{"id":47481,"date":"2012-08-10T12:02:21","date_gmt":"2012-08-10T15:02:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=47481"},"modified":"2012-08-10T12:02:21","modified_gmt":"2012-08-10T15:02:21","slug":"ditadura-vargas-incinerou-em-praca-publica-1-640-livros-de-jorge-amado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/08\/10\/ditadura-vargas-incinerou-em-praca-publica-1-640-livros-de-jorge-amado\/","title":{"rendered":"Ditadura Vargas incinerou em pra\u00e7a p\u00fablica 1.640 livros de Jorge Amado"},"content":{"rendered":"<div>\n<h3>Em novembro de 1937, militares baianos queimaram, a mando de Get\u00falio Vargas, centenas de livros de Jorge Amado onde hoje \u00e9 a Pra\u00e7a Cayru, na Avenida Contorno<\/h3>\n<p>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" id=\"fotoGrande\" title=\" \/ Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/tt_news\/pics\/amadointerna.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"160\" \/><\/div>\n<p><strong>Jorge Ramos* <\/strong><br \/>\n<strong>Especial para o CORREIO<\/strong><\/p>\n<p>Perplexas, centenas de pessoas se aglomeraram em frente \u00e0 Escola de Aprendizes de Marinheiros, em Salvador, no fim da tarde daquela sexta-feira &#8211; 19 de novembro de 1937 &#8211;\u00a0 para assistir a um espet\u00e1culo inusitado. Em frente ao que hoje \u00e9 a sede do Segundo Distrito Naval, na Avenida Contorno, uma grande fogueira de livros ardia,\u00a0 grossos rolos de fuma\u00e7a escureciam o c\u00e9u e um forte cheiro de papel queimado se espalhava pelas imedia\u00e7\u00f5es da parte baixa do Elevador Lacerda e atingia at\u00e9 mesmo a parte alta, a Pra\u00e7a Municipal, a Rua Chile e a Pra\u00e7a da S\u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o era um inc\u00eandio comum, mas a queima de 1.827 livros considerados \u201cpropagandistas do credo vermelho\u201d, como eram chamados pelos militares que, nos dias anteriores, tinham percorrido as livrarias da cidade e apreendido quantos exemplares encontraram. Entre os livros que viraram cinzas naquela t\u00f3rrida tarde primaveril em Salvador, 1.694 &#8211; mais de 90% &#8211; eram de autoria de um\u00a0 jovem\u00a0 jornalista e escritor baiano:\u00a0 Jorge Amado.<\/p>\n<p>Os militares baianos cumpriam ordens do interventor rec\u00e9m-nomeado para a Bahia, o coronel Ant\u00f4nio Fernandes Dantas, comandante da VI Regi\u00e3o Militar. O epis\u00f3dio gerou curiosamente uma ata, que foi publicada quase um m\u00eas depois da fogueira liter\u00e1ria pelo jornal Estado da Bahia, de propriedade dos Di\u00e1rios Associados, do magnata da imprensa Assis Chateubriand. O documento (veja reprodu\u00e7\u00e3o ao lado) serve para demonstrar o quanto havia de intoler\u00e2ncia e forte tens\u00e3o naqueles anos que antecederam a eclos\u00e3o da Segunda Guerra Mundial. Sob a lupa da repress\u00e3o estavam os ideais do jovem Jorge.<\/p>\n<p><strong>Oprimidos<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o com 25 anos, ele j\u00e1 conquistara notoriedade como autor de uma tem\u00e1tica fortemente social, de\u00a0\u00a0 romances considerados \u201cprolet\u00e1rios\u201d. Jorge Amado expunha as mazelas do capitalismo, a explora\u00e7\u00e3o do trabalho pelo capital e a luta de classes, dissecados em meio a uma saborosa prosa de fei\u00e7\u00e3o modernista, nas quais exaltava, ao mesmo tempo, a sensualidade do povo baiano, suas cren\u00e7as e tradi\u00e7\u00f5es, o folclore e a cultura popular.<\/p>\n<p>Jorge Amado come\u00e7ava a se destacar internacionalmente com a tradu\u00e7\u00e3o de seus livros, inicialmente para pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. E era, justamente por isso, um dos mais visados entre os intelectuais brasileiros.