{"id":43351,"date":"2012-06-17T12:30:41","date_gmt":"2012-06-17T15:30:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=43351"},"modified":"2012-06-17T12:32:01","modified_gmt":"2012-06-17T15:32:01","slug":"frau-mauchle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/06\/17\/frau-mauchle\/","title":{"rendered":"FRAU MAUCHLE"},"content":{"rendered":"<p><em><strong><span style=\"font-size: small;\">Guilherme Albagli<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\">Ela nasceu em St. Gallen, nas montanhas su\u00ed\u00e7as, por volta de 1920, numa fam\u00edlia unida, assentada e com os padr\u00f5es \u00e9ticos muito comuns naquelas bandas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">J\u00e1 quase beirando a adolesc\u00eancia, era ing\u00eanua a ponto de correr \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de trem para ver chegar o carregamento de &#8220;<em>nada dourado<\/em>&#8221; ou de &#8220;<em>macacos africanos<\/em>&#8221; que um tio, de brincadeira, lhe anunciava. Afinal, na cultura su\u00ed\u00e7a, palavra de tio tinha que ser verdadeira e, no seu racioc\u00ednio, n\u00e3o havia espa\u00e7o para lorotas.<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\">Estudou num curso t\u00e9cnico para livreiros, algo semelhante \u00e0 biblioteconomia. Solteira at\u00e9 quase os quarenta, um dia viu lhe chegar um forte patr\u00edcio, vindo do Brasil, em busca de uma esposa. Sofreu muito no nascimento do seu primog\u00eanito pois n\u00e3o era mais uma daquelas jovens que, pela natureza,\u00a0 d\u00e3o \u00e0 luz como se d\u00e1 um espirro.<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\">Na nova cidade chegando, se enturmou com as gringas da terra, entre elas, a minha av\u00f3, que se tornou a sua melhor amiga por toda a vida.<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\">Muito culta, al\u00e9m do Alem\u00e3o, falava Franc\u00eas e Ingl\u00eas, l\u00edngua que praticava todas as tardes de quarta-feira com\u00a0 as suas amigas vindas da Inglaterra, Fran\u00e7a, Alemanha e Turquia, onde nascera a minha av\u00f3. Bebiam muito ch\u00e1-preto, comiam bolos, tortas, biscoitos e tricotavam muito n\u00e3o sei o qu\u00ea.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><!--more--><\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\">Adorava nadar, logo encontrando um grupo de homens nadadores que a convidaram para exerc\u00edcios na travessia do Pontal ao Morro do Unh\u00e3o. Pediu a devida licen\u00e7a do marido e este retrucou: &#8220;<em>Se voc\u00ea participar deste grupo, o \u00fanico a acreditar na sua boa reputa\u00e7\u00e3o, serei eu&#8221;<\/em>. \u00c9 claro que a Martinha se esquivou das nadadas em grupo. Preferia nadar sozinha. Um dia, num piquenique-cultural para a sua turma de Franc\u00eas, na Ponta do Eust\u00e1quio, onde hoje est\u00e1 o Boca do Mar, n\u00e3o percebeu que a correnteza estava muito forte, sendo por esta carregada at\u00e9 perto do Cristo, quando pescadores a perceberam e a recolheram.<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\">Era caprichosa e dedicada como professora de l\u00ednguas, cobrando muito barato, quase um pagamento simb\u00f3lico e, quem n\u00e3o podia pagar, estudava de gra\u00e7a. Pela manh\u00e3, depois dos afazeres dom\u00e9sticos, redigia textos did\u00e1ticos originais para os seus alunos, os colava em fichas de cartolina colorida, os ilustrando com recortes das imagens das revistas que recebia da sua terra. Professora Martha Mauchle era um verdadeiro incentivo ao aprendizado de l\u00ednguas. Havia gente que estudava tr\u00eas l\u00ednguas, com ela, ao mesmo tempo.