{"id":47461,"date":"2012-08-10T10:00:55","date_gmt":"2012-08-10T13:00:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=47461"},"modified":"2012-08-10T10:00:55","modified_gmt":"2012-08-10T13:00:55","slug":"historia-de-um-ilheense-dentro-do-carandiru-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/08\/10\/historia-de-um-ilheense-dentro-do-carandiru-ii\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIA DE UM ILHEENSE \/ DENTRO DO CARANDIRU (II)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>NO PRES\u00cdDIO CARANDIRU II<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>por Tom\u00e9 Pacheco<\/strong><\/em><\/p>\n<div style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" title=\"Tom\u00e9 Pacheco\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Tom%C3%A9-Pacheco-300x225.jpg\" alt=\"Tom\u00e9 Pacheco\" width=\"300\" height=\"225\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Tom\u00e9 Pacheco<\/p><\/div>\n<p>Continuo ent\u00e3o com minha chegada ao Pres\u00eddio Carandiru. Os domingos eram dias de visitas. Por um lado era bom por outro n\u00e3o. O bom era porque o domingo passava r\u00e1pido; o ruim era porque o trabalho com revista aos visitantes, enfim com a seguran\u00e7a, redobrava. Tinha que ter aten\u00e7\u00e3o com tudo, com os visitantes e principalmente com os detentos.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, no ano de 1978 at\u00e9 o de 1980, n\u00e3o havia a concess\u00e3o para visita interna e, sobretudo de mulheres, ent\u00e3o os detentos vaziam de tudo para burlar a vigil\u00e2ncia dos agentes, at\u00e9 conseguirem.<\/p>\n<p>Lembro que no <strong>Pavilh\u00e3o 8<\/strong> os detentos colocavam mesas altas ou cavaletes com t\u00e1buas em cima, forravam-nas com grandes len\u00e7\u00f3is, que ficavam tipo \u201ccasinhas\u201d e colocavam camp\u00e2nulas. Na constru\u00e7\u00e3o desses artif\u00edcios ficava um olheiro sempre atento, para quando a barra estivesse \u201climpa\u201d, a mulherada cair dentro. E tinha mulheres que vinha da \u201czona\u201d para se prostituir nessas \u201ccasinhas\u201d que eram montadas no p\u00e1tio desde pavilh\u00e3o. O detento, portanto, era que comandava a vinda delas.\u00a0 Eu mesmo cansei de fazer vista grossa, fazendo de conta que n\u00e3o estava vendo nada. \u201cJ\u00e1 pensou o cara detido num local a mais de vinte anos sem ter uma mulher para se relacionar?\u201d, interrogava a mim mesmo. Pois \u00e9, se n\u00e3o fizesse vista grossa o sujeito iria entrar em desespero total. \u00c9, mas havia os que n\u00e3o gostavam de mulheres, mas eram poucos.<\/p>\n<p>Depois que as rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas foram liberadas, a cadeia ficou mais leve, diminuiu o n\u00famero de estupros, de roubo no xadrez, dos crimes etc.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Certo domingo, ao terminar a visita, iniciamos a \u201ctranca\u201d e logo em seguida a \u201ccontagem\u201d que consistia em fazer a pergunta ao detento do (nome do pai, da m\u00e3e e a data de nascimento), no que ele n\u00e3o podia gaguejar, se isso ocorresse, era encaminhado para a cela para uma melhor averigua\u00e7\u00e3o, e a\u00ed acontecia uma confer\u00eancia mais ami\u00fade, a chamada \u201cpente fino\u201d, pois era de costume o detento passar batido pela sa\u00edda do Pres\u00eddio e deixar algu\u00e9m em seu lugar.<\/p>\n<p>No p\u00e1tio da \u201cDivineia\u201d, geralmente ficavam os agentes mais antigos de olho, para verificar se no meio dos visitantes, algum detento estava se armando pra fugir. E n\u00e3o podia dar bobeira, porque se tracejasse, acontecia mesmo do cara se mandar.<\/p>\n<p>Os detentos eram muitos criativos, e faziam de tudo para burlar a nossa vigil\u00e2ncia. Foi assim que num domingo de 1980, eu ia subir at\u00e9 o 4\u00ba andar para fazer a contagem e tranc\u00e1-los, mas eles haviam quebrado todas as l\u00e2mpadas do meio da galeria, s\u00f3 deixando uma na entrada e uma no final, o que deixou praticamente tudo \u00e0s escuras. Ficou como um breu, mas deu para eu e os colegas fazermos a contagem aproveitando a luz que vinha de dentro do xadrez pelo guich\u00ea. Ao come\u00e7ar a tranc\u00e1-los e j\u00e1 estando no meio da galeria onde ficava o Xadrez 48, teve um detento conhecido pelo vulgo de Cear\u00e1, que se recusou a entrar. Ent\u00e3o eu falei: \u201cCear\u00e1, irei at\u00e9 o \u00faltimo xadrez, trancando, e na volta voc\u00ea vai para a tranca, ok?\u201d. Ele nada respondeu. Calado, permaneceu encostado na parede da porta de sua cela. Ent\u00e3o fui at\u00e9 o final da galeria, voltei e encontrado o Cear\u00e1 disse-lhe: \u201cCear\u00e1 agora \u00e9 sua vez. Vamos para a tranca\u201d. Ele ent\u00e3o sacou de um \u201cestilete\u201d e veio em minha dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tendo alternativa, joguei as fichas e os molhos de chaves para cima e corri. Ele correu atr\u00e1s de mim e o medo era tanto de ele me pegar, que se n\u00e3o me engano, sai pulando na base de uns dez degraus. Pois \u00e9 isso, o medo faz coisa que depois com calma a gente n\u00e3o acredita. Ao chegar ao p\u00e1tio os colegas aguardavam por mim, pois s\u00f3 depois de tudo pronto, com a contagem batida, certinha, independendo do dia, era que pod\u00edamos ir embora. Sim, chegando quase sem f\u00f4lego, fui gritando: \u201cPreparem a\u00ed que o Cear\u00e1 est\u00e1 descendo para me matar\u201d. Foi um corre-corre danado, com todos se armando. As correntes \u201cChico Doce\u201d n\u00e3o faltaram para a espera do Cear\u00e1. Foi ent\u00e3o que o nosso diretor Manoel, um senhor elegant\u00edssimo, experiente de muitos anos de <strong>Pavilh\u00e3o 8<\/strong>, entrou em cena e tentou acalmar o Cear\u00e1. E convenceu a entregar o \u201cestilete\u201d. Da\u00ed pra frente foi a nossa vez. S\u00f3 sei dizer que nada ficou inteiro na sala do chefe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NO PRES\u00cdDIO CARANDIRU II por Tom\u00e9 Pacheco Continuo ent\u00e3o com minha chegada ao Pres\u00eddio Carandiru. Os domingos eram dias de visitas. Por um lado era bom por outro n\u00e3o. O bom era porque o domingo passava r\u00e1pido; o ruim era porque o trabalho com revista aos visitantes, enfim com a seguran\u00e7a, redobrava. 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