{"id":51557,"date":"2012-10-09T07:48:16","date_gmt":"2012-10-09T10:48:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=51557"},"modified":"2012-10-09T07:48:16","modified_gmt":"2012-10-09T10:48:16","slug":"a-macarandubeira-do-bahama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/10\/09\/a-macarandubeira-do-bahama\/","title":{"rendered":"A MA\u00c7ARANDUBEIRA DO BAHAMA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\" align=\"center\"><strong><em>por Luiz Ferreira da Silva<\/em><\/strong>*<\/p>\n<p><strong><\/strong><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/luiz-ferreira-azul_cr\u00f4nica.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-51558\" title=\"luiz ferreira azul_cr\u00f4nica\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/luiz-ferreira-azul_cr\u00f4nica.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"133\" \/><\/a>H\u00e1 um ano, praticamente resido no Arquip\u00e9lago do Sol\/Bahama (<strong>Quadra A-06; Lote 04<\/strong>), possibilitando-me conhecer o seu ecossistema (complexo fl\u00favio-marinho\/restinga), notadamente as \u00e1rvores, originais e plantadas.<\/p>\n<p>Pela sua pujan\u00e7a, chamou-me a aten\u00e7\u00e3o um exemplar magn\u00edfico \u2013 um p\u00e9 de ma\u00e7aranduba (<span style=\"text-decoration: underline;\">Manikara<\/span> <span style=\"text-decoration: underline;\">uberi<\/span>). Situada a uns 15 metros da margem direita do rio niquim, expande a sua sombra por mais de 100 m de circunfer\u00eancia, cobrindo uma \u00e1rea de aproximadamente 800 m<sup>2<\/sup>. Outorguei-lhe com a minha autoridade de Engenheiro Agr\u00f4nomo, o t\u00edtulo de <span style=\"text-decoration: underline;\">patronesse do peda\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p>Todos os dias, a reverencio, energizo-me ante a sua f\u00e1brica de oxig\u00eanio e at\u00e9 lhe pe\u00e7o ajuda nas horas necessitadas, por ela representar dignamente a Natureza criada por Deus, diferentemente do ser humano, cuja maioria n\u00e3o merece cr\u00e9dito algum.<\/p>\n<p>Por tudo que ela representa, veio-me a inspira\u00e7\u00e3o de implantar um mini-bosque com \u00e1rvores do seu habitat, tirando-a do isolamento e lhe possibilitando reminisc\u00eancias de tempos idos, quando convivia harmonicamente com suas amigas e parentes da Mata Atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e3o vicejando 27 \u00e1rvores e mais 13 ser\u00e3o plantadas posteriormente, espa\u00e7adas em 4 em 4 metros. Tenho certeza que ela ficar\u00e1 feliz e agradecida.<\/p>\n<p>Por falar nisso, este sentimento \u2013 ser grato \u2013 anda meio negligenciado pela nossa esp\u00e9cie, vale a pena lembrar a revolta do grande Ruy Barbosa, que dizia : \u201ca gratid\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante que deveria constar no c\u00f3digo civil\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, fiquei triste ao constatar que muitos cond\u00f4minos nem sabem que ela existe. Uns andam de \u00f3culos escuros, ouvindo MP3, sem perceber o verde de sua copa frondosa e, tampouco, ouvir o ru\u00eddo do balan\u00e7ar de sua folhagem, impulsionada pelo vento marinho que se canaliza pelo talvegue do rio niquim, sem se contar do tilintar das aves e o barulho das brincadeiras dos saguins comendo os seus frutos e de outras esp\u00e9cies, como a ingazeira.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Outros permanecem em suas belas casas, aboletam-se nos confort\u00e1veis sof\u00e1s vendo TV e\/ou degustando finas iguarias regadas a bebidas v\u00e1rias, retornando no final da tarde de domingo, sem receber o fluxo energ\u00e9tico que as centenas de \u00e1rvores facultam, sem cobrar nada em troca.