{"id":45960,"date":"2012-07-25T13:00:12","date_gmt":"2012-07-25T16:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=45960"},"modified":"2012-07-25T13:00:12","modified_gmt":"2012-07-25T16:00:12","slug":"historias-de-um-ilheense_-no-presido-carandiru","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/07\/25\/historias-de-um-ilheense_-no-presido-carandiru\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIAS DE UM ILHEENSE_ NO PRES\u00cdDO CARANDIRU"},"content":{"rendered":"<p><strong>por Tom\u00e9 Pacheco<\/strong><\/p>\n<div style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Tom%C3%A9-Pacheco-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Tom\u00e9 Pacheco<\/p><\/div>\n<p>Volto a essas minhas Hist\u00f3rias de um Ilheense, agora j\u00e1 como Agente da Penitenci\u00e1ria do Carandiru. Pois \u00e9 isso. Trabalhei como havia anunciado em cap\u00edtulo anterior, na Ford de S\u00e3o Bernardo do Campo, indo at\u00e9 fevereiro de 1978, saindo de l\u00e1 em mar\u00e7o. Da\u00ed eu prestei concurso para Guarda de Pres\u00eddio e passei. Para poder trabalhar, eu tive que realizar cursos e instru\u00e7\u00f5es diversas, o que veio a acontecer no in\u00edcio de agosto de 1978.<\/p>\n<p>No primeiro dia que fui tomar posse, me deu vontade de urinar e no primeiro banheiro eu entrei. Quando estou l\u00e1 dentro no bem bom, entram dois detentos e um come\u00e7a a urinar um a minha esquerda, e o outro a minha direita. Minha urina ent\u00e3o come\u00e7ou a sair com dificuldade devido ao medo, e nesse momento um deles comentou pro outro: \u201cViu que cara folgado esse! Vem logo mijar em nosso banheiro!\u201d. Foi a\u00ed que a urina n\u00e3o saiu mais de jeito nenhum, o que me fez guardar o \u201cperu\u201d e me mandar. Sa\u00ed dali falando pra mim mesmo: \u201cEu vou me picar daqui e n\u00e3o volto mais\u201d.<\/p>\n<p>Eu era um cara que tinha medo e receio at\u00e9 de passar em frente a uma delegacia, a uma cadeia, mas quando Deus nos reserva alguma coisa em nossa vida, n\u00e3o tem como fugirmos. E tudo isso aconteceu no <strong>Pavilh\u00e3o 5<\/strong>, que era conhecido como o \u201cPavilh\u00e3o dos Cuz\u00f5es\u201d em raz\u00e3o de ser o local em que abrigava todo tipo de \u201ccagoetes\u201d, estupradores, travestis e presos que estavam amea\u00e7ados de morte.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Quando tomei posse fui escalado para o <strong>Pavilh\u00e3o 9<\/strong>, que era um pavilh\u00e3o de triagem, ou seja, quem chegasse no \u201ccambur\u00e3o\u201d, este pavilh\u00e3o, o 9, era o primeiro pavilh\u00e3o que o detento visitava. De l\u00e1 o cara era distribu\u00eddo de acordo com o delito cometido. Se j\u00e1 tivesse passagem por l\u00e1, pelo Carandiru, era encaminhado para o <strong>Pavilh\u00e3o 8<\/strong>, quem estava doente ia para o <strong>Pavilh\u00e3o 4<\/strong>; o que fosse designado para trabalhar ia para o <strong>Pavilh\u00e3o 7<\/strong>; o que era escolhido para fazer servi\u00e7os na cozinha era encaminhado para o <strong>Pavilh\u00e3o 2<\/strong>. Os <strong>Pavilh\u00f5es 5 e 6<\/strong> eram os do Setor Administrativo, e alguns detentos pediam para ir pra l\u00e1, porque eram pavilh\u00f5es seguros. Foi nestes pavilh\u00f5es onde ficava o <em>Luz Vermelha, o Chepa, o Man\u00edaco do Parque <\/em>entre outros famosos detentos. O <strong>Pavilh\u00e3o 4<\/strong> era o mais maneiro, que era onde funciona o hospital. Foi a\u00ed que trabalhou o Dr. Varella.