{"id":62636,"date":"2013-04-08T11:34:58","date_gmt":"2013-04-08T14:34:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=62636"},"modified":"2013-04-08T11:34:58","modified_gmt":"2013-04-08T14:34:58","slug":"historias-de-um-ilheense-11","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2013\/04\/08\/historias-de-um-ilheense-11\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIAS DE UM ILHEENSE"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>ALGUMAS HIST\u00d3RIAS PITORESCAS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>por Tom\u00e9 Pacheco<\/strong><\/em><\/p>\n<div style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Tom%C3%A9-Pacheco-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Tom\u00e9 Pacheco<\/p><\/div>\n<p>Tanto na <b><i>Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Carandiru<\/i><\/b> quanto na <b><i>Penitenci\u00e1ria do Estado de S\u00e3o Paulo <\/i><\/b>existiam entre os detentos os chamados \u201c<b><i>cabe\u00e7\u00f5es<\/i><\/b>\u201d (<i>aqueles detentos que se achavam donos do \u201candar\u201d).<\/i> Eles tinham todas as mordomias. Isso se dava em raz\u00e3o de chefias corruptas que recebiam propina para deixar esses \u201c<b><i>cabe\u00e7\u00f5es<\/i><\/b>\u201d \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>No <b><i>3\u00aa andar<\/i><\/b> do <b><i>Pavilh\u00e3o 8<\/i><\/b>\u00a0 havia o <b><i>Osmaz\u00e3o<\/i><\/b>. O cara mandava e desmandava no andar e muitas vezes s\u00f3 ia para tranca quando bem queria. Morava num xadrez grande, todo carpetado, com chuveiro el\u00e9trico etc. E ainda escolhia a dedo um \u201c<b><i>pituca<\/i><\/b>\u201d para ser seu amante e mordomo. Surgiu a conversa que esses \u201c<b><i>cabe\u00e7\u00f5es<\/i><\/b>\u201d nem todos, claro, quando deitavam na \u201c<b><i>jeca\u201d (cama)<\/i><\/b> com seu \u201c<b><i>pituca<\/i><\/b>\u201d se transformavam, era um tal de <b><i>troca-troca<\/i><\/b> que Deus me livre! S\u00f3 que o \u201c<b><i>pituca<\/i><\/b>\u201d n\u00e3o era louco de bater com a l\u00edngua nos dentes, porque sen\u00e3o j\u00e1 viu: morria, ou ent\u00e3o ia para o <b><i>Pavilh\u00e3o 5<\/i><\/b>, lugar mais seguro para n\u00e3o morrer.<\/p>\n<p>Esses tipos de pessoas tamb\u00e9m tinham seu lado \u00fatil porque sabiam de tudo que se passava no pavilh\u00e3o em que era lotado, e muitas vezes na cadeia toda. Eles viravam ent\u00e3o uma esp\u00e9cie de \u201c<b><i>cagoete<\/i><\/b>\u201d, evitando muitas trag\u00e9dias dentro da <b><i>Deten\u00e7\u00e3o<\/i><\/b> ou da <b><i>Penitenci\u00e1ria<\/i><\/b>.\u00a0 Costumavam ter uma rede de informantes e centenas de \u201c<b><i>laranjas<\/i><\/b>\u201d. Eram os \u201c<b><i>leva e traz<\/i><\/b><i>\u201d,<\/i> todos de confian\u00e7a deles.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Quando liber\u00e1vamos \u00e0s 8:00 horas, eles iam para os setores dentro do pavilh\u00f5es, a exemplo do <b><i>Pavilh\u00e3o 2<\/i><\/b> que era o de <b><i>alimenta\u00e7\u00e3o<\/i><\/b>, ou para o <b><i>Pavilh\u00e3o 6<\/i><\/b> (<b><i>Administrativo<\/i><\/b>), ou o <b><i>Pavilh\u00e3o 4(Hospital),<\/i><\/b> ou <b><i>Pavilh\u00e3o 7 (Patronato \u2013Trabalho). <\/i><\/b>Os vagabundos dos vagabundos, ou seja, os \u201c<b><i>leva e traz<\/i><\/b><i>\u201d<\/i> iam para o <i>mine-campo<\/i> praticar algum tipo de esporte e l\u00e1 ficar arquitetando como sair dali. Jogavam conversa fora e muitas lorotas. Para eu saber das coisas eu