{"id":58350,"date":"2013-02-05T11:08:44","date_gmt":"2013-02-05T14:08:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=58350"},"modified":"2013-02-05T11:08:44","modified_gmt":"2013-02-05T14:08:44","slug":"a-poesia-espiritual-de-alfredo-perez-alencart","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2013\/02\/05\/a-poesia-espiritual-de-alfredo-perez-alencart\/","title":{"rendered":"A Poesia Espiritual de Alfredo P\u00e9rez Alencart"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <b>Cyro de Mattos<\/b><\/p>\n<p>\u00a0<img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/CYRO-DE-MATTOS-PERSONALIZADO1_56.jpg\" width=\"200\" height=\"269\" \/>O poeta Alfredo P\u00e9rez Alencart\u00a0 nasceu em Puerto Maldonado, Peru (1962), mas est\u00e1 radicado h\u00e1 anos\u00a0 em\u00a0 Salamanca, Espanha, onde \u00e9 professor universit\u00e1rio desde 1987. Tradutor e ensa\u00edsta. Membro da Academia Castelhana e Leonesa da Poesia. Recebeu, pelo conjunto da obra, o Pr\u00eamio\u00a0 Internacional de Poesia Medalha Vicente Gerbasi, do C\u00edrculo de Escritores de Venezuela, e o Pr\u00eamio de Poesia Juan Ba\u00f1os, de Valadoli. .<br \/>\nComo poeta publicou\u00a0 <i>\u00a0La voluntad enhechizada<\/i>\u00a0 (2001),\u00a0 <i>\u00a0Madre selva<\/i>\u00a0 (2002), <i>\u00a0Ofrendas al tercer hijo de Amparo Bidon<\/i>\u00a0 (2003), <i>\u00a0P\u00e1jaros bajo la piel del alma<\/i>\u00a0 (2006), <i>\u00a0Hombres trabajando<\/i>\u00a0 (2007), <i>\u00a0Cristo del alma<\/i>\u00a0 (2009), <i>\u00a0Estaci\u00f3n de las tormentas<\/i>\u00a0 (2009), <i>\u00a0Savia de las Ant\u00edpodas<\/i>\u00a0 ( 2009), <i>Aqu\u00ed hago justitia<\/i> (2010) e <i>Cartografia de las revelaciones <\/i>(2011). Sua poes\u00eda tem sido traduzida para o portugu\u00e9s, alem\u00e3o, ingl\u00eas, russo, italiano, franc\u00eas e outros idiomas.<\/p>\n<p>Teve publicado no Brasil, em 2011, o livro <i>Cristo da alma <\/i>(1), com tradu\u00e7\u00e3o\u00a0 e pref\u00e1cio de\u00a0 Cl\u00e1udio Aguiar, posf\u00e1cio de Carlos Nejar. A obra \u00e9 dividida em\u00a0 duas partes. A primeira,\u00a0 Tenho Deus, comp\u00f5e-se de\u00a0 Em Nome do Filho, Em Nome do Pai e Em Nome do Esp\u00edrito. A segunda,\u00a0 Crist\u00e3os de Todos os Lugares, comp\u00f5e-se de\u00a0 Ocupa\u00e7\u00e3o do Reino e Certificando a Partida. No final do livro h\u00e1 um poema no qual o poeta adverte: \u201cHavia que disolver toda mazela\/ enaltecida \u00e0s v\u00e3s soberbas\/ou sobre m\u00e1scaras cheias de impiedade\u201d.<\/p>\n<p>Na primeira parte como na segunda o poeta utiliza dez versos para cada poema.\u00a0 A linguagem arma-se de met\u00e1foras, entona\u00e7\u00e3o b\u00edblica, reflex\u00f5es e alus\u00f5es para a\u00a0 abordagem do tema suscitado: a corrente do existir em Cristo pulsando na alma ante a prec\u00e1ria\u00a0 realidade da humanidade, A\u00a0 dic\u00e7\u00e3o poderosa que emerge\u00a0 desses poemas de forte fulgura\u00e7\u00e3o espiritual \u00e9 formada de versos agudos, alguns com a fei\u00e7\u00e3o de vers\u00edculos,\u00a0 para expressar com firmeza\u00a0 as tramas do mist\u00e9rio e seus un\u00e2nimes exemplos, numa travessia capaz de\u00a0 sangrar pela abund\u00e2ncia do caos.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Trata-se de um poeta de pulso, embora saiba que\u00a0 precisa ser humilde para saldar dois mil anos de todo o peso terrestre, finitudes e contradi\u00e7\u00f5es, domina\u00e7\u00f5es e desigualdades. Quitar o amor desviado das v\u00edas da ternura que se deixaram conectadas ao nosso destino cravado na desuni\u00e3o, no desterro, nas rinhas\u00a0 de Caim e Abel. O poeta, nesse per\u00edodo t\u00e3o extenso,\u00a0 d\u00e1 palavra ao sonho e se faz\u00a0 testemunho de nossa hist\u00f3ria escrita \u00e0s avessas,\u00a0 mais para os escombros, as derrotas da alegr\u00eda, do que para o canto puro dos passarinhos\u00a0 