{"id":5414,"date":"2010-12-28T08:27:39","date_gmt":"2010-12-28T11:27:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=5414"},"modified":"2010-12-28T08:27:39","modified_gmt":"2010-12-28T11:27:39","slug":"para-um-caderninho-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2010\/12\/28\/para-um-caderninho-de-natal\/","title":{"rendered":"Para um caderninho de Natal"},"content":{"rendered":"<p><strong>Urariano Mota *<\/strong><\/p>\n<p>Uma adolescente a quem desoriento em aulas de Portugu\u00eas vem me pedir algumas palavras sobre o Natal. Diante do meu engasgo, ela me diz que qualquer coisa serve, e sinto que ela pensa em acrescentar, \u201cqualquer coisa, at\u00e9 mesmo o que o senhor me diga\u201d. E para n\u00e3o lhe dizer que procure pessoa mais qualificada, come\u00e7o:<\/p>\n<p>\u201cO Natal \u00e9 uma festa comercial, minha filha. \u00c9 a data magna da hipocrisia universal. Nesse dia as pessoas dizem se amar. No Natal, as autoridades, os que t\u00eam boa vida divulgam e querem fazer crer que as diferen\u00e7as acabaram entre os homens. Os ricos de bens materiais ficam subitamente espirituais, e com o est\u00f4mago repleto arrotam que a melhor salva\u00e7\u00e3o \u00e9 a da alma. (E penso, enquanto assim lhe falo, na Pequena Vendedora de F\u00f3sforos, de Andersen, mas minhas palavras n\u00e3o conseguem a gra\u00e7a dessa clarid\u00e3o.) No entanto, voc\u00ea sabe, os ricos continuam humanos em suas mans\u00f5es, e os pobres continuam porcos em seus casebres, no mesmo dia 25. No outro dia, voc\u00ea sabe&#8230; (E penso nos Estranhos Frutos de Billie Holiday, mas minhas palavras n\u00e3o se iluminam com essa luz de negros enforcados em \u00e1rvores no Sul dos Estados Unidos .) O Natal, minha filha &#8230;\u201d.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>E paro. O seu rosto reflete o desagrado de minhas palavras. Quem ensina a adolescentes aprende a ler nos seus olhos, nas suas bocas, o agrado ou a decep\u00e7\u00e3o do que pensa ensinar. Agora, enquanto escrevo, percebo que \u00e9 uma vit\u00f3ria da sociedade de classes a cren\u00e7a em boas fam\u00edlias, em belos pais, em generosos sentimentos, essa coisa resistente at\u00e9 mesmo em pessoas que s\u00f3 conheceram da vida a humilha\u00e7\u00e3o, a patada e os coices. A jovem com quem falo \u00e9 uma adolescente pobre, filha natural, com somente esse adjetivo \u00f3bvio, natural, da natureza, nada mais. Como um fruto da partenog\u00eanese. \u00c0 primeira vista, ela possuiria todas as condi\u00e7\u00f5es para entender o que lhe digo. Mas o seu rosto me faz parar. Sinto o grande mal que lhe causo em procurar ser verdadeiro numa data em que todos pedem e esperam e anseiam que sejamos todos absolutamente falsos. Talvez, reconsidero agora ao escrever, o seu desagrado se d\u00ea porque sou apenas convencional, comum, de um esquerdismo vulgar, quando queria ser verdadeiro como o leite que chupei em minha pr\u00f3pria m\u00e3e. E convencional por convencional melhor seria que eu escrevesse no seu caderninho uma frase do g\u00eanero \u201csejamos durante todo o ano como neste dezembro 25\u201d. Quanta besteira, quanta excresc\u00eancia, quanto excremento!