<\/p>\n<p>Provavelmente, a ma\u00e7arandubeira veio de fora. Uma alien\u00edgena, \u00a0vizinha n\u00e3o muito longe: dos tabuleiros dominados pela cana-de-a\u00e7\u00facar, cuja a\u00e7\u00e3o antr\u00f3pica destruiu \u00e1s \u00e1rvores, sem d\u00f3 e nem piedade. Sementes de seus pais devem ter chegado ao atual local pela via fluvial, com a participa\u00e7\u00e3o de animais que as preparou inicialmente para o plantio, ao degustar os seus gostosos frutos, expelindo as sementes alhures, j\u00e1 adubadas.<\/p>\n<p>No meu livro, \u201cSob a sombra do oitizeiro da Paju\u00e7ara\u201d, que publiquei em 2009 (Scortecci Editora\/SP), desenvolvi uma maneira de me comunicar, tamb\u00e9m, com esta majestosa \u00e1rvore, que denominei de telepatia delirante e\/ou <span style=\"text-decoration: underline;\">esquizofr\u00eanica<\/span>, na cren\u00e7a de estar recebendo emana\u00e7\u00f5es codificadas em palavras. L\u00f3gico, pura invencionice do modesto escritor: fic\u00e7\u00e3o, que vou usar na presente cr\u00f4nica daqui pr\u00e1 frente.<\/p>\n<p>Numa certa manh\u00e3, percebi certa melancolia na minha amiga, cujas folhas ca\u00eddas precocemente eram como l\u00e1grimas, ao constatar o estado das \u00e1guas do rio niquim, na curva que ela divisava muito bem, lamentando o excesso de mat\u00e9ria org\u00e2nica, que reduzia o oxig\u00eanio para a fauna ictiol\u00f3gica,\u00a0 e a morte das aningas em suas margens, bem como o desaparecimento dos doces guajirus e das saborosas mangabas. Ent\u00e3o, transmiti-lhe sobre a\u00a0 insanidade humana e a inoper\u00e2ncia dos \u00d3rg\u00e3os ambientais, oportunidade em que detalhei sobre o mini-bosque, o que a alegrou, demonstrado no balan\u00e7ar da sua copa.<\/p>\n<p>Ela s\u00f3 tinha uma mangueira, tamb\u00e9m secular, que crescera juntas que apesar de outro g\u00eanero bot\u00e2nico , convivia com harmonia e solidariedade, um exemplo para os homens que n\u00e3o sabem lidar com as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>De outra feita, decodifiquei a sua preocupa\u00e7\u00e3o com o avan\u00e7o do mar, que ela, do alto da sua copa, com certa dificuldade apreciava a linha de arrecifes, usufruindo do ar \u00famido salitrado e de um pouco do cheiro dos sarga\u00e7os. Tentei lhe explicar esta sua clarivid\u00eancia, que tamb\u00e9m era minha, e lhe expus telepaticamente, como sempre fazia em m\u00e3o dupla, assim:<\/p>\n<p>\u201cO homem, dentre tantas aberra\u00e7\u00f5es de agress\u00e3o \u00e0 Natureza no mau uso da faixa costeira, talvez se superou no ranking da sua insensatez na paradis\u00edaca Barra de S\u00e3o Miguel. Implantou suas mans\u00f5es no territ\u00f3rio praiano, desafiando o mar, a pouco metros da linha d`\u00e1gua, impedindo a hidrog\u00eanese marinha (formar a sua plan\u00edcie de\u00a0 diques naturais, terra\u00e7os e dunas), o que vem provocando a acumula\u00e7\u00e3o de areias, inclusive mar a dentro, al\u00e9m da declividade do terreno, tornando desconfort\u00e1vel o caminhar pela restrita praia fofa, por ambos motivos. E mais: inviabilizou a implanta\u00e7\u00e3o de uma bela avenida beira mar que, em outras plagas, constitui-se no principal cart\u00e3o de visita e deleite para todos os que a frequentam\u201d.