{"id":47540,"date":"2012-08-10T17:28:09","date_gmt":"2012-08-10T20:28:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=47540"},"modified":"2012-08-10T17:28:09","modified_gmt":"2012-08-10T20:28:09","slug":"o-amigo-jorge-amado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/08\/10\/o-amigo-jorge-amado\/","title":{"rendered":"O Amigo Jorge Amado"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por \u00a0<\/strong><strong>Cyro de Mattos<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_47541\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/CYRO-DE-MATTOS-PERSONALIZADO1_56.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-47541\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-47541\" title=\"CYRO-DE-MATTOS-PERSONALIZADO1_56\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/CYRO-DE-MATTOS-PERSONALIZADO1_56.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"269\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-47541\" class=\"wp-caption-text\">Cyro de Mattos<\/p><\/div>\n<p>Conheci Jorge Amado nos idos de l959, em tarde de\u00a0 aut\u00f3grafos, na\u00a0 antiga Livraria Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, da rua Chile, Salvador. Na fila enorme dos que aguardavam a sua vez para receberem o aut\u00f3grafo, eu, mo\u00e7o do interior, estudante da Faculdade de Direito. Estava nervoso. Vivia a expectativa de ver de perto o consagrado romancista baiano pela primeira vez. Quando chegou o momento de receber o\u00a0 aut\u00f3grafo de Jorge, aproximei-me com o exemplar de <em>Gabriela cravo e canela<\/em>. E, timidamente, disse-lhe\u00a0 que\u00a0 era \u00a0grapi\u00fana,\u00a0 como ele vinha das terras ricas do cacau no sul da Bahia. No mesmo instante da revela\u00e7\u00e3o do lugar de nascimento,\u00a0 fez-se num\u00a0 rosto largo e manso o sorriso alegre de quem acabava de ouvir algo que lhe tocava o cora\u00e7\u00e3o. Com que prazer o autor de\u00a0 <em>Gabriela cravo e canela<\/em>\u00a0 assinalou no livro ser\u00a0 tamb\u00e9m grapi\u00fana, das terras de Itabuna, das ricas planta\u00e7\u00f5es de cacau, do territ\u00f3rio onde uma saga havia sido forjada por homens r\u00fasticos\u00a0 com suor, cobi\u00e7a e morte.\u00a0 Fazia assim com que eu sorrisse um\u00a0 belo sorriso e amasse ainda mais as minhas ra\u00edzes grapi\u00fanas.<\/p>\n<p>Seguia no rio da vida\u00a0 e, em 1966, j\u00e1 no Rio de Janeiro,\u00a0 publicava meu primeiro livro,\u00a0 pequeno volume de contos, hoje riscado de minha\u00a0 produ\u00e7\u00e3o por ter envelhecido\u00a0 o texto r\u00e1pido. Enviei o pequeno volume a Jorge Amado, seguindo conselho de um companheiro de gera\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o esperando que viesse alguma opini\u00e3o do autor de <em>Terras do sem fim<\/em> sobre o meu livro de estreia. Qual n\u00e3o foi a minha grata surpresa depois, por ver em curto espa\u00e7o de tempo um livro de autor desconhecido\u00a0 ser apresentado \u00e0\u00a0 Academia Brasileira de Letras com palavras favor\u00e1veis do admir\u00e1vel romancista Jorge Amado.<\/p>\n<p>Outros livros meus vieram e foram merecedores de artigos com elogio por parte\u00a0 de Jorge Amado. N\u00e3o deixavam de ser opini\u00f5es sob a \u00f3tica impressionista,\u00a0 mas\u00a0 espont\u00e2neas,\u00a0 o que interessava. Verdadeiras, simples e profundas, abonadas com a\u00a0 sensibilidade de quem mais\u00a0 conhece os caminhos do fazer liter\u00e1rio na recria\u00e7\u00e3o da vida. E mais: ele\u00a0 publicava os artigos que escrevia sobre aqueles livros em jornais importantes como <strong>A Tarde, Jornal de Letras<\/strong> (Rio), do saudoso Elysio Cond\u00e9, <strong>Jornal do Com\u00e9rci<\/strong>o (Rio) e <strong>Suplemento Liter\u00e1rio de Minas Gerais.