{"id":44061,"date":"2012-06-29T11:38:01","date_gmt":"2012-06-29T14:38:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=44061"},"modified":"2012-06-29T11:50:33","modified_gmt":"2012-06-29T14:50:33","slug":"historias-de-um-ilheense-chegada-a-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/06\/29\/historias-de-um-ilheense-chegada-a-sao-paulo\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIAS DE UM ILHEENSE \u2013 CHEGADA A S\u00c3O PAULO"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Tom\u00e9 Pacheco<\/strong><\/em><\/p>\n<div style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" title=\"Tom\u00e9 Pacheco\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Tom%C3%A9-Pacheco-300x225.jpg\" alt=\"Tom\u00e9 Pacheco\" width=\"300\" height=\"225\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Tom\u00e9 Pacheco<\/p><\/div>\n<p>Quando cheguei a S\u00e3o Paulo, como relatei no cap\u00edtulo 2, fui morar em Guarulhos, a\u00ed o Arnaldo, um amigo meu, conseguiu me encaixar na f\u00e1brica SKF de rolamentos que ficava na Via Dutra perto da f\u00e1brica Toddy do Brasil. Trabalhei dois anos nesta f\u00e1brica, e me lembro que retornei \u00e0 Bahia umas seis vezes nesse per\u00edodo. Era s\u00f3 bater a saudade que eu pegava a S\u00e3o Geraldo e me mandava. Gosto de recordar que certa vez eu estava em Ilh\u00e9us nos \u201cOs Velhos Marinheiros\u201d sentado em uma mesa na cal\u00e7ada a bebericar um guaran\u00e1 e a comer um caranguejo (nunca fui de bebida alco\u00f3lica e nunca fumei), quando comecei a olhar para o infinito do mar. Nesse dia a lua estava linda, e eu comecei a me questionar, a falar comigo mesmo: \u201cCara, quando \u00e9 que voc\u00ea vai sair desse chove e n\u00e3o molha? Resolva logo sua vida!\u201d. Em seguida baixei a cabe\u00e7a na mesa e passei uma meia hora chorando. Ao levant\u00e1-la falei pra mim mesmo: \u201cV\u00e1 e fique. V\u00e1 resolver sua vida\u201d<\/p>\n<p>Foi o que fiz. Fiquei 20 anos sem voltar a Ilh\u00e9us. Chegando a Guarulhos fiz inscri\u00e7\u00e3o no Col\u00e9gio Progresso para fazer o supletivo (O 1\u00ba grau em um ano e meio e com 2 anos terminei o 2\u00ba, completado em 1980). Em 1981 prestei vestibular para Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica nas Faculdades Integradas de Guarulhos, e me formei 1983. Nessa altura eu j\u00e1 trabalhava no Carandiru, em que fui promovido para ser diretor de \u201cEsporte e Recrea\u00e7\u00e3o\u201d. Abro um par\u00eantesis para dizer que estou contanto minhas hist\u00f3rias aos poucos, at\u00e9 chegar \u00e0s do Carandiru. Retrocedo tamb\u00e9m um pouco para dizer que saindo da SKF, fui trabalhar na Ford do Tabo\u00e3o em S\u00e3o Bernardo do Campo a\u00ed mesmo no Estado de S\u00e3o Paulo onde fique de 1974 a 1978, quando prestei concurso para Agente Penitenci\u00e1rio e fui aprovado.