{"id":43477,"date":"2012-06-19T14:58:07","date_gmt":"2012-06-19T17:58:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=43477"},"modified":"2012-06-19T14:58:32","modified_gmt":"2012-06-19T17:58:32","slug":"amando-amado-amem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/06\/19\/amando-amado-amem\/","title":{"rendered":"Amando Amado, am\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Mariana Kaoos<\/strong><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_43478\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/mural-jorge-amado-rebucet\u00ea.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-43478\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-43478\" title=\"mural jorge amado rebucet\u00ea\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/mural-jorge-amado-rebucet\u00ea.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/mural-jorge-amado-rebucet\u00ea.jpg 550w, https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/mural-jorge-amado-rebucet\u00ea-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-43478\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Mariana Kaoos<\/p><\/div>\n<div>Era hora do recreio. Depois de tanto tempo fica dif\u00edcil imaginar a esta\u00e7\u00e3o do ano, mas fazia sol e os p\u00e1ssaros cantavam por entre as in\u00fameras \u00e1rvores daquele col\u00e9gio de freiras. A biblioteca era uma das melhores da cidade. A menina dera in\u00edcio \u00e0 sua vida liter\u00e1ria por l\u00e1, lendo a bibliografia de Paulo Coelho e mais alguns livros avulsos que lhes chamavam a aten\u00e7\u00e3o. Mas naquele recreio de sol ela decidiu fazer diferente. A menina morava em Ilh\u00e9us e quando pequena ia muito \u00e0 ro\u00e7a de cacau da fam\u00edlia, onde se deparava com os personagens e o mundo m\u00edstico grapi\u00fana. Naquela fat\u00eddica manh\u00e3, ela chegou para a &#8220;tia&#8221; loira da biblioteca de unhas vermelhas e que cheirava a cigarro e disse:<\/div>\n<div>&#8211; Tia, hoje eu vou de Jorge Amado. Voc\u00ea tem Gabriela Cravo e Canela?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<p>&#8211; Voc\u00ea esta maluca, menina? \u00c9 claro que eu tenho Jorge Amado, todos os livros dele, por sinal. Mas eu n\u00e3o vou deixar voc\u00ea pegar nenhum n\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; E por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Porque voc\u00ea s\u00f3 tem dez anos de idade. Jorge Amado aborda temas muito sexuais e violentos e al\u00e9m disso, ele n\u00e3o \u00e9 para voc\u00ea. Voc\u00ea n\u00e3o pode ler Jorge e pronto.<\/p>\n<\/div>\n<div><!--more-->Daquele dia em diante a menina se enveredou pelo mundo da literatura. Passou por Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro, Nelson Motta, chegou at\u00e9 a ler Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, mas nunca mais procurou por qualquer obra de Jorge Amado. Teria ela tido uma percep\u00e7\u00e3o de vida maior caso tivesse come\u00e7ado a l\u00ea-lo aos dez anos ?<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Esperando Jorge!<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Doze anos depois a menina se encontra na metr\u00f3pole paulista, enveredada nos caminhos da poesia concreta e perdendo a vista ao olhar para os arranha-c\u00e9us. Numa tarde de sol e chuva (na ro\u00e7a dizia-se que dias assim era o casamento da rapousa com a vi\u00fava) ela pegou o &#8220;tatu de a\u00e7o&#8221; rasgando o subsolo da capital em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o da Luz.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Chegando l\u00e1, caminhou rumo ao pr\u00e9dio de 1901, todo importado da Irlanda, que abarcava\u00a0desde a\u00a0esta\u00e7\u00e3o de trem at\u00e9 o Museu da L\u00edngua Portuguesa. Logo na entrada, tr\u00eas \u00f4nibus escolares ocupavam toda a parte do estacionamento. Entrou para comprar o ingresso, ao pre\u00e7o de R$6,00 a inteira, e foi conferir o que o museu tinha para lhe mostrar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao entrar no elevador, que executava uma m\u00fasica de Arnaldo Antunes como som ambiente, o ascensorista logo informou:<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; Voc\u00ea est\u00e1 na sess\u00e3o de 16:15, n\u00e3o \u00e9?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; Sim, por qu\u00ea?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8211; Porque o terceiro andar \u00e9 marcado por tempo, voc\u00ea precisa estar l\u00e1 a essa hora, mas n\u00e3o deixe de ir, a pra\u00e7a da l\u00edngua \u00e9 muito interessante. Por enquanto te deixo aqui no primeiro andar, que \u00e9 a nossa exposi\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria sobre Jorge Amado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A menina sorriu e um pouco se assustou. Sempre reconheceu a grandiosidade do escritor, seu renome internacional, a quantidade de homenagens que recebeu ao longo da vida, mas dai a vir para o sudeste brasileiro e dar de cara com uma exposi\u00e7\u00e3o s\u00f3 para o autor baiano era demais. O ano de 2012 marcaria o centen\u00e1rio de Jorge, caso ele estivesse vivo. O Museu da L\u00edngua Portuguesa resolveu celebrar a sua obra que ficar\u00e1 exposta ao longo do m\u00eas de junho, contemplando desde seus livros, a vers\u00f5es feitas para a televis\u00e3o e at\u00e9 para o cinema.