dava corda e deixava os caras contarem as est\u00f3rias deles do tipo \u201c<i>eu assaltava grandes firmas de prefer\u00eancias multinacionais ou ent\u00e3o bancos\u201d,<\/i> que faziam e aconteciam como<i> <\/i>\u201c<i>j\u00e1 troquei muitos tiros com policiais<\/i>\u201d e algumas vezes apontando para a seguran\u00e7a do <b><i>Pres\u00eddio<\/i><\/b> na muralha largavam: \u201c<i>e com essa gente armada at\u00e9 os dentes<\/i>\u201d. E animados completavam que com seguran\u00e7a de banco, n\u00e3o trocava tiros n\u00e3o, \u201c<i>pegava-os, tomava-lhe as armas e, tome porrada\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Nesse vai e vem das est\u00f3rias eu costumava falar \u201c<i>Rapaziada, at\u00e9 o momento eu s\u00f3 ouvi est\u00f3rias de assalto a empres\u00e1rios e a bancos. E quem assaltava oper\u00e1rios, motoristas de t\u00e1xi, ser\u00e1 que est\u00e3o mortos, ou presos em outras cadeias?\u201d.<\/i> E ampliando a conversa eu dizia: <i>\u201cOlha rapaziada, por hoje chega de suas mentiras. V\u00e3o jogar<\/i> <i>a bola de voc\u00eas. Amanh\u00e3 voc\u00eas continuam contando suas aventuras\u201d<\/i><\/p>\n<p>Certa vez na <b><i>Penitenciaria<\/i> <i>do Estado<\/i><\/b> um preso por nome <b><i>Kalil<\/i><\/b> me contou essa est\u00f3ria \u201c<i>Tom\u00e9, eu assaltei a Johnson Johnson de Campos de Jord\u00e3o<\/i>. Este cara foi preso pelo <b><i>DEIC<\/i><\/b>. Estando preso e com muita grana escondida na rua, alguns tiras cresceram o olho. Ent\u00e3o por vezes retiravam-no da cela e baixavam o cacete para que o detido confessasse onde estava a muamba. Foi assim que esse detido confiou em dois desses tiras e, atrav\u00e9s de seu advogado, mandou dar uma boa grana para ambos em troca da liberdade. Mas os policiais o tra\u00edram e n\u00e3o cumpriram a palavra. E ainda discutiram com quem iria ficar com mais dinheiro. Viraram ent\u00e3o para o <b><i>Kalil<\/i><\/b> e falaram: \u201c<i>Voc\u00ea vai ter que dar mais bufunfa porque foi pouca\u201d<\/i>. <b><i>Kalil<\/i><\/b> ent\u00e3o retrucou \u201c<i>Podem me matar no pau, mas n\u00e3o dou um centavo a mais para voc\u00eas, seus cafajestes\u201d.<\/i> Rapaz, coitado do Kalil! S\u00f3 sei que quando chegava ao <i>Hospital da Penitenciaria<\/i>, era em cacos: perna, bra\u00e7o, mand\u00edbula, enfim, tudo quebrado. Quando ficava um pouco melhor, j\u00e1 andando e falando, era novamente requisitado por esses falsos \u201c<b><i>tiras<\/i><\/b>\u201d e o pau comia novamente. Foi assim por v\u00e1rias vezes, at\u00e9 eles desistirem, conscientes que ficaram que o <b><i>Kalil<\/i><\/b> n\u00e3o iria dar mais nada. E dizia para mim meio emocionado \u201c<i>Tom\u00e9, acredite, n\u00e3o levaram mais nem um tost\u00e3o. N\u00e3o foram homens de cumpri a palavra. \u00a0\u00a0Podiam at\u00e9 me matar no pau, mas eu estava decidido\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Esse preso, <b><i>o Kalil<\/i><\/b>, tinha uma intelig\u00eancia privilegiada. S\u00f3 que a maioria das vezes n\u00e3o usava para o bem. Ele tinha contrato com uma editora de palavra cruzadas. Chegou at\u00e9 a escrever livros sobre palavras cruzadas. E ganhava uma grana forte com esse seu trabalho.\u00a0 Eu cobrava dele: \u201c<i>A\u00ed Kalil, use essa sua intelig\u00eancia para o bem, pois quando voc\u00ea sair daqui poder\u00e1 viver decentemente sem pegar nada dos outros\u201d.<\/i> Ele respondia \u201c<i>Estou pensando, Tom\u00e9, estou pensando!