<\/p>\n<p>Por isso eu lhe digo agora esta verdade mais dura, sem bandeira e sem panfleto, com a coragem que s\u00f3 possu\u00edmos \u00e0 dist\u00e2ncia:<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m j\u00e1 acreditei em Natal, minha filha. Antes de saber que os homens se matam e se barbarizam e s\u00e3o feras todos os dias do ano. Antes, bem antes de receber um pontap\u00e9 nas costas, na bunda, de um marujo norte-americano. Sabe o que \u00e9 ser expulso do para\u00edso, do navio, do lugar onde se comia com fartura, sabe o que \u00e9 ser empurrado e n\u00e3o se voltar para n\u00e3o se ver naquele estado de ser jogado fora como um p\u00e1ria, ou como um pus, um catarro? Sabe o que \u00e9 baixar a cabe\u00e7a, morto de vergonha, com medo e com pavor que outros vissem a sua pobre pessoa ser tratada assim aos berros por um marujo ensandecido? Sabe o que \u00e9 chorar e descobrir sozinho pela primeira vez que Deus n\u00e3o existe, porque se existisse n\u00e3o permitiria que jovens cheios de amor e sentimento e poesia fossem chutados como bons filhos da puta que nunca deixaram de ser? Acredite, acreditei no Natal bem antes dessa boa li\u00e7\u00e3o quando eu tinha a sua idade.<\/p>\n<p>Antes disso, minha filha, o Natal para mim foi um par de sapatos, belos, novos e marrons, e bel\u00edssimos e lindos e t\u00e3o perfeitos e art\u00edsticos e caros como uma crian\u00e7a pode sonhar. A minha filha sabe o que \u00e9 ter uns sapatos que vestem a gente at\u00e9 a alma? Pois, eu os ganhei. Quase, melhor dizendo. Porque num dia 25, logo cedinho, eles estavam embaixo da minha cama. N\u00e3o que eu n\u00e3o tivesse sapatos, sim, eu possu\u00eda uns muito velhos, gastos, enrugados, quase sem sola, de cadar\u00e7os desfiados. Pois, eu quase ganhei esses absolutamente novos. Ganhei-os, digamos, at\u00e9 o meio-dia dos meus 7 anos de idade. E para que todos tamb\u00e9m partilhassem da minha alegria, eu os exibi ao sol da minha janela, da casinha onde eu morava. Eu pensava que a felicidade se compartilhava. Eu pensava que a felicidade era um bem imposs\u00edvel de ser vivida por um menino s\u00f3. (E at\u00e9 hoje, \u00e0s vezes, este velho menino teima em pensar assim. Mas s\u00f3 \u00e0s vezes.) Pensava. Roubaram-me o par de sapatos, minha filha, num dia 25 de dezembro. E como o meu pai era um homem de li\u00e7\u00f5es muito fortes e pedag\u00f3gicas, deu-me uma surra pela infelicidade que tive em n\u00e3o ter o par de sapatos. Da\u00ed talvez me veio esse ar de homem que despreza a felicidade. Esta \u00e9 a raz\u00e3o, mocinha: ficou em mim a sensa\u00e7\u00e3o de que a felicidade \u00e9 um bem que me v\u00e3o roubar. Da\u00ed que dela desconfio, quando dela n\u00e3o tomo segura dist\u00e2ncia. N\u00e3o ter felicidade \u00e9 uma forma de sofrer somente um pouquinho.<\/p>\n<p>A minha filha j\u00e1 v\u00ea que eu n\u00e3o lhe poderia dizer tais verdades para um dia de tamanha fraternidade. Ent\u00e3o anote, por favor, no seu caderninho esta meia-verdade:<\/p>\n<p>O Natal \u00e9 a esperan\u00e7a de que algum dia em algum lugar um menino v\u00e1 receber um par de sapatos marrons e vesti-los at\u00e9 a alma. Antes que alcance a sua idade, mocinha, antes que receba alguns sapatos pelas costas.<\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\n* Autor de \u201cOs Cora\u00e7\u00f5es Futuristas\u201d e de \u201cSoledad no Recife\u201d, que recria os \u00faltimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, executada por Fleury com o aux\u00edlio do traidor. <\/p>\n<p><a href = \"http:\/\/www.vermelho.org.br\/coluna.php?id_coluna=93&#038;id_coluna_texto=3711\" target = \"_news\"><b>Vermelho<\/b><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Urariano Mota * Uma adolescente a quem desoriento em aulas de Portugu\u00eas vem me pedir algumas palavras sobre o Natal. Diante do meu engasgo, ela me diz que qualquer coisa serve, e sinto que ela pensa em acrescentar, \u201cqualquer coisa, at\u00e9 mesmo o que o senhor me diga\u201d. 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