o para Dem\u00f3stenes e &#8216;Gilmar&#8217; &#8211;com aspas por conta da identifica\u00e7\u00e3o incompleta do ilustre viajante e um dos motivos da fluvial verborragia togada, n\u00e3o tratava de pagamento de v\u00f4o a Berlim patrocinado pela &#8216;ag\u00eancia de viagens&#8217; Dem\u00f3stenes &amp; Cachoeira;<\/p>\n<p>b) o texto, conciso e claro baseado em escutas p\u00fablicas da PF teve como foco uma &#8216;carona a\u00e9rea&#8217; no trecho SP-Bras\u00edlia, solicitada ao esquema Cachoeira para o dia 25-04 de 2011;<\/p>\n<p>c) as tratativas telef\u00f4nicas da quadrilha Cachoeira apontam que os passageiros da carona viriam da Alemanha e seriam, respectivamente, Dem\u00f3stenes e &#8216;Gilmar&#8217; ;<\/p>\n<p>d) a data da chegada a S\u00e3o Paulo \u00e9 a mesma do retorno informado pelo pr\u00f3prio Gilmar Mendes em seu rally jornal\u00edstico;<\/p>\n<p>e) o hor\u00e1rio de chegada do seu v\u00f4o origin\u00e1rio da Alemanha guarda proximidade com aquele informado \u00e0 quadrilha. Essas as coincid\u00eancias not\u00e1veis. A partir da\u00ed os fatos e comprovantes apresentados por Gilmar Mendes desmentem que ele tenha utilizado a dita carona solicitada \u00e0 quadrilha, fato que Carta Maior noticiou imediatamente ap\u00f3s os esclarecimentos do magistrado. O desencontro entre essas evid\u00eancias e as providencias tomadas pela quadrilha Cachoeira, todavia, autoriza uma indaga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se dissolve no aluvi\u00e3o verborr\u00e1gico da semana, a saber: quantos Gilmares havia em Berlim com Dem\u00f3stenes Torres? E, mais que isso: quem seria o &#8216;Gilmar&#8217; cuja inclus\u00e3o na carona, aparentemente desativada, n\u00e3o causou qualquer surpresa a Cachoeira, que nas escutas reage \u00e0 men\u00e7\u00e3o do nome e da presen\u00e7a como algo se n\u00e3o habitual, perfeitamente compat\u00edvel com a extens\u00e3o de seus tent\u00e1culos e zonas de influ\u00eancia?<\/p>\n<p>Carta Maior reserva-se o direito de continuar praticando um jornalismo cr\u00edtico e auto-cr\u00edtico, comprometido \u00fanica e exclusivamente com a democracia e as aspira\u00e7\u00f5es progressistas da sociedade brasileira, abra\u00e7adas pela ampla maioria de seus leitores. Isso naturalmente a coloca na margem oposta daqueles que at\u00e9 ontem consideravam Dem\u00f3stenes Torres, seus valores, agendas, contas de celular e caronas em jatinhos uma refer\u00eancia \u00e9tica e republicana.<\/p>\n<p>Fiel a esse compromisso com o leitor, Carta Maior cumpre a obriga\u00e7\u00e3o de manter em pauta algumas perguntas ainda sem resposta satisfat\u00f3ria: quantos gilmares havia em Berlim? Quantos gilmares havia no escrit\u00f3rio de Jobim (um na cozinha e um na sala)? E, ainda mais urgente, quantas amea\u00e7as de fuzilamento da liberdade de express\u00e3o ser\u00e3o necess\u00e1rias para que os partidos democr\u00e1ticos e o governo tomem a iniciativa de desautorizar a l\u00edngua arvorada em extens\u00e3o da toga? N\u00e3o s\u00f3 em palavras, mas sobretudo na imposterg\u00e1vel democratiza\u00e7\u00e3o afirmativa da publicidade oficial, antes que novos e velhos ca\u00e7adores de jornalistas consigam transform\u00e1-la em mais um torniquete da pluralidade de opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Postado por Saul Leblon \u00e0s 14:44<\/p>\n<p>CARTA MAIOR<\/p>\n<p>http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/postMostrar.cfm?blog_id=6&#038;post_id=998<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escudado na prote\u00e7\u00e3o republicana da toga, o ministro Gilmar Mendes desnudou uma controversa agenda pol\u00edtica pessoal na \u00faltima semana de maio. Onipresente na obsequiosa passarela da m\u00eddia amiga, lacrou seu caminho na 6\u00aa feira declarando-se um ca\u00e7ador de blogs advers\u00e1rios de suas ideias e das ideias de seus amigos. 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