<\/p>\n<p>E, assim, com o passar do tempo, j\u00e1 mais de um ano de \u201centendimento\u201d, pude captar e ler a decodifica\u00e7\u00e3o com menos dificuldades, sentindo os sintomas que a ma\u00e7arandubeira expressava querendo dizer das suas inquieta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Estava de certa feita, preocupada com a garotada que, em uma ensolarada tarde, rodopiara os seus quadriciclos na pra\u00e7a cont\u00edgua ou em um terreno baldio bem pr\u00f3ximo, temendo pela seguran\u00e7a dos pr\u00e9-adolescentes, 4 a 6 empinhados\u00a0 no min\u00fasculo ve\u00edculo. Falei-lhe do absurdo, focalizando o problema como estritamente de seus pais, que tem conhecimento das normativas vigentes que pro\u00edbem menores de pilotarem tais autos.<\/p>\n<p>Recentemente (final de setembro), deu-me a impress\u00e3o de seu temor com o muro que est\u00e1 sendo constru\u00eddo, passando bem perto de seu frondoso tronco, afetando as suas ra\u00edzes. Tranquilizei-a, pois s\u00f3 seriam atingidas as ra\u00edzes suberosas, pouco producentes e \u00a0de sustenta\u00e7\u00e3o, mas que seriam recuperadas com a adi\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria org\u00e2nica e NPK, facilitando a emerg\u00eancia das ra\u00edzes finas absorventes de \u00e1gua e de alimentos. Senti que ela se convenceu, haja vista os benef\u00edcios advindos dessa pr\u00e1tica feita meses atr\u00e1s, que lhe proporcionara uma nova \u00e1rea foliar e bela florada.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m sentia que a patronesse, termo que ela adorou quando lhe contei do t\u00edtulo, ficava nervosa com o barulho dos altos falantes que vinham da outra margem do rio, cujas m\u00fasicas da atual juventude n\u00e3o lhe faziam bem. No seu tempo, adorava ouvir a orquestra do Severino Ara\u00fajo, as melodias de Cartola e o cantar gutural de Dorival Caymmi, sobretudo as cantigas do mar. Com meu ipod, tecnologia moderna, numa tardinha, fiz-lhe ouvir Richard Clayderman, encantando-a. Ela que era f\u00e3 de Waldir Calmon, d\u00e9cada de 50.<\/p>\n<p>Outra sensa\u00e7\u00e3o gostosa que captei, foi quando lhe contei sobre o Dia da \u00c1rvore, que havia coordenado no dia 22 de setembro deste. E mais ainda: quando lhe falei- telepaticamente \u00e9 claro e o leitor j\u00e1 sabe dessa nossa \u201cesquizofrenia\u201d salutar \u2013 da participa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as pobre de um Grupo Escolar do Munic\u00edpio, que deram um exemplo de civismo, disciplina e participa\u00e7\u00e3o, cantando o Hino Nacional e recitando um poema do autor. Ap\u00f3s o lanche, n\u00e3o se viu nenhum copo no ch\u00e3o, limpeza total, diferentemente da rapaziada que, pelas noites alco\u00f3licas, emporcalham o sal\u00e3o. N\u00e3o tenho d\u00favidas que, se naqueles o Governo investisse, o Brasil certamente teria sua recompensa futura.<\/p>\n<p>Presentemente, setembro de 2012, a \u201cMa\u00e7arandubeira do Bahama\u201d est\u00e1 um encanto: toda florida, feliz e pujante, emanando energias aos quatro cantos. E eu, cada vez mais, aproveitando, que n\u00e3o sou besta, como dizia minha m\u00e3e, na sua aprendizagem nordestina interiorana! <strong>(Macei\u00f3, 01 de outubro de 2012).<\/strong><\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><strong>Luiz Ferreira da Silva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><strong>Eng. Agr\u00f4nomo e Escritor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><a href=\"mailto:luizferreira1937@gmail.com\"><strong>luizferreira1937@gmail.com<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><strong>Celular: (82) 9313-1030.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Luiz Ferreira da Silva* H\u00e1 um ano, praticamente resido no Arquip\u00e9lago do Sol\/Bahama (Quadra A-06; Lote 04), possibilitando-me conhecer o seu ecossistema (complexo fl\u00favio-marinho\/restinga), notadamente as \u00e1rvores, originais e plantadas. 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