{"id":48120,"date":"2012-08-19T20:20:32","date_gmt":"2012-08-19T23:20:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=48120"},"modified":"2012-08-19T20:47:02","modified_gmt":"2012-08-19T23:47:02","slug":"marli-goncalves-em-nem-toda-a-nudez-sera-castigada-por-marli-goncalves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/08\/19\/marli-goncalves-em-nem-toda-a-nudez-sera-castigada-por-marli-goncalves\/","title":{"rendered":"Marli Gon\u00e7alves em: Nem toda a nudez ser\u00e1 castigada."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><em>Pronto, agora melou. Virou moda. Vira e mexe agora, em todo o mundo, algu\u00e9m arria as cal\u00e7as, levanta a blusa, mostra os peitos, p\u00f5e a pr\u00f3pria na janela. N\u00e3o \u00e9 uma nova forma de protesto, mas est\u00e1 sendo atualizada, com mulheres lindas e loiras que se jogam no ch\u00e3o e esperneiam quando a pol\u00edcia chega e as arrasta, gerando invari\u00e1veis fotos para manchetes<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/lh6.ggpht.com\/_PQy7A06gDto\/TMszWPVuHuI\/AAAAAAAAt3M\/va7UPbq3dc8\/marli%20gon%C3%A7alves%20nova.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"129\" \/>Os protestos ficaram mais bonitos em todo o mundo. O problema vai ser quando banalizar a forma, ou formato, o que aqui no Brasil acontece muito mais r\u00e1pido do que em qualquer outro lugar. N\u00e3o faz um m\u00eas apareceu uma ativista em verde e amarelo, a Sara Winter, como ela pr\u00f3pria se batizou. Apareceu, viajou para a Ucr\u00e2nia e foi aceita &#8211; \u00e9, isso mesmo, tem de passar por uma esp\u00e9cie de vestibular com prova oral e prova pr\u00e1tica, de capacidade de aguentar o tranco &#8211; no mais novo grupo feminista da pra\u00e7a internacional, o <strong>F\u00eamen<\/strong>. Aquele, das mo\u00e7as bonitas, guirlanda de flores nos cabelos, seios fartos e pele alva pintada com os dizeres dos protestos, grupo que foi aparecendo aqui, ali, e daqui a pouco vai abrir franquias em todo o planeta. Logo no primeiro protesto l\u00e1 fora, Sara foi parar na cadeia, gritando que era estrangeira, e brasileira. Nem sei como n\u00e3o levou umas bolachas a mais justamente por isso.<\/p>\n<p>Aqui, Sara foi imediatamente paparicada pela imprensa, como uma ET que desce \u00e0 Terra. Parecia que finalmente nascia uma hero\u00edna, um prot\u00f3tipo de Macuna\u00edma. Mas como protesto n\u00e3o \u00e9 coisa de se fazer sozinha sempre, Sara j\u00e1 andava arregimentando novas <em>&#8220;membras&#8221;<\/em> para a organiza\u00e7\u00e3o feminista, que proclama um feminismo diferente. E come\u00e7ou a test\u00e1-las, tamb\u00e9m nas ruas. Apareceram na Avenida Paulista contra proibi\u00e7\u00e3o de partos em casa. Apareceram contra a opress\u00e3o. E, pelo que parece, podem aparecer a qualquer momento contra qualquer coisa que n\u00e3o precise exatamente explicar muito. \u00d3timo.<\/p>\n<p>Tudo ia indo muito bem at\u00e9 que essa semana a pol\u00edcia resolveu cat\u00e1-las, depois que ela e outras abnegadas em teste foram parar na frente do Consulado russo em S\u00e3o Paulo, pedindo a liberta\u00e7\u00e3o, l\u00e1 na R\u00fassia, das tr\u00eas integrantes do <em>Pussy Riot<\/em>, banda encarcerada (que pegou dois anos de pena) porque andou, digamos, falando da m\u00e3e do presidente Putin. E dentro de uma igreja.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nPareceu um solu\u00e7o. Do dia para a noite nossa hero\u00edna foi revelada de outra forma: teria pensamentos de extrema-direita, fascistas, e uma de suas tatuagens, a cruz de ferro, seria s\u00edmbolo nazista. Descobriram tamb\u00e9m que ela criticou, <em>deu um pau<\/em> na Marcha das Vadias o ano passado &#8211; justamente tamb\u00e9m uma forma de usar a nudez para protestar pelo respeito pela mulher. Percebi um tom de muxoxo at\u00e9 quando contam que ela \u00e9 do interior paulista, de S\u00e3o Carlos. Enfim, Sara agora samba para se explicar. J\u00e1 assumiu ter sido prostituta e falou algo bem s\u00e9rio, mas para o qual j\u00e1 n\u00e3o vi ningu\u00e9m dar real aten\u00e7\u00e3o: teria sido ela pr\u00f3pria v\u00edtima de viol\u00eancia por parte do ex-marido.