{"id":53888,"date":"2012-11-19T11:45:21","date_gmt":"2012-11-19T14:45:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=53888"},"modified":"2012-11-19T11:45:21","modified_gmt":"2012-11-19T14:45:21","slug":"historias-de-um-ilheense-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/11\/19\/historias-de-um-ilheense-4\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIAS DE UM ILHEENSE"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><em><strong>por Tom\u00e9 Pacheco<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>NO PRES\u00cdDIO CARANDIRU VI<\/strong><\/p>\n<div style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" title=\"Tom\u00e9 Pacheco\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Tom%C3%A9-Pacheco-300x225.jpg\" alt=\"Tom\u00e9 Pacheco\" width=\"300\" height=\"225\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Tom\u00e9 Pacheco<\/p><\/div>\n<p>Fiquei na <strong><em>Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Carandiru<\/em><\/strong> de 1978 a 1982. Neste per\u00edodo houve a troca de diretor, em que saiu o <em>Coronel Guedes<\/em> e entrou <em>Luis\u00e3o<\/em>. Luis\u00e3o j\u00e1 era diretor da <strong><em>Penitenciaria Masculina do Estado<\/em><\/strong> e trouxe sua equipe, havendo troca de alguns funcion\u00e1rios em que eu, o Isaias, e o Adauto foram trocados. A diferen\u00e7a foi que n\u00f3s tr\u00eas sa\u00edmos como traficantes, trambiqueiros e \u00e9ramos tidos como problem\u00e1ticos. Inclusive fomos impedidos de adentrar a Penitenci\u00e1ria. Eu fiquei na <strong><em>farm\u00e1cia<\/em><\/strong>, Isaias no <strong><em>almoxarifado<\/em><\/strong> e Adauto na <strong><em>oficina mec\u00e2nica<\/em><\/strong>. Nosso almo\u00e7o era servido no local onde trabalh\u00e1vamos. O diretor era o Dr. Rubens Lopes.<\/p>\n<p>Minha fun\u00e7\u00e3o era Auxiliar de Servi\u00e7os Gerais e constava de lavar vidros, limpar o laborat\u00f3rio, engarrafar alguns rem\u00e9dios e prensar medicamentos. Trabalhei tamb\u00e9m na parte do laborat\u00f3rio onde fabricava alguns tipos de medicamentos como xaropes. Eram dez funcion\u00e1rios e dois farmac\u00eauticos da \u00e1rea qu\u00edmica.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo eu viria conhecer melhor meus dois colegas, Isaias e Adauto. E assim descobrir que os caras n\u00e3o eram brincadeira n\u00e3o. Soube que o Isaias foi pego em sua casa fabricando dinheiro e estendendo no varal. O Adauto come\u00e7ou a pisar na bola demais com a galera da pesada e n\u00e3o deu outra: deram-lhe fim.<\/p>\n<p>Eu continuei na minha rotina, estudando e j\u00e1 estava no <em>2\u00ba ano de<\/em> <em>Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica. <\/em>Na farm\u00e1cia trabalhava por meio per\u00edodo o Corade, que era diretor do Setor de Educa\u00e7\u00e3o da Penitenci\u00e1ria. Ent\u00e3o ele sabendo que eu estudava Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, me prometeu que assim que eu me formasse colocar-me-ia no cargo de <strong><em>Diretor de Esporte e Recrea\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>. Fiquei assim todo entusiasmado e felic\u00edssimo. Continuei estudando com mais afinco ainda porque tinha este objetivo a ser alcan\u00e7ado.\u00a0 Foi o que aconteceu em 1984 quando assumir o cargo. A\u00ed foi s\u00f3 alegria. Deus me aben\u00e7\u00f4o nessa fun\u00e7\u00e3o que passei a desempenha dentro da Penitenciaria no <strong><em>Pavilh\u00e3o 3<\/em><\/strong>. Minha vida agora era lidar com 1200 presos nos campos e quadras de futebol da Penitenci\u00e1ria.\u00a0 L\u00e1 a vida era completamente diferente da Casa de Deten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da\u00ed ent\u00e3o eu comecei a exercer minha nova fun\u00e7\u00e3o. Eu preparava fisicamente a sele\u00e7\u00e3o de futebol. O campo era gramado e media 120 x 95m. Havia outro menor onde era disputado a 2\u00aa divis\u00e3o. Organizei v\u00e1rias atividades, como o campeonato de futebol nos dois campos. Os dois \u00faltimos colocados de cada campo eram rebaixados para a 2\u00aa divis\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Em 1984 entrei em contato com a Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Futebol. O seu diretor <strong><em>Dirceu Fernandes<\/em><\/strong> come\u00e7ou a mandar \u00e1rbitros-alunos, como os antigos a exemplo de <em>Ducidio, Morgado, Wlisses Tavares, Ma\u00e7oneto<\/em>, <em>Elzon<\/em> entre outros.