{"id":58785,"date":"2013-02-13T17:19:55","date_gmt":"2013-02-13T20:19:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=58785"},"modified":"2013-02-13T17:19:55","modified_gmt":"2013-02-13T20:19:55","slug":"um-grapiuna-em-frankfurt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2013\/02\/13\/um-grapiuna-em-frankfurt\/","title":{"rendered":"Um Grapi\u00fana em Frankfurt"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b><em><strong>por Cyro de Mattos<\/strong><\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/CYRO-DE-MATTOS-PERSONALIZADO1_56.jpg\" width=\"200\" height=\"269\" \/>Para quem n\u00e3o sabe, grapi\u00fana \u00e9\u00a0 palavra de origem ind\u00edgena. Usada pelos \u00edndios do Sul da Bahia, no in\u00edcio da conquista da terra, significava pequena ave preta que vive \u00e0s margens do rio.\u00a0 Os meninos de minha cidade chamavam essa ave de \u201cviuvinha\u201d porque tinha o pequeno corpo\u00a0 coberto de penas pretas. Mas h\u00e1 quem ache que grapi\u00fana tem sua origem na express\u00e3o\u00a0 \u201cigarap\u00e9-una\u201d, que quer dizer riacho preto. Este\u00a0 pequeno curso d\u2019\u00e1gua era muito encontrado antigamente nas fazendas de cacau e nas matas do Sul da Bahia.<\/p>\n<p>Perdendo a vogal inicial, grapi\u00fana passou a significar os que vieram para o Sul da Bahia no per\u00edodo do desbravamento e povoamento. Grapi\u00fana assim diz respeito a uma civiliza\u00e7\u00e3o forjada por homens simples. Com o machado e o fac\u00e3o na bainha foram derrubando\u00a0 as matas, penetrando a selva hostil, fundando vilas e pequenas cidades. Com o passar dos anos estabeleceram uma civiliza\u00e7\u00e3o com sua forma singular de vida, proveniente da implanta\u00e7\u00e3o da\u00a0 lavoura do cacau por l\u00e9guas e l\u00e9guas de terras f\u00e9rteis.<\/p>\n<p>Eu nasci neste ch\u00e3o grapi\u00fana, cresci respirando o cheiro do cacau, correndo com os outros meninos nas manh\u00e3s e tardes desse\u00a0 mundo, que trago dentro de mim e amo.<\/p>\n<p>Meu livro <i>Vinte poemas do rio e outros poemas<\/i> foi traduzido para\u00a0 o alem\u00e3o por\u00a0 Curt Meyer-Clason. A editora Projekte-Verlag, de Halle,\u00a0 reservou-me espa\u00e7o para em seu stand participar de uma tarde de aut\u00f3grafos na Feira do Livro de Frankfurt. O pa\u00eds\u00a0 que seria homenageado na Feira do Livro de Frankfurt em 2010\u00a0 era a Argentina. Confiando em meu ingl\u00eas que dava para o gasto corriqueiro, permitindo que eu n\u00e3o passasse fome, tomei \u00e2nimo e fui participar da Feira do Livro de Frankfurt, considerada como o maior encontro mundial no setor editorial.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A companhia a\u00e9rea em que viajei era portuguesa. Isso fez que eu me sentisse em casa, durante o voo, do Rio de Janeiro\u00a0 at\u00e9 Frankfurt. A maioria dos passageiros era constitu\u00edda de brasileiros e portugueses. Descobri que o homem da cadeira ao meu lado tinha nascido e vivia em Frankfurt. Veio ao Brasil em viagem de turismo. No in\u00edcio tentei me comunicar com ele em ingl\u00eas,\u00a0 mas s\u00f3 foi poss\u00edvel mesmo em portugu\u00eas e com dificuldade. Ele n\u00e3o falava ingl\u00eas, mas aprendera a dizer algumas frases em\u00a0 portugu\u00eas durante os dias que\u00a0 passou no Brasil.<\/p>\n<p>Quando desembarquei em Frankfurt, logo fiquei assustado com o tamanho do aeroporto e o grande movimento de pessoas, vindas de muitos pa\u00edses deste planeta. Tudo ali era grande e incalcul\u00e1vel. O Terminal 1 e o Terminal 2. A quantidade de vagas para autom\u00f3veis em cada terminal.