<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\">Era extremamente criativa. Nas v\u00e9speras dos anivers\u00e1rios das meninas das fam\u00edlias amigas, ia nas suas casas buscar as bonecas desgrenhadas e as devolvia, no dia da festa, com roupa, sapatos e adere\u00e7os novos. Criativa, sabia do apre\u00e7o da garotada baiana pelo rolete de cana, pipoca e amendoim cozido e os oferecia no lugar dos brigadeiros, bom-bocados e quibes obrigat\u00f3rios nas outras festas de anivers\u00e1rio da cidade. Organizava atividades l\u00fadicas, como corridas de saco, ovo-na-colher e aquela brincadeira de se encontrar, com olhos vendados,\u00a0 o lugar correto do rabo de um burro-sem-rabo desenhado numa cartolina. Na ampla biblioteca da sua casa, com as paredes recobertas com estantes cheias de livros em alem\u00e3o, apresentava sess\u00f5es de proje\u00e7\u00e3o de &#8220;slides&#8221; com imagens de montanhas e lagos da sua terra. N\u00e3o esquecia de providenciar o fundo musical para cada sess\u00e3o. <\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\">Tinha muito carinho por todos os seus alunos e, talvez, especialmente por mim. Um dia levou-me com os seus filhos Oscar ( m\u00fasico na Orquestra Sinf\u00f4nica da UFBA ), F\u00e9lix ( g\u00eanio na matem\u00e1tica que multiplicava, de cabe\u00e7a, qualquer n\u00famero de tr\u00eas casas ) e \u00darsula ( professora no Curso de Veterin\u00e1ria da UESC ), \u00e0 sua pequena fazenda de cacau. A casa-sede era pequena o bastante para ser muito aconchegante, sendo ali servido, \u00e0 noite, um &#8220;<em>fondue<\/em>&#8221; \u00e0 moda do seu cant\u00e3o: esfregava um dente-de-alho no interior de uma panela de barro vidrado, ali colocando peda\u00e7os de <em>emental<\/em>, <em>gruy\u00e8re <\/em>e queijo-prato no lugar do <em>cheddar<\/em> imposs\u00edvel de se encontrar em Ilh\u00e9us naquele tempo. Punha um pouco de leite misturado \u00e0 maizena, deixava tudo derreter, derramando, depois, um pouco de vinho branco seco, no lugar de um tal &#8220;<em>kirsch&#8221;,<\/em>\u00a0 um certo aguardente de frutas do Centro Europeu. Distribu\u00eda peda\u00e7os pequenos de p\u00e3o que eram espetados num garfo de cabo comprido, para cada um retirar, aos poucos, da panela, o queijo fundido. Esta foi a primeira das duas \u00fanicas vezes que provei deste prato.<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\">Ao contr\u00e1rio de n\u00f3s, de origem latina e levantina, era contida nas suas emo\u00e7\u00f5es, n\u00e3o chorando pelas mortes dos seus, mas segurando toda a dor na musculatura\u00a0 contrita da sua face. <\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\">Frau Mauchle nos mostrou a possibilidade se viver com muita dignidade, mesmo com o or\u00e7amento apertado. Compraram um terreno na Baixa-Fria e, durante longos anos, foram terminando a constru\u00e7\u00e3o da casa que, depois de pronta, tinha sua horta, pomar, galinheiro e uma das primeiras piscinas de Ilh\u00e9us; ali reunia as amigas e, depois, quando n\u00e3o mais nadava, a alugava a uma professora de nata\u00e7\u00e3o para suas aulas. Tudo isso conseguindo com muita economia, costurando para os filhos e aproveitando at\u00e9 o vinagre que escorria das bananas que n\u00e3o eram transformadas em passa ou compota. <\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\">A minha fam\u00edlia, que estava entre os seus grandes amigos, estava\u00a0 quase toda fora de Ilh\u00e9us, na sexta feira passada, dia do seu enterro. Z\u00e9 Carlinhos telefonou a Lol\u00f4, pedindo que me avisasse da sua morte, mas os seus muitos compromissos de m\u00e3e, esposa e profissional a fizeram esquecer do telefonema pedido. No s\u00e1bado, assim que fui avisado da not\u00edcia, fui ver \u00darsula e lhe repetir o quanto a sua m\u00e3e fora importante na minha forma\u00e7\u00e3o profissional e humana. Ela foi um certo exemplo, tamb\u00e9m, de como de ser simples e grande, ao mesmo tempo.<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"mailto:guilhermealbagli@hotmail.com\" target=\"_blank\">guilhermealbagli@hotmail.com<\/a><\/span><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Albagli Ela nasceu em St. Gallen, nas montanhas su\u00ed\u00e7as, por volta de 1920, numa fam\u00edlia unida, assentada e com os padr\u00f5es \u00e9ticos muito comuns naquelas bandas. 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