{"id":52786,"date":"2012-10-31T13:36:27","date_gmt":"2012-10-31T16:36:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=52786"},"modified":"2012-10-31T13:36:27","modified_gmt":"2012-10-31T16:36:27","slug":"historias-de-um-ilheense-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/10\/31\/historias-de-um-ilheense-3\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIAS DE UM ILHEENSE"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Tom\u00e9 Pacheco<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>NO PRES\u00cdDIO CARANDIRU (V)<\/strong><\/p>\n<div style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" title=\"Tom\u00e9 Pacheco\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Tom%C3%A9-Pacheco-300x225.jpg\" alt=\"Tom\u00e9 Pacheco\" width=\"300\" height=\"225\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Tom\u00e9 Pacheco<\/p><\/div>\n<p>Na <strong><em>Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Carandiru<\/em><\/strong> teve um tempo em que sua popula\u00e7\u00e3o chegou a 7200 detentos, fora os funcion\u00e1rios. Voc\u00ea j\u00e1 imaginou o que acontecia ali dentro com essa insuport\u00e1vel quantidade de pessoas? Com gente que cometeu todo tipo de crime? N\u00e3o era f\u00e1cil, mas t\u00ednhamos que agir com jogo de cintura, muita sabedoria e intelig\u00eancia para poder trabalhar. Era problema a todo instante. Presenciei v\u00e1rios colegas enlouquecerem de jogar pedra e rasgar dinheiro.<\/p>\n<p>Tive um colega por nome <strong>Hardig<\/strong> que foi um deles. Volta e meia quando ele tinha algum problema com detento, ou mesmo com colegas, ele chamava para ir at\u00e9 a \u201cducha\u201d tirar \u201cbronca\u201d ou acerto de contas. A\u00ed saia de l\u00e1 todo rasgado, ensang\u00fcentado, sujo de rolarem no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu certa vez o chamei e o aconselhei: \u201c<strong>Hardig<\/strong>, voc\u00ea esta ficando louco? saia fora daqui sen\u00e3o voc\u00ea vai precisar ser internado no Juqueri junto com os detentos!\u201d. O Juqueri (Hospital Psiqui\u00e1trico do Juqueri em Franco da Rocha, munic\u00edpio da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo) era o fim de carreira de qualquer um. Quem entrasse l\u00e1 com alguma lucidez, ficava 100% maluco, sem dizer do abandono dos familiares, dos colegas e o descaso em geral.<\/p>\n<p>Ele seguiu meu conselho e pediu exonera\u00e7\u00e3o. Presenciei tamb\u00e9m um grande n\u00famero de detentos ficarem totalmente louco. Um caso que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi de um ex-volante que chegou a jogar futebol em v\u00e1rios clubes de S\u00e3o Paulo. O \u00faltimo foi a Portuguesa de Desportos, treinado pelo famoso t\u00e9cnico Brand\u00e3o. Seu crime era roubar o vesti\u00e1rio dos clubes por onde passava.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Como rotina, n\u00f3s cheg\u00e1vamos as 07h00min \u2013 07h30min e faz\u00edamos a contagem at\u00e9 as 08h00min. Abr\u00edamos todas as celas, menos as interditadas, ou seja, aquelas quando de uma revista anterior, eram encontradas alguma coisa irregular (cacha\u00e7a Maria Louca, drogas, fog\u00e3o feito de tijolo e resist\u00eancias tiradas de chuveiros para esquentar \u00e1gua e tomarem banho, brigas entre eles etc.), ent\u00e3o orden\u00e1vamos que sa\u00edssem para o p\u00e1tio, ou para algumas oficinas, que por sinal, \u00e9ramos pouqu\u00edssimas. Da\u00ed nossa fun\u00e7\u00e3o era ficarmos de olho neles, e revistarmos todos para liber\u00e1-los em seguida, mas n\u00e3o adiantava nada, pois eles, com o tempo todo livre que Deus os deu, ficavam era botando a cachola para pensar o que iria fazer no outro dia, o que geralmente n\u00e3o era nada que prestasse. N\u00f3s est\u00e1vamos ali justamente para frustr\u00e1-los da tentativa, por exemplo, de uma \u201cescava\u00e7\u00e3o de t\u00fanel\u201d, na base da \u201cTereza\u201d ou da m\u00e3o grande, etc. E tamb\u00e9m coibi-los do uso de drogas, da fabrica\u00e7\u00e3o de \u201cMaria Louca\u201d, dos estrupos entre eles e outros irregularidades que cometiam.