{"id":45803,"date":"2012-07-23T13:31:12","date_gmt":"2012-07-23T16:31:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=45803"},"modified":"2012-07-23T13:31:12","modified_gmt":"2012-07-23T16:31:12","slug":"luiz-castro-em-decolores-75","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/07\/23\/luiz-castro-em-decolores-75\/","title":{"rendered":"Luiz Castro em: DECOLORES"},"content":{"rendered":"<p><strong><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/luiz-castro.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"118\" \/>SAUDADES DE PIRANGY\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Boa parte da minha inf\u00e2ncia passei as festas natalinas em\u00a0 Pirangy. Normalmente viajava de trem da Estrada de Ferro de Ilh\u00e9us. O passeio era pitoresco, pois pass\u00e1vamos por lugares interessantes. Existiam v\u00e1rias esta\u00e7\u00f5es onde o trem\u00a0 parava para se abastecer de \u00e1gua e lenha, bem como \u00a0carregar e descarregar mercadorias. Nas esta\u00e7\u00f5es tinham um fluxo de passageiros bastante movimentado onde os vendedores vendiam frutas da regi\u00e3o, refresco e beijus. A viagem era um pouco longa, contudo era divertida. Ao chegar em \u00a0Pirangy o maquinista fazia\u00a0 soar \u00a0o apito do trem \u00a0anunciando a chegada. Ao desembarcar ia correndo para casa da minha av\u00f3 que j\u00e1 estava me esperando. Depois hospedava=se na casa do meu Tio Virg\u00edlio Castro que era dono do\u00a0 \u201cArmaz\u00e9m do Povo\u201d. Comerciante conceituado, \u00a0exercia grande influ\u00eancia pol\u00edtica. Ele gostava de criar aves e tinha um p\u00e1ssaro preto que era domesticado, cantava muito e chamava aten\u00e7\u00e3o dos transeuntes que passavam em frente ao armaz\u00e9m. Al\u00e9m de ser vasca\u00edno roxo, meu tio gostava de jogar sinuca, bebia uma caninha da boa e\u00a0 fumava um cigarrinho de palha que somente ele sabia fazer. Meu tio conversava pelos cotovelos e \u00a0por ser pol\u00edtico defendia seu partido, UDN, com unhas e dentes. Em sua resid\u00eancia o jantar era servido\u00a0 pontualmente \u00e0s 18:00 horas e em seguida dirigia-se para o passeio de sua resid\u00eancia para \u00a0prosear com os amigos que por ali passavam. A energia el\u00e9trica era desligada exatamente \u00e0s 22:00 horas, obrigando a popula\u00e7\u00e3o a se recolher mais cedo. Na \u00e9poca era comum utilizar \u00a0o candeeiro Aladim com velas,\u00a0 que \u00a0clareava bem.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Em certa ocasi\u00e3o, durante uma prosa no passeio de sua resid\u00eancia, meu tio contou uma hist\u00f3ria bastante interessante \u00e0 respeito\u00a0 de um carteiro que trabalhava nos correios da cidade,\u00a0 \u00a0cuja hist\u00f3ria esta publicada no livro \u201cCr\u00f4nica da Capitania\u201d do escritor Helio P\u00f3lvora. \u201cO carteiro era conhecido por Valdemar e o mesmo deslocava-se diariamente para a cidade de Itabuna para buscar o malote de correspond\u00eancias. Ao retornar costumava violar as correspond\u00eancias\u00a0 no intuito de inteirar-se de tudo em primeira m\u00e3o. E ao chegar na cidade o carteiro j\u00e1 sabia de tudo dos casos amorosos, situa\u00e7\u00f5es financeiras, intrigas familiares, not\u00edcias de desastres , morte e heran\u00e7a.\u00a0\u00a0 Da\u00ed \u00e9 que o carteiro ao aproximar-se do destinat\u00e1rio\u00a0 dizia-lhe sem pre\u00e2mbulos.<\/p>\n<p>&#8211; Meus p\u00easames.<\/p>\n<p>-O qu\u00ea?<\/p>\n<p>-Meus mais profundos e sentidos p\u00easames.<\/p>\n<p>-Mas por que, o que aconteceu?<\/p>\n<p>-Sua dign\u00edssima genitora acaba de falecer em Salvador.<\/p>\n<p>A voz do carteiro era lenta, expremia o maior pesar. E ato continuo a comunica\u00e7\u00e3o verbal, estendia o telegrama.<\/p>\n<p>Certo dia dirigiu-se a um coronel que estava sentado no bar quando foi abordado pelo mesmo.<\/p>\n<p>-Bom dia, coronel.<\/p>\n<p>-Bom dia, Valdemar. Como vai a vida?<\/p>\n<p>A vida, coronel, \u00e9 um suti\u00e3: meta os peitos.<\/p>\n<p>-R\u00e1, r\u00e1, r\u00e1&#8230; Esse Valdemar&#8230;<\/p>\n<p>-Coronel, o menino de Salvador est\u00e1 pedindo dinheiro.<\/p>\n<p>-O que, homem? Mas eu j\u00e1 mandei a mesada inteira.<\/p>\n<p>O carteiro curvava-se para o cochicho:<\/p>\n<p>-Com certeza gastou tudo no Tabaris.<\/p>\n<p>-Vai ver \u00e9 verdade: o moleque anda doido atr\u00e1s de mulher.<\/p>\n<p>-Teve a quem puxar coronel.<\/p>\n<p>=R\u00e1, r\u00e1, r\u00e1&#8230; Esse Valdemar tem cada uma. Deixe ver o telegrama.<\/p>\n<p>O coronel desdobrou a mensagem, \u00a0leu e enfureceu-se:<\/p>\n<p>-Filho ingrato. Moleque safado.<\/p>\n<p>-O que foi, coronel? O telegrama dele \u00e9 muito educado.<\/p>\n<p>-Qual educado qual nada! \u2013 bradava o coronel. \u2013 Isso l\u00e1 s\u00e3o maneiras de pedir!<\/p>\n<p>Tomou um gole de conhaque, engasgou-se:<\/p>\n<p>-Papai, mande mais dinheiro! \u2013 recitou, aos berros, o coronel, rubro de indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>-E como o senhor queria que ele escrevesse? \u2013 perguntou, solicito o carteiro Valdemar.<\/p>\n<p>-Ora essa, queria que ele dissesse aqui: \u201cPapai, mande mais dinheiro\u201d, recitou o coronel em voz branda.<\/p>\n<p>Em \u00a0outra ocasi\u00e3o Valdemar ao ler uma correspond\u00eancia\u00a0 levou a noticia de grande infort\u00fanio ao destinat\u00e1rio.<\/p>\n<p>-Tenho o supremo desgosto de comunicar-lhe que sua mulher fugiu &#8211; disse Valdemar, com a carta aberta na m\u00e3o.<\/p>\n<p>O destinat\u00e1rio ficou impass\u00edvel:<\/p>\n<p>-Foi mesmo?<\/p>\n<p>Cabe\u00e7a inclinada pensou um pouco e, em vez de arrancar os cabelos, cantou:<\/p>\n<p>-Liberdade, liberdade, abre as asas sobre mim!<\/p>\n<p>A partir desse dia infausto, Valdemar apressou o pedido se aposentadoria. \u00a0\u201c<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Colabora\u00e7\u00e3o de Luiz Castro<\/p>\n<p>Bacharel Administra\u00e7\u00e3o de Empresa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SAUDADES DE PIRANGY\u00a0 Boa parte da minha inf\u00e2ncia passei as festas natalinas em\u00a0 Pirangy. 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