\u00a0 Esquerdista,<br \/>\nele j\u00e1 tinha sido preso no ano anterior pela pol\u00edcia pol\u00edtica de Get\u00falio Vargas, na repress\u00e3o que se seguiu \u00e0 Intentona Comunista, levante militar promovido pelo proscrito Partido Comunista Brasileiro (PCB) no Rio de Janeiro, antecedido por iguais sedi\u00e7\u00f5es em Natal e Recife, movimentos revoltosos duramente reprimidos.<\/p>\n<p><strong>Colegas<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m dos militantes comunistas, passaram a ser perseguidos na \u00e9poca muitos jornalistas e escritores, poetas e artistas engajados na oposi\u00e7\u00e3o a Get\u00falio Vargas, fossem ou n\u00e3o filiados ao\u00a0 PCB.\u00a0 Exemplo de Jos\u00e9 Lins do Rego, escritor paraibano que n\u00e3o era comunista, e at\u00e9 nutria simpatias pelo integralismo, mas teve v\u00e1rios de seus livros, como Menino de Engenho, arrastados para a fogueira.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Jorge Amado, foram presos naquele ano o l\u00edder do PCB, Luiz Carlos Prestes, e a mulher dele, Olga Ben\u00e1rio, o militar Agildo Barata, o jornalista Apar\u00edcio Torelly (o \u201cBar\u00e3o de Itarar\u00e9\u201d), o advogado Hermes Lima e o escritor Graciliano Ramos, que retratou magistralmente a saga que vivera no cl\u00e1ssico Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere, onde est\u00e1 uma frase lapidar, que simboliza o eterno conflito entre a liberdade intelectual e o poder discricion\u00e1rio: \u201cCome\u00e7amos oprimidos pela sintaxe e acabamos \u00e0s voltas com a Delegacia de Ordem Pol\u00edtica e Social\u201d.<\/p>\n<p><strong>Censura<\/strong><\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nA persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s obras de Jorge Amado n\u00e3o era novidade. Desde cedo ele sentiu a m\u00e3o pesada da censura. Cacau, lan\u00e7ado em 1933, esteve amea\u00e7ado de n\u00e3o ter a publica\u00e7\u00e3o autorizada pelo governo Vargas. Liberado gra\u00e7as a interven\u00e7\u00f5es de amigos, vendeu em um m\u00eas dois mil exemplares, fato que catapultou o autor para a fama. A sua fic\u00e7\u00e3o, tida como subversiva, lhe rendeu processos, a pris\u00e3o e, mais tarde, o ex\u00edlio.<\/p>\n<p>Estava preso quando da publica\u00e7\u00e3o de Mar Morto, em 1936. Novamente detido em 1937, poucos dias antes da instala\u00e7\u00e3o da ditadura do Estado Novo, foi na pris\u00e3o que soube da queima de seus livros\u00a0 em pra\u00e7a p\u00fablica, entre os quais o rec\u00e9m-lan\u00e7ado Capit\u00e3es da Areia, que retrata o submundo em que viviam os hoje chamados meninos de rua.<\/p>\n<p>Exatos nove dias antes da incinera\u00e7\u00e3o, o presidente Get\u00falio Vargas dera um golpe de Estado: fechou o Congresso Nacional, assembleias legislativas e c\u00e2maras municipais em todo o pa\u00eds. Extinguiu tamb\u00e9m todos os partidos pol\u00edticos, nomeou interventores para substituir os governadores eleitos, instituiu a censura \u00e0 imprensa e ordenou a pris\u00e3o de \u201celementos comunistas\u201d.<\/p>\n<p>Era a ditadura do Estado Novo, que outorgou uma nova Constitui\u00e7\u00e3o, de cunho marcadamente fascista, e p\u00f4s o Brasil em Estado de Guerra, com a supress\u00e3o de direitos civis e liberdades democr\u00e1ticas, perseguindo ferozmente quem professasse a ideologia comunista. Ou apenas simpatizasse e at\u00e9 mesmo tivesse publicado algo que pudesse ser entendido como de tend\u00eancia esquerdista. E foi assim que a literatura de Jorge virou fogueira em pra\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/tt_news\/Midia_Santana\/recorte_jornal013.jpg\" alt=\"\" width=\"540\" height=\"600\" \/><br \/>\n<img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/tt_news\/Midia_Santana\/recorte_jornal014.jpg\" alt=\"\" width=\"540\" height=\"547\" \/><\/p>\n<p><strong><em>Transcri\u00e7\u00e3o da ata ordenando a queima de livros em Salvador<\/em><\/strong><br \/>\n<em>Aos dezenove dias do m\u00eas de novembro de 1937, em frente \u00e0 Escola de Aprendizes Marinheiros, nesta cidade do Salvador e em presen\u00e7a dos senhores membros da comiss\u00e3o de buscas e apreens\u00f5es de livros, nomeada por of\u00edcio n\u00famero seis, da ent\u00e3o Comiss\u00e3o Executora do Estado de Guerra, composta dos senhores capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Lu\u00eds Liguori Teixeira, segundo-tenente intendente naval H\u00e9lcio Auler e Carlos Leal de S\u00e1 Pereira, da Pol\u00edcia do Estado, foram incinerados, por determina\u00e7\u00e3o verbal do sr. coronel Ant\u00f4nio Fernandes Dantas, comandante da Sexta Regi\u00e3o Militar, os livros apreendidos e julgados como simpatizantes do credo comunista (&#8230;)<br \/>\nTendo a referida ordem verbal sido transmitida a esta Comiss\u00e3o pelo sr. Capit\u00e3o de Corveta Garcia D&#8217;\u00c1vila Pires de Carvalho e Albuquerque e a incinera\u00e7\u00e3o sido assistida pelo referido oficial, assim se declara para os devidos fins.<\/p>\n<p>Os livros incinerados foram apreendidos nas livrarias Editora Baiana, Catilina e Souza e se achavam em perfeito estado.<\/p>\n<p>Por nada mais haver, lavra-se o presente termo, que vai por todos os membros da Comiss\u00e3o assinado, e, por mim segundo tenente intendente naval H\u00e9lcio Auler, que, servindo de escriv\u00e3o, datilografei. (assinados)<\/p>\n<p>Lu\u00eds Liguori Teixeira, Cap. Presidente<br \/>\nH\u00e9lcio Auler, Segundo-Tenente Int. N.<br \/>\nCarlos Leal de Souza Pereira<\/p>\n<p>Transcrito do jornal Estado da Bahia, de 17-12-37<\/em><em><\/p>\n<p><\/em><strong><img loading=\"lazy\" title=\"Arquivo da Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/tt_news\/Midia_Santana\/jorgeamado1946.jpg\" alt=\"\" width=\"540\" height=\"480\" \/><br \/>\nBaiano discursa em com\u00edcio; como deputado, conseguiu instituir liberdade para os cultos religiosos<\/strong><em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/tt_news\/Midia_Santana\/jorgeamado1946_2.jpg\" alt=\"\" width=\"540\" height=\"600\" \/><\/p>\n<p>*Jorge Ramos \u00e9 jornalista e escritor<\/em><\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p><strong>CORREIO DA BAHIA<\/strong><\/p>\n<p>http:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticias\/detalhes\/detalhes-1\/artigo\/ditadura-vargas-incinerou-em-praca-publica-1640-livros-de-jorge-amado\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em novembro de 1937, militares baianos queimaram, a mando de Get\u00falio Vargas, centenas de livros de Jorge Amado onde hoje \u00e9 a Pra\u00e7a Cayru, na Avenida Contorno Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Jorge Ramos* Especial para o CORREIO Perplexas, centenas de pessoas se aglomeraram em frente \u00e0 Escola de Aprendizes de Marinheiros, em Salvador, no fim da tarde [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47481"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47481"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47481\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":47484,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47481\/revisions\/47484"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47481"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47481"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47481"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}