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao entrar na galeria ela encheu os olhos de l\u00e1grimas de emo\u00e7\u00e3o. Com v\u00e1rias recepcionistas no ambiente, devidamente uniformizadas, vestindo a camisa &#8220;Jorge Amado \u00e9 Universal&#8221; (frase que d\u00e1 nome a exposi\u00e7\u00e3o), ela p\u00f4de observar enorme caixotes de feiras, daqueles de madeira que servem para carregar frutas, com os nomes das obras de Jorge Amado. Embora o sal\u00e3o estivesse lotado de crian\u00e7as entre 9 a 12 anos, o silencio era quase que absoluto. Pareciam estar maravilhados com a obra dele.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Desde pequena ouvia das coisas que Jorge tinha escrito. Eram romances como &#8220;Terras do Sem Fim&#8221;, que contava a hist\u00f3ria dos magnatas do cacau e da briga entre duas nobres fam\u00edlias da regi\u00e3o de Ilh\u00e9us a outras abordagens, como &#8220;Capit\u00e3es de Areia&#8221;, que trata dos meninos de rua. Sabia que por ser o seu centen\u00e1rio, Jorge seria homenageado em outros locais, como no Centro Hist\u00f3rico de Salvador e em Ilh\u00e9us, no m\u00eas de agosto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Andando devagar pelo sal\u00e3o, a menina que j\u00e1 n\u00e3o era mais menina, mas quase uma mulher, se atentou para os detalhes que compunham a sua obra. Desde objetos sagrados que integram o sincretismo religioso que h\u00e1 na Bahia e na sua obra, a fotos hist\u00f3ricas do escritor com poetas, m\u00fasicos e outros escritores. Viu uma foto de Jorge com Jards Macal\u00e9, jovem e lindo. Andou mais um pouco e achou outra dele com o poetinha Vinicius de Moraes, logo mais no fim foi surpreendida n\u00e3o s\u00f3 por imagens, mas tamb\u00e9m por uma carta que Dorival Caymmi mandou para ele, quando estava no exterior. Jorge e Dorival tinham uma amizade muito forte. Eram og\u00e3s do mesmo terreiro de candombl\u00e9, em Salvador e falavam de coisas muito parecidas em suas obras.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A menina mulher, que n\u00e3o era da pele preta, procurou saber quem eram os organizadores da exposi\u00e7\u00e3o. Parece que a organiza\u00e7\u00e3o que ficou por conta da Nacked &amp; Associados Mercado Cultural sob dire\u00e7\u00e3o geral de William Nacked tiveram a preocupa\u00e7\u00e3o de retratar de forma muito aut\u00eantica o que Jorge passava. Em meio a mais de duzentas garrafas de dend\u00ea com o nome de seus personagens, a prateleiras com as primeiras edi\u00e7\u00f5es de seus livros, a interatividade que o museu proporcionou nessa exposi\u00e7\u00e3o foi de um realismo fant\u00e1stico impressionante.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Apesar do senso comum que acha que museu \u00e9 lugar feito para guardar coisas velhas e que o p\u00fablico frequentador \u00e9 de um n\u00edvel social e cultural mais elevado, o Museu da L\u00edngua Portuguesa veio para quebrar um pouco desse estere\u00f3tipo. Nesse mesmo dia, tinha uma menina roqueira, com os cabelos todo cor de rosa e tamb\u00e9m tinha capoeirista que foi conferir a exposi\u00e7\u00e3o, sem contar as professoras, os monitores e as in\u00fameras crian\u00e7as que pareciam estar se encontrando com as mensagens de Jorge e a tecnologia aliada a ela.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao fim da tarde, maravilhada com o que viu na exposi\u00e7\u00e3o com olhos de menina, a mulher em que se transformara pensou que talvez a partir de agora seja a hora de romper a barreira da censura e de degustar o que Jorge tem a dizer. Talvez ela se encontre nas suas palavras e nas suas viv\u00eancias, talvez n\u00e3o. De qualquer forma, ela saiu de l\u00e1 entendendo um pouco mais do universo das palavras e do poder popular que Jorge Amado tem. Sorri para ela e me despedi, aquela menina que outrora tinha colocado o escritor um pouco de lado, decididamente tinha ficado para tr\u00e1s.<\/div>\n<p>&#8212;<br \/>\nNo <a href=\"http:\/\/orebucete.blogspot.com.br\/2012\/06\/amando-amado-amem.html#more\" target=\"_news\"><strong>O REBUCET\u00ca<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mariana Kaoos Era hora do recreio. Depois de tanto tempo fica dif\u00edcil imaginar a esta\u00e7\u00e3o do ano, mas fazia sol e os p\u00e1ssaros cantavam por entre as in\u00fameras \u00e1rvores daquele col\u00e9gio de freiras. A biblioteca era uma das melhores da cidade. 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