{"id":60930,"date":"2013-03-16T08:52:18","date_gmt":"2013-03-16T11:52:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=60930"},"modified":"2013-03-16T08:52:18","modified_gmt":"2013-03-16T11:52:18","slug":"o-poeta-menelau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2013\/03\/16\/o-poeta-menelau\/","title":{"rendered":"O Poeta Menelau"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>por\u00a0 Cyro de Mattos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/CYRO-DE-MATTOS-PERSONALIZADO1_56.jpg\" width=\"200\" height=\"269\" \/> Ainda n\u00e3o conhecia o fundador da Confraria dos Poetas de Burundanga. Exercia o mandato de presidente pela d\u00e9cima vez, sempre eleito por aclama\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m com ele a regra era seguida \u00e0 risca, s\u00f3 era poeta quem pertencesse ao ilustre quadro de membros efetivos da confraria.\u00a0 Quem n\u00e3o tivesse o salvo-conduto, n\u00e3o imaginasse ser considerado como um verdadeiro poeta.<\/p>\n<p>Era de estatura pequena, pesco\u00e7o grosso, cabe\u00e7a grande. Dentu\u00e7o e nervoso. Tinha o sestro de sacudir a cabe\u00e7a v\u00e1rias vezes quando estava dizendo um poema. Era amigo do prefeito, para quem\u00a0 dedicava sempre dois ou tr\u00eas poemas no dia de seu anivers\u00e1rio. Assinava uma coluna no Di\u00e1rio da Burundanga onda comentava livros de poesia, apenas os volumes dos confrades. Contente, ali era um espa\u00e7o ideal para publicar seus coment\u00e1rios liter\u00e1rios ou\u00a0 poesia de dez a vinte estrofes. O que n\u00e3o deixava de ser uma boa oportunidade para disseminar sua gl\u00f3ria, quase dizia vaidade, mas isso n\u00e3o calhava com seus brios de poeta talentoso, segundo ele.<\/p>\n<p>Gostava muito de fazer poemas longos, curtos s\u00f3 os de circunst\u00e2ncia. Detestava o hai-cai, coisa insignificante, de poeta minimalista, sem inspira\u00e7\u00e3o, habilidade no estro, alienado, cultor de f\u00f3rmulas orientais para\u00a0 compor o verso. De outras gentes que nada tinham a ver com a magn\u00edfica poesia cultivada por ele e os poucos leitores, que eram os mesmos integrantes da confraria. .<\/p>\n<p>Quando se dirigisse a ele, s\u00f3 admitia que fosse chamado\u00a0 poet\u00e3o Menelau. V\u00e1 l\u00e1, poetastro, nada de poeta ou poetinha, isso n\u00e3o condizia com a grandeza de seu estro, que tinha como marca supimpa as rimas mais instigantes. Por exemplo, cora\u00e7\u00e3o com mam\u00e3o, tesouro com besouro, presepada com batucada, cachoeira com besteira, fac\u00e3o \u00a0com anuncia\u00e7\u00e3o, porrete com macete, camaradagem com garagem, alegria com pirataria, chul\u00e9 com bicho do p\u00e9.<\/p>\n<p>Estava abastecendo o carro com gasolina no posto. De s\u00fabito apareceu aquela cabe\u00e7a grande na janela do motorista, os olhos rutilantes como se quisessem saltar do rosto ossudo.<\/p>\n<p>Disse com entusiasmo:<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 Soube que voc\u00ea publicou um livro de poesia na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Sim \u2013 eu disse.<\/p>\n<p>Emendou sem pestanejar:<\/p>\n<p>&#8211; Mas isso n\u00e3o \u00e9 a gl\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 trunfo para se achar \u00a0um verdadeiro poeta.<\/p>\n<p>Meio assustado, disse que a gl\u00f3ria n\u00e3o me preocupava. A imortalidade era uma f\u00f3rmula usada pelos membros de uma academia.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea precisa aparecer l\u00e1 na confraria dos poetas da terra, retornou e insistiu na lembran\u00e7a. &#8211; Precisa se filiar ao grupo. Se n\u00e3o tiver em nosso meio, nem se considere poeta.<\/p>\n<p>E recitou o que ele chamava do mais recente poema de sua imbat\u00edvel inspira\u00e7\u00e3o. Uma zorra com versos que rimavam cora\u00e7\u00e3o com cheiro de manjeric\u00e3o, pele morena com embriaguez serena, e por a\u00ed seguia. Informou que os versos candentes desse poema ou o que fosse l\u00e1 o que fosse tinha inspira\u00e7\u00e3o na sua bela Aurora, mulher, \u00a0companheira e eterna musa.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 Quer ouvir outro poema?<\/p>\n<p>Comecei a suar, apressando-me\u00a0 em ligar o carro para\u00a0 me livrar das investidas po\u00e9ticas do Menelau. \u00a0Para sorte minha, ouvi o frentista dizer, no outro lado,\u00a0 para que ele tirasse seu carro, que o tanque j\u00e1 estava cheio. Ele n\u00e3o deu ouvido. Come\u00e7ou a dizer outro poema, apesar de meu conselho para que fosse tirar o seu carro, o frentista j\u00e1 estava irritado de tanto pedir isso, tinha gente na fila querendo abastecer o ve\u00edculo. \u00a0Foi o que me salvou. O poeta Menelau, o grande, antes que me esque\u00e7a, saiu chateado com aquela inconveniente interrup\u00e7\u00e3o \u00e0 sua elevada dic\u00e7\u00e3o para soltar a verve,\u00a0 que emergia, naquele instante, do encontro n\u00e3o marcado com um simples fazedor de versos.<\/p>\n<p>O poeta Menelau ainda lembrou antes de sair:<\/p>\n<p>&#8211; Apare\u00e7a l\u00e1 na confraria dos poetas.<\/p>\n<p>E arrematou com o peito cheio e cabe\u00e7a nervosa:<\/p>\n<p>&#8211; Junte-se a n\u00f3s e v\u00e1 em frente como um verdadeiro poeta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por\u00a0 Cyro de Mattos \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ainda n\u00e3o conhecia o fundador da Confraria dos Poetas de Burundanga. Exercia o mandato de presidente pela d\u00e9cima vez, sempre eleito por aclama\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m com ele a regra era seguida \u00e0 risca, s\u00f3 era poeta quem pertencesse ao ilustre quadro de membros efetivos da confraria.\u00a0 Quem n\u00e3o tivesse o salvo-conduto, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60930"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60930"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60930\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":60932,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60930\/revisions\/60932"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}