\u00a0 O n\u00famero de passageiros com seus destinos, rumo aos seus pa\u00edses. A quantidade de\u00a0 funcion\u00e1rios das companhias e do pr\u00f3prio aeroporto.\u00a0 O volume da carga. Grandes avi\u00f5es\u00a0 decolando e aterrissando, a todo instante. Jumbos,\u00a0 Boeings 747, Airbus\u00a0 A380.<\/p>\n<p>Sabia que Frankfurt tinha o terceiro aeroporto da Europa e o nono do mundo. N\u00e3o podia imaginar que fosse t\u00e3o imenso e nele uma babel sem limites ressoasse como\u00a0 uma colmeia humana absurda. Segui atento,\u00a0 acompanhando os passageiros que vieram do Brasil no voo que eu tamb\u00e9m estava. Eles andavam ligeiros, aos grupos, eu no meio deles. Pressentia que se dirigiam para os guich\u00eas onde receberiam o visto de desembarque no passaporte. E depois iriam para as esteiras rolantes onde tirariam suas bagagens.<\/p>\n<p>Depois que sa\u00ed da\u00a0 escada rolante, procurei ver onde ficavam as\u00a0 esteiras rolantes com as bagagens dos passageiros\u00a0 no pavimento inferior. Com tantas esteiras que n\u00e3o paravam de rolar com as bagagens,\u00a0 senti que ia passar por um vexame:\u00a0 sem saber em qual delas viria\u00a0 a minha. Os minutos iam passando, as bagagens rodando nas esteiras como num carrossel. A certa altura comecei a temer em n\u00e3o achar a minha. Teria sido extraviada? Aliviei-me\u00a0 da tens\u00e3o que aquela situa\u00e7\u00e3o nada\u00a0 agrad\u00e1vel causava-me quando avistei\u00a0 o homem alem\u00e3o, que viajou na poltrona ao meu lado. Fui at\u00e9 ele. Falando devagar, procurei fazer que se inteirasse de minha situa\u00e7\u00e3o naquele instante nada tranqulizador. Depois de insistir falando para que ele entendesse o que eu estava querendo,\u00a0 finalmente compreendeu. Mostrou-me a esteira rolante\u00a0 na qual eu encontraria minha bagagem.<\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b>O presidente do Centro Cultural Brasileiro, Carlos Frederico Graf, um homem alto e forte, brasileiro de pais alem\u00e3es, que residiram no Brasil durante muito tempo<b>, <\/b>esperava-me l\u00e1 fora, no setor de desembarque. Sustentava um cartaz com o meu nome. Ele ia me levar at\u00e9 o hotel onde eu ficaria hospedado. Perguntou-me por que demorei tanto,\u00a0 pensava que eu tivesse perdido o voo.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 estava para ir embora \u2013 disse.<\/p>\n<p>Pedi a ele desculpas\u00a0 pelo transtorno que havia causado,\u00a0 fazendo com que\u00a0 esperasse tanto tempo por mim, um grapi\u00fana que n\u00e3o tinha costume de viajar para o estrangeiro, principalmente desembarcar em um aeroporto t\u00e3o enorme, com uma popula\u00e7\u00e3o flutuante maior do que a fixa de muitas cidades no interior baiano. Logo ele quis saber o que significava grapi\u00fana.<\/p>\n<p>Depois que lhe expliquei\u00a0 o que\u00a0 significava a palavra grapi\u00fana, no carro que ele mesmo dirigia, adiantou que eu ia ficar hospedado no Lloyed Hotel, cuja propriet\u00e1ria era a brasileira Antonia Dimitruka, casada com um iraniano. \u201cFica localizado na Heidelberger Strass 3, nas proximidades do rio Meno\u201d, ele disse. Durante a viagem at\u00e9 chegar ao hotel, ficamos conversando sobre fatos de corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtico que tinham abalado recentemente os brasileiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 por Cyro de Mattos Para quem n\u00e3o sabe, grapi\u00fana \u00e9\u00a0 palavra de origem ind\u00edgena. 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