{"id":55809,"date":"2012-12-20T11:13:14","date_gmt":"2012-12-20T14:13:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=55809"},"modified":"2012-12-20T11:13:14","modified_gmt":"2012-12-20T14:13:14","slug":"natal-com-drummond-e-valdelice","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2012\/12\/20\/natal-com-drummond-e-valdelice\/","title":{"rendered":"Natal com Drummond e Valdelice"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por<\/strong> <strong>Cyro de Mattos<\/strong><\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/CYRO-DE-MATTOS-PERSONALIZADO1_56.jpg\" width=\"200\" height=\"269\" \/>H\u00e1 tempos venho enviando em dezembro para pessoas de meu c\u00edrculo afetivo, parentes, amigos e escritores, \u00a0minha mensagem de Natal acompanhada de um \u00a0poema. Penso que j\u00e1 decorreram mais de trinta anos quando fiz o primeiro poema motivado pelo Natal com essa inten\u00e7\u00e3o. \u00a0Lembro do primeiro poema que enviei. \u00a0<i>Manjedoura \u2013 O que mais encanta\/ \u00e9 acontecer o menino\/ nas migalhas\/ deste ch\u00e3o sonoro\/ e ganhar gr\u00e3os azuis\/ na manjedoura dos ares. <\/i><\/p>\n<p>Certa vez ousei enviar para o poeta Carlos Drummond de Andrade a mensagem com \u00a0um desses poemas. \u00a0Era um soneto, um pobre soneto, com versos de cinco s\u00edlabas, que contava a alegria de bichos e gente com o nascimento do menino pobre nas palhas, \u00a0\u00a0que depois viria ser o bem-amado salvador da humanidade. Assim era o sonetinho: <i>Historinha do Menino Jesus &#8211; O galo cantou,\/ A vaca mugiu, \/ O burro zurrou,\/ A ovelha baliu.\/\/ A rosa acordou, \/ O peixe sorriu, \/ A cabra contou\/ Que a cobra sumiu.\/\/ Foi tanto bal\u00e3o\/ que subiu ao c\u00e9u,\/ Foi tanta can\u00e7\u00e3o\/\/ Que ventou ao l\u00e9u\/ Que at\u00e9 hoje luz\/ Do menino a cruz.\u00a0 <\/i><\/p>\n<p>N\u00e3o demorou, um milagre aconteceu quando recebi do poeta Carlos Drumonnd de Andrade, como retribui\u00e7\u00e3o \u00e0 minha mensagem de Natal, o poemeto seguinte: <i>A Cyro de Mattos no Natal \u2013 Uma not\u00edcia irrompe desta \u00e1rvore\/ e ganha o mundo: verde an\u00fancio eterno\/ Certo invis\u00edvel p\u00e1ssaro presente\/ murmura uma esperan\u00e7a a teu ouvido<\/i>. Depois de receber esse rico presente de um poeta grand\u00e3o, de minha predile\u00e7\u00e3o, que poderia um \u00a0poeta sem express\u00e3o, desconhecido, morando e vivendo no interior da Bahia, querer mais naquele Natal?<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O poema de quatro versos do trivial l\u00edrico de Itabira, com suas ondas cheias de ternura, dava-me a mesma sensa\u00e7\u00e3o que tive quando era menino e acreditava em Papai\u00a0 Noel. Como at\u00e9 hoje acredito, n\u00e3o sorria, faz favor. Recebi naquele Natal que j\u00e1 vai muito longe como presente do bom velhinho uma bola de couro, que encontrei no outro dia pelo amanhecer sobre meu par de sapatos. Era o que mais queria, aquela bola de couro,\u00a0 para jogar futebol com meus queridos amigos nos campinhos improvisados dos terrenos baldios. Atordoado, n\u00e3o sabia, naquele instante,\u00a0 se o presente que me chegava do c\u00e9u por encanto, \u00a0com uma bola de couro, novinha,\u00a0 era sonho ou verdade. Neste caso, eu havia feito um bilhete a Papai Noel pedindo para que\u00a0 ele me desse no Natal a bola de couro e fui atendido naquilo que tanto desejava. No caso dos versos de Carlos Drummond de Andrade, \u00a0chegou-me aquele presente de um cora\u00e7\u00e3o l\u00edrico como era o do nosso poeta maior,\u00a0 sem eu nada lhe ter pedido. Sustos espl\u00eandidos do Natal aqueles, \u00a0\u00a0quer num caso, quer no outro.