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A essa altura havia sa\u00eddo da casa do Arnaldo e ido morar na rep\u00fablica de Dona Albertina na Ponte Grande, bairro de Guarulhos, perto das antigas f\u00e1bricas da Olivetti e Philips, na via Dutra, arranjado por ele mesmo. A rep\u00fablica tinha 20 quartos que pareciam figurar o Brasil e seus estados, pois morava paulista, mineiro, baiano, pernambucano, carioca, maranhense etc. Era uma turma dif\u00edcil de ser encontrada em S\u00e3o Paulo. Na rep\u00fablica cada um fazia sua comida, lavava sua roupa etc. O chuveiro s\u00f3 caia \u00e1gua fria, e naquela \u00e9poca S\u00e3o Paulo fazia um frio de rebentar. Por isso eu passava de 3 a 4 dias sem tomar banho. S\u00f3 lavava o essencial. O primeiro macarr\u00e3o que cozinhei foi um desastre. Joguei dentro da \u00e1gua e deixei por um certo tempo, quando ferveu tive que jogar a panela fora, pois ficou pior que uma cola. Ent\u00e3o decidi pedir ajuda a Dona Albertina, a propriet\u00e1ria. Gra\u00e7as a ela, e ao que eu aprendi depois em Ilh\u00e9us, hoje em dia sou \u201cfera\u201d dentro de uma cozinha, Feijoada essa, mod\u00e9stia \u00e0 parte, fa\u00e7o como ningu\u00e9m. Na rep\u00fablica eu era t\u00e3o folgado que muitas vezes cheguei a cozinhar no quarto do conterr\u00e2neo Durval, gente muito boa.<\/p>\n<p>Nos dias de domingo eu jogava bola na Portuguesinha. Saia cedo e quando voltava para casa, ao apontar no corredor, s\u00f3 ouvia porta batendo e os gritos \u201cl\u00e1 vem Tom\u00e9\u201d. Os companheiros de rep\u00fablica fechavam as portas para eu n\u00e3o pedir comida. Mas n\u00e3o adiantava; eu pegava meu prato e come\u00e7ava pelo vitral: \u201cDurval, pelo amor de Deus, estou com fome. Me arruma um pouco de comida!\u201d. E ele gritava: \u201cVai comer bola, seu merda!\u201d. Eu retrucava: \u201cJ\u00e1 comi, mas a fome n\u00e3o passou. Fiz dois gols, inclusive um de bicicleta dedicado a voc\u00ea\u201d. Nessa altura, devido \u00e0 canseira que eu dava porque nunca foi de desistir, o prato j\u00e1 estava no vitral. O arroz garantido do Durval, eu ia ao Cear\u00e1:\u201cCear\u00e1, o Durval j\u00e1 me deu arroz, v\u00ea o que voc\u00ea pode fazer por mim\u201d. Os palavr\u00f5es comiam soltos, alguns eu n\u00e3o entendia bem porque eram da g\u00edria cearenses. Lembro de uma boa do Cear\u00e1 que ele dizia que gostava da Globo, porque ela vazia \u201cplim, plim\u201d. No final das contas eu conseguia o feij\u00e3o do Cear\u00e1. Da\u00ed eu ia a um carioca chamado Wilson. Era um cara maneiro, de fala mansa e sempre me dizia: \u201cTom\u00e9, s\u00f3 Jesus pode com voc\u00ea\u201d, e liberava o macarr\u00e3o. Com feij\u00e3o, arroz e macarr\u00e3o a mistura estava completa e ent\u00e3o tra\u00e7ava o prato que achava maravilhoso. Da turma de quartos, s\u00f3 n\u00e3o conseguia muito coisa era dos paulistas e mineiros. Eram desconfiados e m\u00e3os de vacas. Os mineiros, esses, ent\u00e3o&#8230;! Mas com o jeitinho de baiano, vez por outra conseguia alguma comidinha, s\u00f3 que se conseguisse num domingo, no outro podia tirar meu cavalinho da chuva que n\u00e3o ia arranjar nada.<\/p>\n<p>Em 1973 eu resolvi passar o carnaval em Salvador. Essa hist\u00f3ria eu pretendo contar no 5\u00ba cap\u00edtulo. As da Federa\u00e7\u00e3o Paulistas e as do Carandiru vir\u00e3o em seq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tom\u00e9 Pacheco Quando cheguei a S\u00e3o Paulo, como relatei no cap\u00edtulo 2, fui morar em Guarulhos, a\u00ed o Arnaldo, um amigo meu, conseguiu me encaixar na f\u00e1brica SKF de rolamentos que ficava na Via Dutra perto da f\u00e1brica Toddy do Brasil. 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