<\/strong><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Tais gestos do criador de <em>Quincas Berro D\u00e1gua<\/em> aconteceram tamb\u00e9m com outros escritores, alguns\u00a0 emergentes, outros com obra em andamento ou consagrados, baianos ou n\u00e3o. O romancista Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro sabe do que falo\u00a0 agora.\u00a0 Ele nunca atropelava, sempre enriquecia o companheiro de letras com suas opini\u00f5es, sem esperar nada em troca. Nada tomava na guerra neur\u00f3tica, muitas vezes diab\u00f3lica, que \u00e9 a da literatura, infelizmente. Pref\u00e1cios, orelhas, artigos, depoimentos, apresenta\u00e7\u00f5es \u00e0 Academia Brasileira de Letras, um legado liter\u00e1rio da melhor qualidade est\u00e1 a\u00ed espalhado no corpo da Literatura Brasileira com o abono do escritor t\u00e3o lido e traduzido em l\u00edngua portuguesa sobre livros de nossos autores. Textos que,\u00a0 se forem coligidos,\u00a0 dariam\u00a0\u00a0 valiosos livros como uma importante contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura brasileira..<\/p>\n<p>Ao escrever sobre um dos meus livros destinados \u00e0s crian\u00e7as, artigo que foi publicado em forma de missiva dirigida ao romancista Josu\u00e9 Montelo, ent\u00e3o presidente da Academia Brasileira de Letras, Jorge Amado chegou ao ponto de\u00a0 lembrar meu nome para fazer parte daquela t\u00e3o importante institui\u00e7\u00e3o cultural. Houve exagero. S\u00f3 mesmo Jorge, com o seu cora\u00e7\u00e3o de mel de cacau,\u00a0 alma com\u00a0 ardor e verdor\u00a0 de marinheiro baiano, onde habitava um sol com sua flor gigantesca,\u00a0 podia distinguir meu nome de maneira t\u00e3o\u00a0 generosa, que comovia e servia como incentivo\u00a0 para que eu continuasse em minha jornada de ser escritor.<\/p>\n<p>Exercia a amizade como uma coisa nata, t\u00e3o dele. E nos mostrava sempre com os\u00a0 gestos fraternos para o deleite doce e meigo dos dias\u00a0 que com m\u00e3os nas m\u00e3os tudo fica mais claro. Com ele n\u00e3o entravam\u00a0 no exerc\u00edcio da vida a intriga, a inveja e o despeito. Dava-me conta por isso que existia\u00a0 ainda\u00a0 o homem simples como o artista, embora fosse comum encontrar na vida\u00a0\u00a0 o artista vaidoso como o homem.<\/p>\n<p>Dizia-se ateu, ele que era t\u00e3o crist\u00e3o porque terno, solid\u00e1rio, sincero: human\u00edssimo. E o contador de hist\u00f3rias? Perguntou-me algu\u00e9m certa vez. Disse-lhe: voc\u00ea sabe mais do que eu. Fascinante, m\u00e1gico, dram\u00e1tico, l\u00edrico. Muitas vezes solid\u00e1rio, dando dignidade aos exclu\u00eddos, seduzindo da primeira \u00e0 \u00faltima p\u00e1gina atrav\u00e9s da\u00a0 escrita sensual.<\/p>\n<p>Que coisa muito triste, a vida f\u00edsica de Jorge ter acabado. Tanta coisa, tanto caso, tanta verdade deixou\u00a0 para o leitor espantar para longe o tempo ruim. Esse que nasceu numa pequena fazenda em Ferradas, que foi distrito e hoje \u00e9\u00a0 bairro do munic\u00edpio de Itabuna, passou a inf\u00e2ncia e juventude em Ilh\u00e9us para ser um bem-amado cidad\u00e3o do mundo, em inacredit\u00e1vel perip\u00e9cia\u00a0 porque assim devia ser.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Cyro de Mattos \u00e9 autor premiado no Brasil e exterior. Acesse www.cyrodemattos.com.br<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por \u00a0Cyro de Mattos Conheci Jorge Amado nos idos de l959, em tarde de\u00a0 aut\u00f3grafos, na\u00a0 antiga Livraria Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, da rua Chile, Salvador. Na fila enorme dos que aguardavam a sua vez para receberem o aut\u00f3grafo, eu, mo\u00e7o do interior, estudante da Faculdade de Direito. Estava nervoso. 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