<\/p>\n<p>Transcorridos dez anos, dei conta que j\u00e1 havia enviado a cada dezembro para as pessoas um conjunto de dez poemas inspirados no Natal. Resolvi reunir e \u00a0publicar os poemas no pequeno livro <i>Natal Permanente,<\/i> que teve ilustra\u00e7\u00f5es de Calasans Neto e o selo\u00a0 das Edi\u00e7\u00f5es Macuna\u00edma, de Salvador. Naquele dezembro de 1986, enviei para as pessoas \u00a0esse pequeno livro, ao inv\u00e9s de um novo poema com tema do Natal, como eu vinha fazendo. Uma das surpresas agrad\u00e1veis que tive foi quando recebi da poetisa Valdelice Soares Pinheiro uma pequena carta agradecendo o envio do meu pequeno livro.<\/p>\n<p>Ela me dizia que <i>Natal Permanente<\/i> lembrava-lhe \u201c fonte, peixe e Comunh\u00e3o\u201d, fazendo-a sentir \u00a0\u201cnesse caminho\u00a0 por onde os homens\u00a0 deveriam\u00a0\u00a0 passar colhendo mel, preparando o p\u00e3o\u201d. Observava: \u201cTraz-me a alegria de descobrir que sou cavalo, viagem, travessia desse menino, esse distante, mas ainda agora menino, que um dia, trinta e tr\u00eas anos depois, pregado em uma cruz, sonhou a luz dos homens, despregando, de seus bra\u00e7os doloridos, o amor e o perd\u00e3o para a compreens\u00e3o de sua presen\u00e7a de Pai e Filho, que, em um s\u00f3, queria criar o Reino da Paz no Esp\u00edrito Santo\u201d. A certa altura, tomando emprestados alguns dos meus versos, ela perguntava: \u201cTer\u00e3o os homens entendido <i>essas proezas numa s\u00f3 mesa de todas as m\u00e3os<\/i>?\u201d At\u00e9 hoje vou aos meus guardados e busco a carta da conterr\u00e2nea Valdelice Soares Pinheiro. Fico comovido quando a leio na \u00e9poca do Natal. Ela termina por me dizer \u00a0que meu pequeno livro,\u00a0 \u00a0al\u00e9m de estend\u00ea-la na consci\u00eancia de n\u00e3o solid\u00e3o, \u201cme trouxe de volta a crian\u00e7a que um dia, queira ou n\u00e3o queira, a gente pensa que perde\u201d.<\/p>\n<p><i>Natal Permanente<\/i>\u00a0 \u00e9 o mesmo livrinho que hoje se chama <i>Orat\u00f3rio de Natal,<\/i>\u00a0 publicado pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural da Bahia,\u00a0 acrescido de mais dez poemas. Na sua segunda edi\u00e7\u00e3o, ganhar\u00e1 mais cinco poemas in\u00e9ditos, e aquelas ilustra\u00e7\u00f5es, singelas, lindas de ver, \u00a0do desenhista baiano (de Ibicara\u00ed) \u00c2ngelo Roberto. Para que a vida seja\u00a0 sempre verde como na campina.\u00a0 Para que a vida seja sempre mansa como na colina. Para que a vida como a do menino dormindo no pres\u00e9pio seja sempre amiga e no meu peito cres\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>*Cyro de Mattos \u00e9 autor premiado no Brasil, Portugal, It\u00e1lia e M\u00e9xico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Cyro de Mattos H\u00e1 tempos venho enviando em dezembro para pessoas de meu c\u00edrculo afetivo, parentes, amigos e escritores, \u00a0minha mensagem de Natal acompanhada de um \u00a0poema. 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