modulado pela \u201cfrondosidade de Deus no cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 nesse <i>Cristo da alma,<\/i> centrado na essencialidade espiritual da humanidade e seu destino marcado de err\u00e2ncias, a leg\u00edtima indigna\u00e7\u00e3o do poeta direcionado ao sofrimento dos pobres, contr\u00e1rio \u00e0s \u201cnarc\u00f3ticas bonan\u00e7as dos que exibem seu desmando, cegos de vista e duros de cora\u00e7\u00e3o\u201d. A solicita\u00e7\u00e3o do poeta neste sentido \u00e9 para engendrar em sua alma\u00a0 toda a justi\u00e7a: \u201cVem, Esp\u00edrito do Cristo, e refaz-me conforme teu evangelho que n\u00e3o \u00e9 sopro estranho mas b\u00ean\u00e7\u00e3o e desafio, suave fragor \u00e0 intemperie onde estivemos e estamos cantando vit\u00f3ria contra dem\u00eancias que danificam a Terra: passei a\u00a0 ver-te em sonhos, naquele encontr\u00f3 que imp\u00f5e seu calibre sem a ferrugem dos cravos\u201d. Acrescente-se sem o lenho, o l\u00e1tego, o cuspe e o espinho,\u00a0\u00a0 mas naquele\u00a0 amor que\u00a0 nos foi retribu\u00eddo pelo sangue derramado:\u00a0 beijos e flores.<\/p>\n<p>Os poemas de <i>Cristo\u00a0 da alma<\/i>, com suas met\u00e1foras profundas, nos fazem meditar ao som do cora\u00e7\u00e3o sobre o profeta dos exclu\u00eddos, o revolucion\u00e1rio de linguagem\u00a0 com palavras cheias de verdades eternas, o irm\u00e3o que nos d\u00e1 a m\u00e3o na solid\u00e3o, a b\u00fassola certa na vastid\u00e3o, a \u00e2ncora na escurid\u00e3o. Diante de poes\u00eda t\u00e3o entranhada em cren\u00e7a fervorosa, tecida na voz que externa sentimentos com assombrosas paragens, \u201cpois a f\u00e9 n\u00e3o deve atar-se com arames nem se cal\u00e7ar com p\u00e9s de trapo onde reina a penumbra\u201d, considera-se o quanto viemos h\u00e1 dois milenios sem querer\u00a0 o bra\u00e7o ao abra\u00e7o, as m\u00e3os nas m\u00e3os para que a vida seja mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p>De fato,\u00a0 passados tantos s\u00e9culos, n\u00e3o nos envergonhamos de nossas trai\u00e7\u00f5es, vaidades e ego\u00edsmos. A figura que o poeta ergue, neste <i>Cristo da alma<\/i>,\u00a0\u00a0 n\u00e3o tem o intuito de manifestar-se em densa prosa po\u00e9tica para ferir encobertos objetivos, suscitando uma\u00a0 doutrina ungida muitas vezes em perfumes simuladores de esperan\u00e7as e loucuras dos que n\u00e3o veem mais al\u00e9m\u00a0 e seguem destitu\u00eddos do milagre da alvorada que resvala nos famintos.\u00a0 Esta fraternidade fidedgina e condigna do aut\u00eantico poeta que conversa com Deus, presente na perpetuidade revivida no atrito ou numa\u00a0 car\u00edcia, comove, toca-nos com esse Cristo\u00a0 doador de ra\u00e7\u00f5es e sonhos.<\/p>\n<p>Exsurge pelo olho azul que ilumina o n\u00e3o vis\u00edvel, e que\u00a0 faz transparecer epifan\u00edas fundamentais como o amanhecer, na solid\u00e1ria solid\u00e3o de um\u00a0 vate anunciador de um discurso solu\u00e7ante, calcado em impress\u00f5es que soam absurdas, mas que tamb\u00e9m falam de sossego.\u00a0 O\u00a0 poeta propaga seus versos nesta\u00a0 estranha irmandade, \u201cn\u00e3o de sangue, mas, sim, de vida\u201d, sempre a crescer como\u00a0 v\u00ednculo de gravidade, do Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo. Perpassa com alento sua mensagem nesse livro que atordoa com suas esferas retocadas do infinito e, ao mesmo tempo,\u00a0 pontilhadas do nosso sofrido estar no mundo.<\/p>\n<p>Sem lamenta\u00e7\u00f5es vulgares,\u00a0\u00a0 este livro de Alfredo P\u00e9rez Alencart\u00a0 alista-se\u00a0 na linhagem dos intensos textos de poetas que conversaram com Deus, \u00edntimos do seu afeto e compreens\u00e3o.