{"id":49701,"date":"2012-09-12T14:29:15","date_gmt":"2012-09-12T17:29:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=49701"},"modified":"2012-09-12T14:29:15","modified_gmt":"2012-09-12T17:29:15","slug":"historias-de-um-ilheense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/09\/12\/historias-de-um-ilheense\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIAS DE UM ILHEENSE"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Tom\u00e9 Pacheco<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>NO PRES\u00cdDIO CARANDIRU (III)<\/strong><\/p>\n<div style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Tom%C3%A9-Pacheco-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Tom\u00e9 Pacheco<\/p><\/div>\n<p>Continuando com minhas Hist\u00f3rias de um Ilheense dentro do Pres\u00eddio Carandiru inicio relatando o linguajar que os detentos tinham e que deu para gravar alguns como: Chico Doce(peda\u00e7o de pau), Maria Louca (cacha\u00e7a feita de arroz), Jega (cama), Boi (privada no ch\u00e3o), Gerer\u00ea (cigarro de maconha), Beca (roupa boa), Pizante (sapato), Gamb\u00ea (pol\u00edcia), Cana (policia civil), Couro Come (confus\u00e3o), Cuz\u00e3o (medroso), Cortado (comida melhor), Corror (xadrez), Vacil\u00e3o (caguete), Primicia (careta), Cabe\u00e7\u00e3o (dono de coca), Correr Frouxo (liberado), N\u00e3o Se Bula (n\u00e3o se mexa), Tem Brasa A\u00ed? (acender cigarro), Divin\u00e9ia (p\u00e1tio de pavilh\u00e3o), Jumbo (compras levadas pelas visitas), Sangue Puro (pessoa boa), Truta (pessoa amiga), Fazer Uma Goma (roubar), Requisitar (vamos conversar), Marcar Touca (vacilou, dormiu no ponto), Boleiro (costurador de bola), Arrombado (n\u00e3o presta, n\u00e3o vale nada), Marica (que cuidava do xadrez) etc.<\/p>\n<p>O <strong>Pavilh\u00e3o 5<\/strong> era o famoso pavilh\u00e3o dos \u201ccuz\u00f5es\u201d, ou seja dos medrosos. Era onde abrigava os detentos marcados para morrer. Era onde ficava o Man\u00edaco do Parque, estupradores e at\u00e9 os \u201ctravecos\u201d, mas estes ficavam no por\u00e3o. Certa vez um colega chegou \u201cmamad\u00e3o\u201d, colocou um caixote na porta da cela para poder ficar na altura do guich\u00ea e j\u00e1 viu, deixou o \u201ctraveco\u201d trabalhar certinho&#8230;<\/p>\n<p>No 5\u00ba andar tinha uma ala de nome \u201cAmarel\u00e3o\u201d, onde os detentos s\u00f3 saiam com escolta, e para tomar sol. Eles sentavam nas janelas e tomavam sol s\u00f3 nas pernas e nos bra\u00e7os. Quem passasse pelo metr\u00f4 da Esta\u00e7\u00e3o Carandiru dava para v\u00ea-los pendurados.<\/p>\n<p>Tinha v\u00e1rias maneiras de entrar drogas na cadeia. Uma vez foi no buj\u00e3o de g\u00e1s. Um cara havia cortado um buj\u00e3o de g\u00e1s, colocado a droga e soldado. Para entrar no pres\u00eddio, foi s\u00f3 corromper um colega com uma boa grana. O funcion\u00e1rio foi at\u00e9 um bar que ficava em frente ao pres\u00eddio, pegou o buj\u00e3o e tentou entrar. Como houve \u201ccagoetagem\u201d, o agente perdeu o emprego e ainda entrou em cana.<\/p>\n<p>J\u00e1 vi tamb\u00e9m alguns agentes entrarem com a droga dentro de t\u00eanis. Tiravam a sola, cavavam bastante e, \u2018tome-lhe droga\u2019.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Um dos detentos famosos que conheci, foi o \u201cLuz Vermelha\u201d. Como j\u00e1 estava preso havia mais de 28 anos, n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o de mais nada. Houve ocasi\u00e3o em que mais ou menos \u00e0s 2 da madruga ele come\u00e7ava a bater prato na porta da cela para chamar a aten\u00e7\u00e3o dos colegas, e gritava: \u201cSocorro, a minha cela est\u00e1 cheia de cobras e de ratos!\u201d. Era levado para o Jiqueri em Franco da Rocha. No processo da medi\u00e7\u00e3o aplicava-lhe a famosa inje\u00e7\u00e3o \u201cSossega Le\u00e3o\u201d, ent\u00e3o ele voltava calminho da silva. Outra alucina\u00e7\u00e3o dele era andar pelos corredores e quadras do Carandiru catando bituca (ponta de cigarro) no ch\u00e3o, e pedir caf\u00e9 frio onde encontrasse para tomar.<\/p>\n<p>Outro famoso detento foi \u201cChico Picadinho\u201d. Um dos seus crimes foi esquartejar uma prostituta e colocar os peda\u00e7os do corpo na privada. Como deu descarga e nada desceu, ele pegou os peda\u00e7os e colocou num saco de lixo para os garis levarem. Como do saco pingava sangue, os garis acharam estranho e denunciaram a pol\u00edcia. Ficou certo tempo preso e foi solto. Em liberdade cometeu crime semelhante. Da\u00ed o a alcunha de \u201cChico Picadinho\u201d. Desde o \u00faltimo crime fazia 30 anos que estava preso.