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed j\u00e1 se precisaria falar s\u00e9rio e sabe como \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Foi uma das ascens\u00f5es e quedas mais r\u00e1pidas que vi. A cara do nosso pa\u00eds. Uma terra de vestais, moralistas, puros, t\u00edmidos, religiosos, pudicos, corpos cobertos. Onde a nudez est\u00e1 para onde se olha, mas s\u00f3 \u00e9 vista como natural em dias de Carnaval &#8211; e nem isso mais, ultimamente, com a massifica\u00e7\u00e3o dos desfiles e oculta\u00e7\u00e3o das genit\u00e1lias. Um pa\u00eds onde o naturismo ainda n\u00e3o \u00e9 bem aceito, e nem legalizadas as regi\u00f5es onde pode ser praticado. Onde se escandaliza com pouco e fecha-se os olhos para o horror e a barb\u00e1rie. Onde mo\u00e7as de mini-saia ( ou <em>abajures<\/em>, como cham\u00e1vamos) hoje sorriem e d\u00e3o entrevista, felizes em serem chamadas de periguetes, porque tem uma na novela em cartaz, sentindo-se as maiores inovadoras da par\u00f3quia dan\u00e7ando o funk ch\u00e3o-ch\u00e3o-ch\u00e3o. Tem at\u00e9 concurso para ver quem \u00e9 a mais periguete, se \u00e9 que isso pode um dia dizer algo. A verdade \u00e9 que mudam o nome das coisas e o pa\u00eds vai ficando mais e mais careta.<\/p>\n<p>Lembro de h\u00e1 alguns anos ter ficado impressionada com a pequena quantidade de pessoas dispostas a participar que apareceram no Parque Ibirapuera, para o ensaio do fot\u00f3grafo americano Spencer Tunick, especialista em fazer arte com corpos naturais em pelo. S\u00f3 apareceram no m\u00e1ximo umas mil e quinhentas. Recordo que fiquei pasma ainda quando, em seguida, Tunick foi, acho que para o Chile, onde com temperaturas abaixo de zero reuniu mais de tr\u00eas mil pessoas.<\/p>\n<p>Hoje, anos depois, penso que seria at\u00e9 menor o n\u00famero que toparia. Estamos ficando muito chatos e perigosamente carolas.<\/p>\n<p>Me preocupo muito com essas coisas porque essa quest\u00e3o envolve v\u00e1rios temas que me s\u00e3o caros e que est\u00e3o sendo totalmente folclorizados, como o pr\u00f3prio naturismo, o terr\u00edvel uso e manipula\u00e7\u00e3o religiosa, a nudez como forma de protesto e , tamb\u00e9m, como o feminismo, pelo qual tanto nos esfalfamos para o reconhecimento. Vange Leonel, cantora, escritora e ativista gay, fez uma proposta no Twitter que achei interessante: que se pense em instituir o ensino da luta feminista nas escolas.<\/p>\n<p>Como aqui at\u00e9 o passado \u00e9 incerto&#8230; Seria bom, antes que como algu\u00e9m tamb\u00e9m j\u00e1 disse, como tudo no Brasil, o tema seja esculachado. Vire piada.<\/p>\n<p><center><span style=\"font-size: xx-small;\"><em><strong> S\u00e3o Paulo, como eram gostosos os meus brasileiros, 2012<\/strong><\/em><\/span><\/center><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Marli Gon\u00e7alves<\/span> \u00e9 jornalista<\/strong>&#8211; <strong> Gostei dos bombeiros espanh\u00f3is que arriaram as cal\u00e7as e mostraram as <em>derri\u00e8res<\/em> para protestar contra as medidas econ\u00f4micas de austeridade. Por aqui logo pode aparecer a vers\u00e3o masculina do <\/strong><strong>F\u00eamen<\/strong>: o Movimento <em><strong>S\u00eamen<\/strong><\/em>, com os homens protestando por serem usados como objetos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pronto, agora melou. Virou moda. Vira e mexe agora, em todo o mundo, algu\u00e9m arria as cal\u00e7as, levanta a blusa, mostra os peitos, p\u00f5e a pr\u00f3pria na janela. 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