\u201d. <\/i>\u00a0Como nessa ocasi\u00e3o eu fui transferido para a <b><i>Penitenciaria Feminina<\/i><\/b>, perdi o contacto totalmente com ele.<\/p>\n<p>Certa vez, o <b><i>Tichac<\/i><\/b>, aluno da escola de \u00e1rbitros da turma de 84, foi apitar um jogo na <b><i>Penitenciaria Feminina<\/i><\/b> e perdeu um anel de ouro portugu\u00eas e me comentou. Ent\u00e3o eu chamei meus auxiliares, meus guarda-costas e bolei a seguinte est\u00f3ria: <i>\u201cOlha galera, o Sr. Dirceu da escola de \u00e1rbitros da Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Futebol n\u00e3o vai mais mandar \u00e1rbitros devido ao sumi\u00e7o do anel do Tichac\u201d.<\/i> Eles ficaram surpresos e falaram: <i>\u201cCalma a\u00ed chefia que esse anel vai aparecer j\u00e1\u201d.<\/i> E sa\u00edram \u00e0 ca\u00e7a. S\u00f3 sei que em menos de vinte minutos o anel apareceu. Tamb\u00e9m com a influ\u00eancia deles no <b><i>Pres\u00eddio<\/i><\/b>, n\u00e3o podia dar outra.<\/p>\n<p>Outra feita foi o <b><i>N\u00e3o se Bula<\/i><\/b>. Esse preso chegou para mim e fez uma proposta: <i>\u201cTom\u00e9, eu tenho uns bagulhos em minha casa. V\u00e1 l\u00e1 pegar que voc\u00ea n\u00e3o vai se arrepender\u201d.<\/i> Ent\u00e3o eu respondi pra ele: \u201c<i>N\u00e3o se Bula, senta a\u00ed e vamos conversar. Eu at\u00e9 posso ir pegar seus bagulhos, porque todo homem tem seu pre\u00e7o e eu n\u00e3o sou diferente, s\u00f3 que o meu \u00e9 muito alto. Pra come\u00e7ar terei que tirar minha fam\u00edlia do pa\u00eds (tr\u00eas filhos e uma mulher), e deixar uma boa grana de reserva, pois se der sujeira, terei como pagar os honor\u00e1rios de um bom advogado. Eu sei muito bem que esses seus bagulhos n\u00e3o v\u00e3o dar para cobrir tudo isso. Ent\u00e3o vamos fazer o seguinte: voc\u00ea \u00e9 um cara malandro, respeitado, considerado na massa. Fica o dito pelo n\u00e3o dito. Para todos os efeitos nunca tivemos esse tipo de conversa, combinado?\u201d.<\/i> Desse dia em diante, nenhum outro presidi\u00e1rio \u00a0veio mais com propostas indecentes pra meu lado. E o efeito foi o seguinte: como <b><i>N\u00e3o se Bula<\/i><\/b> era respeitado na massa, alarmou na <b><i>Penitenci\u00e1ria<\/i><\/b> toda que comigo n\u00e3o tinha acordo, era 8 ou 80. Da\u00ed em diante n\u00e3o houve mais essas propostas. N\u00e3o direi que era praxe l\u00e1 dentro, mas muito policiais aceitavam esse tipo de oferta. Gra\u00e7as a Deus eu tinha um bom sal\u00e1rio, uma fam\u00edlia linda, bem estruturada, ent\u00e3o, pra que eu iria me envolver com porcaria! Se a liberdade \u00e9 andar na rua de cabe\u00e7a erguida e dormir o sono dos justos, eu segui esse preceito, que acredito seja o das pessoas de bem.<\/p>\n<p>Termino o 18\u00ba cap\u00edtulo e o final dessa \u201c<i>Hist\u00f3ria de um Ilheense<\/i>\u201d, que teve como foco minha passagem pelo <i>Pres\u00eddio Carandiru do Estado de S\u00e3o Paulo<\/i>, na expectativa de um apoio, para que eu possa transformar em livro essa viv\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ALGUMAS HIST\u00d3RIAS PITORESCAS por Tom\u00e9 Pacheco Tanto na Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Carandiru quanto na Penitenci\u00e1ria do Estado de S\u00e3o Paulo existiam entre os detentos os chamados \u201ccabe\u00e7\u00f5es\u201d (aqueles detentos que se achavam donos do \u201candar\u201d). Eles tinham todas as mordomias. 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