<\/p>\n<p>No meu primeiro dia de posse ao terminar de receber as instru\u00e7\u00f5es do diretor Carabina, e dos colegas antigos, eu fui escaldo para o 3\u00ba andar, e como eu n\u00e3o sabia como chegar at\u00e9 l\u00e1, perguntei para o colega Jos\u00e9 de Souza: \u201cComo fa\u00e7o para chegar at\u00e9 o 3\u00ba andar?\u201d. Ele simplesmente respondeu: \u201cProcure as escadas que voc\u00ea chega l\u00e1\u201d. Eu com as m\u00e3os cheias de fichas para contagem dos detentos e um molho de mais ou menos 120 chaves, e outros tantos cadeados, olhei bem pra cara do colega, o medi de cima a baixo e clamei: \u201cDeus, o que estou fazendo neste lugar!\u201d.<\/p>\n<p>Uma das coisas que eu guardei como li\u00e7\u00e3o de vida e aprendizagem, foi quando na palestra do diretor Carabina, ele nos falou: \u201cOlhem, vejam bem para quem voc\u00eas v\u00e3o dar um sorriso, pois aqui n\u00e3o s\u00e3o todos que merecem\u201d. Da\u00ed em diante eu fui me acostumando e entrei na rotina: \u00e0s 7 da matina faz\u00edamos a contagem dos detentos de cada cela, e depois cada um funcion\u00e1rio tomava o seu rumo. Uns iam para os patronatos de trabalho, outros ficavam costurando bola, outros iam para o campo, cozinha, departamento administrativo, hospital, faxina etc. Sim, e alguns mexiam com contraven\u00e7\u00f5es como o fabrico da Maria Louca, uma cacha\u00e7a. Tirar a \u201cbronca\u201d com algum devedor, vender drogas, roupas, mat\u00e9rias de higiene pessoal etc., assaltar xadrez, jogar 21, ir para a igreja, eram outros afazeres, se se pode dizer assim, que os detentos tinham no dia a dia do pres\u00eddio; alguns quando n\u00e3o idealizavam nada iam disputar no \u201cestilete\u201d qual a zona que matava mais. Tinha a galera da Zona Norte contra a Zona Leste, Zona Sul x Zona Oeste e assim nessa disputa, no final matavam e morriam sem a maior cerim\u00f4nia. Quando acontecia esse conflito de detentos, n\u00f3s \u00edamos \u00e0 carceragem em busca de refor\u00e7os, e ao retorno a carnificina j\u00e1 estava pronta. E sem restar alternativa, o jeito era recolher os corpos e mand\u00e1-los para o IML (Instituto M\u00e9dico Legal). A barra era t\u00e3o pesada que, passado alguns minutos ap\u00f3s o termino do conflito entre as gangues de detentos, alguns inocentes, com medo de alguma repres\u00e1lia, se entregavam na carceragem portando estiletes sujos de sangue, se entregando como c\u00famplices, como r\u00e9us confessos.<\/p>\n<p>Como a gente sabia que eles n\u00e3o tinham nada a ver com aquilo, simplesmente estavam ali por medo de repres\u00e1lia, ent\u00e3o lev\u00e1vamos para um lugar reservado, oferec\u00edamos toda a prote\u00e7\u00e3o, inclusive a transfer\u00eancia de pavilh\u00e3o, para que eles falassem a verdade.<\/p>\n<p>Prossegue no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, minha vida no Carandiru.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Tom\u00e9 Pacheco Volto a essas minhas Hist\u00f3rias de um Ilheense, agora j\u00e1 como Agente da Penitenci\u00e1ria do Carandiru. Pois \u00e9 isso. 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