<\/p>\n<p>\u201cBezerra\u201d nos anos 60 foi o terror das madames nos bairros chiques de S\u00e3o Paulo como Morumbi e outros. Ele penetrava nas mans\u00f5es e, al\u00e9m de roubar, estuprava as madames. J\u00e1 tava tamb\u00e9m com mais de 25 anos de cadeia. Com o corpo todo marcado de queimadura de charuto e cheio de ferro enfiado no corpo, que eram os castigos recebidos no pres\u00eddio, o cara foi mudando o comportamento e virou \u201cmeninona\u201d l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>O pior pavilh\u00e3o em termos de malandragem, dos \u201cmacacos velhos\u201d (os mais espertos e calejados) era o <strong>Pavilh\u00e3o 8<\/strong>. S\u00f3 tinha \u201ccobra criada\u201d. S\u00f3 iam pra l\u00e1 os detentos que tinham mais de duas passagens pelo Carandiru, ou seja, era o pavilh\u00e3o de reincidentes no crime. A guerra entre a malandragem e os policiais que ficavam numa muralha prestando servi\u00e7o era constante.\u00a0 Altas horas da noite os detentos ficavam mexendo com os PMs, e xingavam de tudo quanto era nomes feio. Um desses detentos, o Gamb\u00e9s, atrevido que s\u00f3 ele, num desses atritos com os policiais, disse: \u201c\u00d3, tropa de cornos, voc\u00eas est\u00e3o a\u00ed curtindo frio, e a mulher de voc\u00eas est\u00e3o em uma caminha quente com os \u2018Ricard\u00f5es\u2019 delas\u201d. Pense, caro leitor, \u00e0s 3 horas da manh\u00e3, um tremendo frio, os policiais s\u00f3 com os olhos de fora do agasalho e os vagabundos esculhambando! Como ningu\u00e9m era de ferro, ent\u00e3o o couro comia: Os policiais metiam balas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 malandragem. Duvido que os que ficavam tirando servi\u00e7o na muralha n\u00e3o eram bons elementos. Acontece que, com uma tropa de sacanas os aborrecendo e os humilhando, ningu\u00e9m tinha paci\u00eancia, pois n\u00e3o tinham sangue de barata.<\/p>\n<p>De vez em quando, o bando, todos bem armadas de pau, estiletes, chegava na \u201cgaiola\u201d, que ficava fechada com cadeados e rendia o agente. A patota chegava com ar amea\u00e7ador e intimava: \u201cChefia, abre esses cadeados que vamos ter uma parada na ala\u201d. Abr\u00edamos e desc\u00edamos para chamar o refor\u00e7o. Quando sub\u00edamos, depois de muito tempo, o \u201cservi\u00e7o\u201d j\u00e1 estava pronto. O jeito era recolher os corpos, que n\u00e3o eram poucos, e levar para o IML(Instituto M\u00e9dico Legal). Pra quem n\u00e3o tinha sangue frio n\u00e3o subia, pois a cena era de arrepiar. Era tanta as \u201cestiletadas\u201d nos corpos da vitimas que o sangue corria por tudo que era buraco.<\/p>\n<p>Uma das mortes que mais me marcou foi a do Batata, conhecido como \u201cRato de Xadrez\u201d, morto por um elemento chamado Dion\u00edsio, um detento de bom comportamento j\u00e1 perto de ganha a liberdade, mas como se diz, ningu\u00e9m \u00e9 de ferro. Aconteceu que o Batata havia assaltado todo o \u201cjumbo\u201d (ou seja, o Batata havia levado tudo que o \u00a0Dion\u00edsio havia ganho de seus parentes visitantes) e quando o cara marcou toca, o cachimbo caiu. Rapaz, a raiva deve ter sido tanta do Dion\u00edsio que at\u00e9 os olhos do Batata foram arrancados.<\/p>\n<p>N\u00e3o percam os pr\u00f3ximos cap\u00edtulos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Tom\u00e9 Pacheco NO PRES\u00cdDIO CARANDIRU (III) Continuando com minhas Hist\u00f3rias de um Ilheense dentro do Pres\u00eddio Carandiru inicio relatando o linguajar que os detentos tinham e que deu para gravar alguns como: Chico Doce(peda\u00e7o de pau), Maria Louca (cacha\u00e7a feita de arroz), Jega (cama), Boi (privada no ch\u00e3o), Gerer\u00ea (cigarro de maconha), Beca (roupa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49701"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49701"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49701\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49705,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49701\/revisions\/49705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49701"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49701"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49701"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}