<\/p>\n<p>Existiam varias ocasi\u00f5es em que t\u00ednhamos que redobrar a aten\u00e7\u00e3o. Era quando havia jogo de futebol de um Pavilh\u00e3o contra outro. Nos campeonatos internos dos pavilh\u00f5es a\u00ed \u00e9 que era fogo! Se houvesse jogo no <strong><em>Pavilh\u00e3o 9<\/em><\/strong>, por exemplo, viam detentos do \u00a0<strong><em>8, do 7, do \u00a02<\/em><\/strong><em>; do <strong>Pavilh\u00e3o 5<\/strong><\/em> vinham poucos por ser o pavilh\u00e3o dos <strong><em>devedores<\/em><\/strong>. Volta e meia era um tal de cobrar d\u00edvida que Ave Maria!. Pra n\u00f3s agentes era bom porque n\u00e3o v\u00edamos as horas passar, pois nosso plant\u00e3o era de 12 por 36 horas. Pensem ent\u00e3o comigo, viagem no meu pensamento: Voc\u00ea j\u00e1 pensou o que \u00e9 ficar mais de 12 horas numa <strong><em>casa de deten\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong> onde existem pessoas que cometeram todo tipo de crime! Fora, voc\u00eas sabiam das not\u00edcias do jeito que a imprensa publicava, mas a gente l\u00e1 de dentro sabia que faltava muita coisa na publica\u00e7\u00e3o. Em se tratando de <strong><em>Carandiru<\/em><\/strong>, quem sabia da verdade verdadeira era quem estava l\u00e1 vivendo o dia-a-dia, o cotidiano. Podemos citar o <strong><em>Dr. Varela<\/em><\/strong> que escreveu um livro e que originou o filme \u201cCarandiru\u201d. O livro foi escrito atrav\u00e9s de pesquisas e est\u00f3rias muitas delas contadas pelos detentos quando os mesmos eram consultados por este m\u00e9dico, que ficava no <strong><em>Pavilh\u00e3o 4,<\/em><\/strong> o <strong><em>Pavilh\u00e3o do Hospital<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>Certa vez em <strong><em>1982<\/em><\/strong> eu estudava em <strong><em>Guarulhos<\/em><\/strong>, mas fazia entregas que ficava na Vila Galv\u00e3o. Da\u00ed ent\u00e3o eu tinha que agilizar a \u201c<strong><em>tranca<\/em><\/strong>\u201d e a \u201c<strong><em>contagem<\/em><\/strong>\u201d para poder dar tempo em sair correndo at\u00e9 a <strong><em>Esta\u00e7\u00e3o Tiet\u00ea <\/em><\/strong>e pegar o \u00f4nibus para a faculdade. Quase sempre iniciava a \u201c<strong><em>tranca<\/em><\/strong>\u201d \u00e0s 16h50min e estava faltando muitos detentos para fechar a \u201c<strong><em>contagem<\/em><\/strong>\u201d, e eu tive que sair procurando os elementos que faltavam. Encontrei um deles na \u201cgaiola\u201d t\u00e9rrea que dava acesso \u00e0 cozinha. A\u00ed falei: \u201c<em>Rapaz, vamos subir porque s\u00f3 est\u00e1 faltando voc\u00ea para a contagem bater\u201d.<\/em> Ele virou e falou: <em>\u201cChefia, espera mais um pouco que o Truta foi na cozinha pegar um recortado\u201d<\/em>. Como eu estava com pressa, para n\u00e3o perder o \u00f4nibus da faculdade, falei: <em>\u201cN\u00e3o tem essa n\u00e3o, vamos subir. Voc\u00eas t\u00eam o dia todo para verem suas muambas. P\u00f4, justamente na hora da tranca! N\u00e3o tem conversa, sobe<\/em>\u201d. O elemento olhou pra mim e respondeu: <em>\u201cSe eu te encontrar na rua te encho de bala\u201d<\/em>. Eu retruquei: <em>\u201cVoc\u00ea vai encher \u00e9 agora\u201d<\/em>. E parti pra cima do sujeito com gosto de g\u00e1s, empurrando-o em dire\u00e7\u00e3o ao fosso do elevador. Se ele ca\u00edsse ali n\u00e3o sobrava nem a alma para contar a hist\u00f3ria. Foi quando houve a interven\u00e7\u00e3o de um detento <em>chamado \u201cExcel\u00eancia<\/em>\u201d, um preto velho e gente fina, que virou pra mim e disse: <em>\u201cO que \u00e9 isso Excel\u00eancia, perdeu o ju\u00edzo?\u201d.<\/em> Respondi: <em>\u201cAcabei de perder com esse elemento que est\u00e1 se recusando subir para a tranca\u201d.<\/em> No que Excel\u00eancia, aconselhou: <em>\u201cCalma, n\u00e3o precisa isso. Converse com ele numa boa. Voc\u00ea sabe que tu \u00e9s nosso considerado. Temos o maior respeito pelo senhor aqui dentro. Vai perder a cabe\u00e7a e nosso conceito?\u201d<\/em> A\u00ed ele me quebrou as pernas e me fez amolecer o cora\u00e7\u00e3o. Em outro plant\u00e3o fomos dar uma blitz no 5\u00ba andar. Quando eu estava bem no meio da galeria, l\u00e1 vem o tal elemento em minha dire\u00e7\u00e3o. Faltou-me terra, encostei-me \u00e0 parede e fiquei esperando o pior acontecer. Felizmente ele reconheceu que estava errado e veio me pedir desculpas. Eu a\u00ed cresci e falei: <em>\u201cRapaz, nem lembro mais desse fato\u201d.<\/em> \u00c9 isso, com a malandragem tem esse lado bom. Se o malando est\u00e1 errado, pode castig\u00e1-lo, s\u00f3 n\u00e3o bata em sua cara nem em sua bunda. Eles dizem que a\u00ed \u00e9 esculachar demais com a moda. Geralmente eles me falavam que quando sa\u00edsse da cadeia, iria ter uma parada com muitos de meus colegas. E diziam: <em>\u201cN\u00e3o vou correr atr\u00e1s, mas se encontr\u00e1-los vou deitar um por um\u201d <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Tom\u00e9 Pacheco NO PRES\u00cdDIO CARANDIRU (V) Na Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Carandiru teve um tempo em que sua popula\u00e7\u00e3o chegou a 7200 detentos, fora os funcion\u00e1rios. Voc\u00ea j\u00e1 imaginou o que acontecia ali dentro com essa insuport\u00e1vel quantidade de pessoas? Com gente que cometeu todo tipo de crime? 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