{"id":52832,"date":"2012-11-01T13:20:46","date_gmt":"2012-11-01T16:20:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=52832"},"modified":"2012-11-01T13:20:46","modified_gmt":"2012-11-01T16:20:46","slug":"guerras-e-guerras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/11\/01\/guerras-e-guerras\/","title":{"rendered":"Guerras e guerras"},"content":{"rendered":"<p><strong>* por Tom Coelho<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>\u201cCombater a si pr\u00f3prio \u00e9 a mais dura das guerras, vencer a si pr\u00f3prio \u00e9 a mais bela das vit\u00f3rias.\u201d<\/strong><\/em> <strong>(Friedrich von Logau)<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/tom-coelho1.jpg\" class=\"alignleft\" width=\"300\" height=\"133\" \/>Desde pequeno acostumei-me com a guerra.<\/p>\n<p>Primeiro foi uma guerra para sair do conforto do ventre de minha m\u00e3e, onde eu tinha alimento e seguran\u00e7a, num dia que chamaram de parto e depois deram o nome, talvez s\u00f3 para me tapear, de anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Depois veio uma guerra particular bem interessante que consistia em ficar em p\u00e9 e aprender a andar.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelos quatro anos de idade fui apresentado a um verdadeiro arsenal de guerra, formado por bisnagas de pl\u00e1stico, confetes e serpentinas, durante uma festa que atendia pelo nome de Carnaval. Eram guerras bem animadas!<\/p>\n<p>Anos depois, viriam as guerras que guardo com mais carinho na mem\u00f3ria. A guerra de almofadas que come\u00e7ava na sala e terminava como guerra de travesseiros no quarto. Foi uma \u00e9poca de desenvolvimento de t\u00e1ticas de guerrilha. Eu me entrincheirava atr\u00e1s do sof\u00e1 e espalhava sapatos e chinelos-mina pela sala e corredores.<\/p>\n<p>Trocar a TV, o videogame e as brincadeiras com os colegas pelas tarefas escolares eram uma guerra e tanto. O mesmo para arrumar o quarto, tomar banho e ir dormir cedo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o veio uma s\u00e9rie de outras guerras. Guerra para ser aceito pelo time de basquete do clube, mesmo sendo baixinho. Guerra para tirar boas notas e se destacar na escola. Guerra para entender as transforma\u00e7\u00f5es que os horm\u00f4nios provocavam no corpo. Guerra para criar coragem e convidar aquela garotinha para sair&#8230;<\/p>\n<p><!--more--> <\/p>\n<p>Mais alguns anos e as guerras foram tomando conota\u00e7\u00e3o mais s\u00e9ria. Guerra para passar no vestibular. Guerra para obter o diploma. Guerra para conseguir um emprego e, estando nele, aprender a aceitar a hierarquia, os conchavos nos corredores, as conspira\u00e7\u00f5es no hall do caf\u00e9, as armadilhas no elevador. Guerras corporativas engendradas por coron\u00e9is sem patente, travadas por soldados muitas vezes lan\u00e7ados a campo sem treinamento e provis\u00f5es. Guerra contra a concorr\u00eancia, sem interesse na diplomacia. Guerra contra a inefici\u00eancia, sem previs\u00e3o de armist\u00edcio. Guerra pelo consumidor, por sua prefer\u00eancia e fidelidade.<\/p>\n<p>E, nesta toada, guerra para encontrar uma alma g\u00eamea. Guerra para seduzi-la a casar-se e, depois, a separar-se. Guerra pela cust\u00f3dia dos filhos. Guerra para montar uma empresa, pagar sal\u00e1rios, pagar impostos \u2013 e, de repente, ter que fechar a empresa. Guerra contra os juros do cheque especial.<\/p>\n<p>Lendo os jornais observo o desenrolar de outros tipos de guerra. Guerra pela demarca\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, guerra pelo petr\u00f3leo, guerra pela autoridade. E, talvez, a pior de todas: a guerra em nome de Deus, a que chamaram de guerra santa, apenas para envolver de corpo e alma milh\u00f5es de inocentes, jovens ou maduros, mas que na verdade atende aos mesmos preceitos de terra, dinheiro e poder de todas as guerras convencionais.<\/p>\n<p>Hoje, j\u00e1 adulto, dei-me por conta de como nossas guerras v\u00e3o perdendo significado real na medida em que nossas pernas crescem. As guerras migram do prazer para a ignor\u00e2ncia, da pureza para a intoler\u00e2ncia. Bilh\u00f5es gastos para matar mais gente, quando poderiam amenizar a dor e o sofrimento, a fome e a mis\u00e9ria, de milh\u00f5es espalhados pelo mundo.  Muito dinheiro investido em produtos que n\u00e3o s\u00e3o desejados, em tecnologias que n\u00e3o ser\u00e3o usadas, em treinamentos que n\u00e3o proporcionam aprendizado, em confraterniza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o geram integra\u00e7\u00e3o. Tudo porque as na\u00e7\u00f5es tratam as outras como pa\u00edses, isolando-se em torno de seus interesses. Tudo porque as empresas tratam seus colaboradores como m\u00f3biles, fertilizando o terreno para uma guerra civil ao n\u00e3o definirem seus valores, miss\u00e3o e ideais de forma compartilhada.<\/p>\n<p>Olhamos para o lado e vemos a guerra para saber quem avan\u00e7ar\u00e1 primeiro o sem\u00e1foro fechado, a guerra para determinar quem vencer\u00e1 a licita\u00e7\u00e3o, a guerra contra o narcotr\u00e1fico, a guerra pela sobreviv\u00eancia. Nesta hora vemos que Darwin enganou-se, que a sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 natural porque a natureza quer, mas porque o homem assim o deseja.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, coloco-me diante de minha maior guerra pessoal: a de entender o porqu\u00ea de as coisas serem assim. Compreender como fui me deixar convocar por este ex\u00e9rcito de insanos. E imaginar em qual ponto no espa\u00e7o e em que momento no tempo desgarrei-me da crian\u00e7a que vivia e amava a guerra, como ela deveria ser.<\/p>\n<p><em> <strong>* Tom Coelho \u00e9 educador, conferencista e escritor com artigos publicados em 17 pa\u00edses. \u00c9 autor de \u201cSomos Maus Amantes \u2013 Reflex\u00f5es sobre carreira, lideran\u00e7a e comportamento\u201d (Flor de Liz, 2011), \u201cSete Vidas \u2013 Li\u00e7\u00f5es para construir seu equil\u00edbrio pessoal e profissional\u201d (Saraiva, 2008) e coautor de outras cinco obras. Contatos atrav\u00e9s do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>* por Tom Coelho \u201cCombater a si pr\u00f3prio \u00e9 a mais dura das guerras, vencer a si pr\u00f3prio \u00e9 a mais bela das vit\u00f3rias.\u201d (Friedrich von Logau) Desde pequeno acostumei-me com a guerra. 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