{"id":62522,"date":"2013-04-05T18:18:01","date_gmt":"2013-04-05T21:18:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=62522"},"modified":"2013-04-05T18:18:01","modified_gmt":"2013-04-05T21:18:01","slug":"meu-filho-gosta-de-brincar-de-boneca-quando-devo-atentar-para-isso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2013\/04\/05\/meu-filho-gosta-de-brincar-de-boneca-quando-devo-atentar-para-isso\/","title":{"rendered":"\u201cMeu filho gosta de brincar de boneca. Quando devo atentar para isso?\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Marcelo Niel<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Na dif\u00edcil arte de educar, os pais muitas vezes se deparam com ciladas. Deparar-se com o seu \u201cmenin\u00e3o\u201d brincando com a bonequinha da prima, ou o que pode ser ainda pior \u2013 na vis\u00e3o amedrontada de muitos pais \u2013 ouvir da boca do filho que ele quer ganhar uma Barbie do Papai Noel, pode levar o \u201cego familiar\u201d \u00e0 fal\u00eancia.<\/p>\n<p> Acalmem-se pais: a homossexualidade n\u00e3o \u00e9 contagiosa. O grande temor dos pais \u00e9 que ter um filho brincando com bonecas possa transform\u00e1-lo ou ser um \u201cgrave ind\u00edcio\u201d de que ele \u00e9 homossexual e isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Somos n\u00f3s, enquanto pais, educadores e sociedade que constru\u00edmos e determinamos, artificialmente e ao longo de gera\u00e7\u00f5es quais s\u00e3o os brinquedos pr\u00f3prios de meninos e meninas de acordo com as regras da sociedade. Desse modo, e infelizmente, meninas ganham bonecas, panelas e vassouras, enquanto meninos ganham carros, tijolinhos, maletas de m\u00e9dico e caixas registradoras.<\/p>\n<p> A crian\u00e7a ter\u00e1 interesse por tudo que \u00e9 novidade, colorido e faz barulho, independente se for uma Barbie ou uma bola de futebol. E n\u00e3o ser\u00e1 o interesse por certos tipos de brinquedos que interferir\u00e1 na orienta\u00e7\u00e3o sexual do seu filho. Isso porque a orienta\u00e7\u00e3o sexual, que pode ser entendida como a \u201cprefer\u00eancia\u201d por um determinado sexo \u00e9 um fator geneticamente determinado, como mostram diversas pesquisas, muito antigas inclusive. No mesmo racioc\u00ednio, insistir que seu filho goste de futebol e carrinhos de ferro n\u00e3o o tornar\u00e1 heterossexual. Se ele for homossexual, ele poder\u00e1 ser um homossexual que goste de carros e futebol. Se ele for um heterossexual que brincou com panelinhas, poder\u00e1 ser um indiv\u00edduo n\u00e3o machista que aprendeu desde cedo que homem tamb\u00e9m pode \u201cpilotar fog\u00e3o\u201d e at\u00e9 se tornar um grande cozinheiro. Sabe-se l\u00e1.<\/p>\n<p> <!--more--><\/p>\n<p> Outro ponto importante \u2013 n\u00e3o necessariamente preocupante \u2013 reside num outro aspecto da sexualidade que \u00e9 a identidade de g\u00eanero, que pode ser compreendida como o \u201csexo\u201d ao qual o indiv\u00edduo pertence, homem ou mulher. E, em alguns casos, quando a identidade de g\u00eanero vem \u201ctrocada\u201d por quest\u00f5es provavelmente biol\u00f3gicas, gera-se uma grande confus\u00e3o, misturando-se na cabe\u00e7a dos pais com a quest\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o. Nas altera\u00e7\u00f5es de identidade de g\u00eanero, a pessoa, muitas vezes desde a inf\u00e2ncia, se v\u00ea com o \u201csexo\u201d trocado, n\u00e3o se enxergando pertencente ao seu sexo biol\u00f3gico. E isso \u00e9 de assustar qualquer pai e qualquer m\u00e3e.<\/p>\n<p> Os pais ficam muito assustados frente a esse tipo de acontecimento, simplesmente porque n\u00e3o foram preparados para isso, em nenhum est\u00e1gio do seu desenvolvimento como ser humano. Pouco se discute na escola sobre essas possibilidades, justamente pelo medo do \u201ccont\u00e1gio\u201d. Muitos pais acreditam que falar sobre o assunto pode \u201cdar a ideia\u201d e \u201ctransformar\u201d o filho em gay ou travesti. Nos cursos de noivos das igrejas, nos div\u00e3s dos analistas e nos ch\u00e1s de beb\u00eas, quase ningu\u00e9m debate essa possibilidade. As pouqu\u00edssimas pessoas que ouvi admitindo a possibilidade de ter um filho homossexual ou transexual s\u00e3o cruelmente recha\u00e7adas pelos demais. Ningu\u00e9m \u2013 ou quase \u2013 deseja ter um filho homossexual; transexual muito menos.<\/p>\n<p> Dever\u00edamos preventivamente discutir essa quest\u00e3o mais abertamente em nossa sociedade para que os pais e a pr\u00f3pria sociedade estivessem mais preparados para receber seus filhos com amor, seja l\u00e1 como venham. Enquanto isso n\u00e3o acontece, resta apagar o inc\u00eandio de orientar os pais quando se deparam com essas d\u00favidas e rezar para que eles n\u00e3o castiguem, n\u00e3o violentem, n\u00e3o espanquem e n\u00e3o oprimam a subjetividade de seus filhos, gerando pessoas infelizes.<\/p>\n<p><strong>Sobre Marcelo Niel:<\/strong> M\u00e9dico psiquiatra e psicoterapeuta de orienta\u00e7\u00e3o junguiana. Mestre em Ci\u00eancias e colaborador da Unifesp. Professor Instrutor do Departamento de Psiquiatria da Santa Casa de S\u00e3o Paulo. Um dos autores do livro: S\u00e9rie Dilemas Modernos 1: Drogas, Fam\u00edlia e Adolesc\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcelo Niel Na dif\u00edcil arte de educar, os pais muitas vezes se deparam com ciladas. 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