{"id":46730,"date":"2012-08-02T09:47:48","date_gmt":"2012-08-02T12:47:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=46730"},"modified":"2012-08-02T19:29:08","modified_gmt":"2012-08-02T22:29:08","slug":"a-romaria-da-lapa-na-historia-da-arte-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/08\/02\/a-romaria-da-lapa-na-historia-da-arte-popular\/","title":{"rendered":"A Romaria da Lapa na Hist\u00f3ria da Arte Popular"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Guilherme Albagli<\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">Podemos encontrar alguns pontos de converg\u00eancia entre a romaria da Lapa e a Hist\u00f3ria da Arte. Come\u00e7ando, pelo fundador da devo\u00e7\u00e3o, o artista portugu\u00eas Francisco Mendon\u00e7a Mar. Nos informa D. Tur\u00edbio Vilanuova que era filho de um ouriveis estabelecido na Baixa de Lisb\u00f4a, falido pela falta de ouro, num per\u00edodo de car\u00eancia deste metal que ali chegava do Brasil. Mudou-se o jovem \u00e0 Bahia, frequentando suas Mascaradas e Cavalhadas &#8211; festejos populares evitados pela elite local -. Pintor de sucesso, foi chamado pelo Governador para decorar o teto do seu pal\u00e1cio, ainda hoje de p\u00e9, na pra\u00e7a da S\u00e9, em Salvador. O artista pagou as tintas, pinc\u00e9is, os ajudantes e nada do dinheiro sair. Esperou muito, at\u00e9 escrever ao Rei pedindo provid\u00eancias. Chegando \u00e0 Bahia um documento pedindo verifica\u00e7\u00e3o do caso, o Governador trancafia o\u00a0pintor por oito ou nove anos na cadeia p\u00fablica. Ao sair, transtornado, imbu\u00eddo numa crise de misiticismo\u00a0certamente provocada pela depress\u00e3o, pergunta nas ruas onde estava o lugar mais distante da Bahia, onde poderia chegar. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><em>&#8220;V\u00e1 \u00e0 Vila da Cachoeira, suba a margem do Paragua\u00e7\u00fa at\u00e9 a sua nascente. Des\u00e7a o Paramirim e atingir\u00e1s o Opar\u00e1, o grande rio. Adiante da sua foz est\u00e1 a Itaberabuss\u00fa, &#8220;a grande pedra que brilha&#8221;, ao lado de um dos currais de Antonio Guedes de Brito, o Conde da Ponte. \u00c9 o lugar mais longe,\u00a0sert\u00e3o adentro, onde poder\u00e1s chegar&#8221;<\/em> &#8211; foi mais ou menos assim algu\u00e9m\u00a0deve t\u00ea-lo informado-.<\/span><br \/>\n<!--more--><br \/>\n<span style=\"font-size: medium;\">Caminhou semanas e meses e chegou \u00e0 grande pedra, h\u00e1 mais de tres s\u00e9culos. Encontrou ali algumas grutas e deve ter visto\u00a0os vest\u00edgios da sua ocupa\u00e7\u00e3o pelos \u00cdndios Acro\u00e1, nos periodos da cheias do rio. Escolheu uma das grutas como moradia, aquela voltada \u00e0 margem do rio, que a chamou &#8220;<em>da Soledade<\/em>&#8220;, onde instalou a imagem da sua santa padroeira que trouxera da Bahia. Dizem que ficou ali vivendo, tendo como vizinhas apenas uma jib\u00f3ia e uma on\u00e7a. Instalou, na banda norte da pedra, numa outra gruta, a imagem do Bom Jesus que ficou tendo o sobrenome &#8220;<em>da Lapa<\/em>&#8220;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">A cada ano aumentava o numero de visitantes ao local. Dizem ter sido ali uma parada obrigat\u00f3ria dos poucos viajantes que cruzavam o rio, indo \u00e0s bandas de Goi\u00e1s. Dizem que todos que adoeciam, nas redondezas, corriam a um hospital improvisado que o Francisco Mendon\u00e7a Mar instalara na esplanada\u00a0\u00e0 frente da Gruta do Bom Jesus. Quase todos os romeiros que\u00a0 iam ali agradecer supostos milagres, levavam ex-votos de madeira, cer\u00e2mica ou cera de abelha, depositados no interior da gruta. Nos anos setenta, a congrega\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m o santu\u00e1rio encomendou a uma equipe profissional uma apresenta\u00e7\u00e3o museog\u00e1fica deste material num dos rec\u00f4ndidos da Gruta da Soledade. \u00c9 uma grandiosa exibi\u00e7\u00e3o da mais pura arte espont\u00e2nea, popular, do sert\u00e3o brasileiro.\u00a0\u00c0 frente da entrada da gruta, est\u00e3o grandes esculturas modernistas fundidas em bronze, representando santos cat\u00f3licos, ali instaladas num dos v\u00e1rios per\u00edodos de remodela\u00e7\u00e3o do santu\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">Nas ruas, nos per\u00edodos de festa, entre Julho e Agosto, milhares de romeiros se acotovelam,\u00a0quase todos com chap\u00e9us de palha forrados com pano branco e uma faixa verde acima da aba. Alto-falantes a toda altura, numa polifonia de m\u00fasicas sacras e nordestinas, anuncios de restaurantes e hospedarias.\u00a0Todos com seus pertences bem seguros \u00e0 frente, pois s\u00e3o incont\u00e1veis os ladr\u00f5es ao meio de todos. Na delgacia,\u00a0presos, predominam\u00a0aqueles chegados de Ilh\u00e9us. No mercado, restaurantes populares que vendem churrasco de r\u00eas, assado no carv\u00e3o cheiroso de madeira da caatinga. Artes\u00e3os de toda esp\u00e9cie\u00a0acorrem \u00e0 lapa para venderem seus trabalhos de lata, de gesso, de madeira e camisetas estampadas a silk-screen. Os evng\u00e9licos, para n\u00e3o perderem o tom, armam circos e convidam Zez\u00e9 de Camargo e Luciano ou o Palha\u00e7o Bozo para apresenta\u00e7\u00e3o dos seus shows. \u00c9 imperd\u00edvel, a Festa da Lapa, mesmo para quem n\u00e3o professa a religi\u00e3o\u00a0cat\u00f3lica ou nenhuma outra.<\/span><\/p>\n<div>\n<div id=\":15w\" data-tooltip=\"Ocultar conte\u00fado expandido\"><img src=\"http:\/\/mail.globo.com\/mail\/images\/cleardot.gif\" alt=\"\" \/><\/div>\n<\/div>\n<p><span style=\"color: #888888;\"><\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\n<span style=\"font-size: medium;\">*Guilherme Albagli<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: medium;\">Departamento de Letras e Artes<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: medium;\">Universidade Estadual de Santa Cruz<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Guilherme Albagli Podemos encontrar alguns pontos de converg\u00eancia entre a romaria da Lapa e a Hist\u00f3ria da Arte. 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