\u00a0 Se a poes\u00eda n\u00e3o resolve problemas econ\u00f4micos, pol\u00edticos, sociais, religiosos, em <i>Cristo da alma<\/i> mais uma vez det\u00e9m o tempo para faz\u00ea-lo ressurgir\u00a0 na trajet\u00f3ria existencial dos seres humanos como generosa chama que emana\u00a0 do Ser,\u00a0 ilumina a hora dos fatos. Momentos que passariam despercebidos, em suas atitudes on\u00edricas e de grandeza,\u00a0 n\u00e3o fosse ela, Poesia, feita de\u00a0 raz\u00e3o criativa,\u00a0 penetrada de linguagem condensada com ricas significa\u00e7\u00f5es, a inaugurar novos sentidos do mundo.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem acredite, como Dostoievski, que a Arte salvar\u00e1 o mundo. \u00c9 caminho\u00a0 para os homens se encontrarem na uni\u00e3o geral e se descobrirem que a\u00a0 raz\u00e3o e a emo\u00e7\u00e3o s\u00e3o os pontos nodais que, desatados, podem se fazer decisivos para nos tornar irm\u00e3os de verdade,\u00a0 sem que se cobre nada por isso. .N\u00e3o \u00e9 preciso ser crist\u00e3o para saber que sem o Amor o s\u00edmio dissemina seu gesto compulsivo em nosso destino greg\u00e1rio. Perdura na solid\u00e3o feita de sombras pessoais, na solid\u00e3o em familia, na solid\u00e3o em\u00a0 multid\u00e3o. Onde quer que estejamos haver\u00e1 sempre um perto do outro e, ao mesmo tempo longe.<\/p>\n<p>O porvir cheio de prod\u00edgios, o p\u00e3o eterno do amor, feito das altas manh\u00e3s e tardes, que se reconciliam com a p\u00e9rfida pe\u00e7onha, como alude o poeta, \u00e9 o que\u00a0 Cristo, o bem-amado salvador da humanidade, filho de Deus, prop\u00f4s\u00a0 quando veio a este vale de dores para\u00a0\u00a0 plantar cirandas no deserto,\u00a0\u00a0\u00a0 can\u00e7\u00f5es de inf\u00e2ncia,\u00a0 onde h\u00e1 ceia para todos, agua boa que mata nossa sede no bebedouro da vida. S\u00f3 assim,\u00a0 operada no milagre da comunh\u00e3o, a vida\u00a0 \u00e9 poss\u00edvel, sem atropelos e sobressaltos.Nas veias e v\u00edas da ternura basta-se sem enganos, matan\u00e7as da maravilha com uns dedos de metralha, de tal sorte\u00a0 inconceb\u00edvel, reproduzindo a fera\u00a0 da antiga caverna para galopar nas trevas. Sem permitir a\u00a0 tr\u00e9gua, banindo a pomba na l\u00e9gua, s\u00f3 querendo mesmo como designio o imp\u00e9rio da selva, como se o amor fosse o in\u00fatil e o absurdo, e n\u00e3o\u00a0 a relva.<\/p>\n<p>Doendo-se do puro desejo de fazer pulsar em si e no outro o Cristo na alma,\u00a0 o poeta Alfredo P\u00e9rez Alencart, op\u00f5e-se\u00a0 \u00e0 hipocrisia sob quaisquer aspectos.\u00a0 Depreende-se de seus\u00a0 versos pungentes que a poes\u00eda n\u00e3o \u00e9\u00a0 feita para ser c\u00famplice dos interesses dos que est\u00e3o no comando da vida prenhe de necesidades materiais. \u00c8 casa ampla, cuja arquitetura participa do seu tempo, mesmo que\u00a0 a planta e as\u00a0 divis\u00f5es dessa constru\u00e7\u00e3o procedam\u00a0 de uma hist\u00f3ria escrita h\u00e1 mil\u00eanios.<\/p>\n<p>Esta casa, erguida pelo Cristo na alma sensitiva e reflexiva do poeta, \u00e9 banhada\u00a0 pela luz da fraternidade,\u00a0 ventilada pela brisa dos milagres onde ramagens estendem-se atrav\u00e9s da esperan\u00e7a pendoada sob o calor do amor. Por toda a extens\u00e3o do esp\u00edrito abriga\u00a0 essas\u00a0 causas e raz\u00f5es, intui\u00e7\u00f5es e ideais, na clave de quem abre portas e janelas para situa\u00e7\u00f5es que ao primeiro encontro parecem desgarradas do fragor suave da car\u00edcia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1-\u00a0 \u201cCristo da Alma\u201d, Alfredo P\u00e9rez Alencart, Edi\u00e7\u00f5es Galo Branco,\u00a0 Rio de Janeiro, 2011.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cyro de Mattos \u00a0O poeta Alfredo P\u00e9rez Alencart\u00a0 nasceu em Puerto Maldonado, Peru (1962), mas est\u00e1 radicado h\u00e1 anos\u00a0 em\u00a0 Salamanca, Espanha, onde \u00e9 professor universit\u00e1rio desde 1987. Tradutor e ensa\u00edsta. Membro da Academia Castelhana e Leonesa da Poesia. 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