<\/p>\n<p>Volta e meia o senhor <strong><em>Dirceu<\/em><\/strong> nos fazia uma visita porque gostava de conhecer os presos famosos tipo <em>Luz Vermelha, Hosmanir Ramos, Chico Picadinho, Marqueta, Ze Vitor, N\u00e3o Se Bula entre outros. <\/em>\u00a0Eu apresentei todos eles a mais alguns no que ele se deliciava e ficava o tempo todo conversando com essa galera de presos<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo pegamos amizade e ent\u00e3o veio o convite para que eu fizesse o curso de \u00e1rbitro, sendo que fui fazer por insist\u00eancia do <strong><em>senhor Dirceu<\/em><\/strong>. Formei em 1985, mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria que contarei no decorrer dessa minha <em>Hist\u00f3rias de um Ilheense.<\/em><\/p>\n<p>Dr. Marco Aur\u00e9lio Cunha, era m\u00e9dico ortopedista do Pres\u00eddio e diretor do S\u00e3o Paulo Futebol Clube. Ele teve a iniciativa de levar alguns jogadores profissionais famosos como <strong><em>Mueller, Silas, Bernardo, Vizzole, Sidney<\/em><\/strong> e outros que abrilhantavam nosso campeonato. No dia em que levou o <strong>S\u00e3o Paulo<\/strong> para jogar contra a sele\u00e7\u00e3o dos presos, foi a maior sensa\u00e7\u00e3o, a maior alegria dentro do Pres\u00eddio.<\/p>\n<p>Depois levou o <strong>Palmeiras<\/strong> (que \u00e9 meu time do cora\u00e7\u00e3o). Nessa \u00e9poca jogavam pelo \u201cverd\u00e3o\u201d craques como o <strong><em>Le\u00e3o, Luis Pereira, Wagner, M\u00e1rio S\u00e9rgio<\/em><\/strong> (o Rei do Gatilho) e outros que no momento me falham a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em 1996 foi a vez da <strong>Portuguesa<\/strong> que militavam jogadores de primeira ordem como <strong><em>Denner, Capit\u00e3o, Sinval, Tico<\/em><\/strong> e outros. A Portuguesa para quem n\u00e3o se lembra foi campe\u00e3o brasileiro jogando contra o Gr\u00eamio em Porto Alegre no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Os jogos de futebol era t\u00e3o emocionantes que os presos come\u00e7aram \u2013na verdade uns 80%\u2013 a pedir a vinda do <strong><em>Corinthians<\/em><\/strong>, mas eu, como um palmeirense de sete costados, vetei. Ora, pensei: como \u00e9 que eu, palmeirense, iria consentir uma coisa dessas. E persisti comigo, apesar das reclama\u00e7\u00f5es, que: \u201cGrama que palmeirense pisa corintiano n\u00e3o \u00e9 digno de pisar!\u201d. Mas foi uma reclama\u00e7\u00e3o s\u00f3!<\/p>\n<p>O jogo contra o <strong><em>S\u00e3o Paulo<\/em><\/strong> foi num s\u00e1bado. Na segunda-feira eu encontrava-me em minha sala quando apareceu um preso com mais ou menos uns 48 anos e: \u201cSeu Tom\u00e9, com licen\u00e7a\u201d. Eu antecipei e disse: \u201cPois n\u00e3o, pode sentar a\u00ed\u201d. Ent\u00e3o ele passou a narrar o motivo de ter ido at\u00e9 a minha sala: \u201cO senhor est\u00e1 lembrado daquele 9 do S\u00e3o Paulo, o Marcelo que depois foi jogar no Bahia?\u201d Eu pensado que seria um papo s\u00e9rio pedir-lhe para continuar. Ent\u00e3o o preso continuou: \u201cPois \u00e9 isso seu Tom\u00e9, eu estou fraco, sabe? O 9 caiu bem no meu colo. Com aquelas pernas grossas de garoto \u2018sarad\u00e3o\u2019, que gostosura! Passei a noite toda comendo-o na m\u00e3o\u201d. A\u00ed retruquei: \u201cP\u00f4, o senhor vem aqui me contar uma hist\u00f3ria dessas? No que ele respondeu: \u201cAh, seu Tom\u00e9. O senhor est\u00e1 na rua e n\u00e3o sabe o sufoco que passo aqui h\u00e1 mais de 20 anos sem ver uma xota! N\u00e3o \u00e9 mole n\u00e3o, seu Tom\u00e9!\u201d.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca ainda n\u00e3o era permitido visitas \u00edntimas ao\u00a0 Pres\u00eddio.<\/p>\n<p><strong>Para ler a PARTE V clique<\/strong> <a href = \"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/10\/31\/historias-de-um-ilheense-3\/\" target = \"_news\"><b>AQUI.<\/b><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Tom\u00e9 Pacheco NO PRES\u00cdDIO CARANDIRU VI Fiquei na Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Carandiru de 1978 a 1982. Neste per\u00edodo houve a troca de diretor, em que saiu o Coronel Guedes e entrou Luis\u00e3o. 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