{"id":65746,"date":"2013-05-21T23:22:55","date_gmt":"2013-05-22T02:22:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=65746"},"modified":"2013-05-21T23:22:55","modified_gmt":"2013-05-22T02:22:55","slug":"cronica-de-cyro-de-mattos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2013\/05\/21\/cronica-de-cyro-de-mattos\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica de Cyro de Mattos"},"content":{"rendered":"<h1><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Antonio Menezes Amigo\u00a0 <\/b><\/h1>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/CYRO-DE-MATTOS-PERSONALIZADO1_56.jpg\" width=\"200\" height=\"269\" \/>Prefiro v\u00ea-lo garoto jogando pelada comigo no campo da Pra\u00e7a Camac\u00e3, pr\u00f3ximo \u00e0 beira do rio. Cabelos finos assanhados, o rosto agitado, o corpo suado\u00a0 no vaiv\u00e9m do jogo. Ele era\u00a0 tr\u00eas ou quatro anos mais novo do que eu, sem d\u00favida\u00a0 o mais jovem dos meninos que disputavam pelada\u00a0 no campo de barro com muitos buracos. Jogava no meu time porque era meu amigo, mas n\u00e3o era bom de bola,\u00a0 n\u00e3o chegando a ser ruim,\u00a0 digamos que era um peladeiro esfor\u00e7ado.<\/p>\n<p>Fui estudar em Salvador no internato do Col\u00e9gio\u00a0 Maristas, ele ficou estudando em Itabuna. Deixamos de nos encontrar para jogar futebol ou tomar banho no rio depois de cada pelada. Quando sa\u00ed do internato,\u00a0 soube que ele estava estudando em Salvador e por feliz coincid\u00eancia ficamos hospedados duas vezes na mesma pens\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele sempre foi o primeiro aluno dos col\u00e9gios em que estudou. Tinha uma intelig\u00eancia privilegiada, mas n\u00e3o se valia disso, estudava, estudava.\u00a0 Tudo que estudava aprendia com facilidade. Tudo que lhe era transmitido pelo professor na sala de aula absorvia e n\u00e3o esquecia. Passou em primeiro lugar no vestibular de Medicina e fez o curso inteiro\u00a0 como o primeiro aluno da classe.<\/p>\n<p>Em Salvador, na noite do s\u00e1bado, encontr\u00e1vamos agora no restaurante Cacique, junto do Cine Guarani e pr\u00f3ximo do cabar\u00e9 Tabaris. Convers\u00e1vamos sobre nossas aventuras amorosas, informando um ao outro qual era a namorada conquistada daquela vez.\u00a0 O assunto podia mudar para futebol, as aulas de capoeira com mestre Bimba ou algum fato interessante envolvendo pessoa conhecida\u00a0 em nossa cidade, no Sul da Bahia. A conversa era sempre acompanhada de bons goles de cerveja e tira-gosto. Riso houvesse\u00a0 quando a piada contada era muito boa. Depois \u00edamos dar um pulo\u00a0 no dancing da Boate Id, casa de mulheres que atra\u00eda estudantes, jornalistas, intelectuais e bo\u00eamios, gente que gostava de viver a noite de Salvador com m\u00fasica, amor\u00a0 e sonho, embalando-a nos bra\u00e7os como se fosse o seu bem.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Prefiro v\u00ea-lo com o \u00edmpeto pr\u00f3prio do jovem que deseja\u00a0 conhecer\u00a0 a vida, sem temer\u00a0 os perigos, os desafios\u00a0 e os obst\u00e1culos. E como gostava de dan\u00e7ar nos bailes realizados no\u00a0 Itabuna Clube e Grapi\u00fana T\u00eanis Clube. Era um p\u00e9 de valsa que n\u00e3o poupava energia para dan\u00e7ar com a namorada at\u00e9 o fim do baile. No Carnaval era um foli\u00e3o bem animado. Em qualquer baile no Itabuna ou Grapi\u00fana a\u00a0 festa ficava mais alegre quando ele chegava. Contagiava os amigos, despertava suspirinhos e piscar de olho das meninas mais bonitas.\u00a0 Por seus dotes de rapaz esbelto, sorridente, galanteador, ficou logo conhecido como Tonho Bonito. Apelido que foi dado por Seixas, seu amigo \u00edntimo h\u00e1 anos, mas que Z\u00e9 Laurindo, outro amigo \u00edntimo, contestava e afirmava, alto e bom som,\u00a0 que foi ele quem colocou. N\u00e3o abria m\u00e3o disso sob quaisquer aspectos.\u00a0 N\u00e3o admitia mesmo que fosse contestada a autoria desse apelido como reconhecimento de seus dons de rapaz atraente e sedutor, disputado pelas garotas mais bonitas da sociedade.<\/p>\n<p>Prefiro v\u00ea-lo atuante como m\u00e9dico ortopedista do time profissional do\u00a0 Itabuna Clube, sem cobrar nada. Como m\u00e9dico competente desde que iniciou a carreira. Montou uma cl\u00ednica em sua especializa\u00e7\u00e3o e adquiriu r\u00e1pido uma grande clientela formada por\u00a0 gente rica e pobre, que recebia dele o trato decente de quem exercia a profiss\u00e3o com amor, respeito ao paciente, sem distin\u00e7\u00e3o de classe. Aconteceu que precisei de seus servi\u00e7os m\u00e9dicos.\u00a0 N\u00e3o quis que eu pagasse pelos seus servi\u00e7os profissionais. Antes e depois dos exames que ele realizou em mim, ficou lembrando\u00a0\u00a0 nossa querida cidade naquele tempo que se foi com os momentos bons\u00a0 da juventude.<\/p>\n<p>Prefiro v\u00ea-lo como eficiente presidente do Instituto de Cacau da Bahia, zeloso provedor da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, deputado estadual inflamado quando discursava\u00a0 e defendia um projeto com vistas ao bem-estar da cidade natal. Era dono de uma orat\u00f3ria arrojada, impressionando a quem ouvisse.<\/p>\n<p>Encontrei com Carlinhos Galv\u00e3o no aeroporto de Guarulhos, em S\u00e3o Paulo, \u00a0quando eu estava para embarcar para\u00a0 Belo Horizonte onde ia participar da Bienal do Livro de Minas. Aquele nosso amigo, radicado em S\u00e3o Paulo h\u00e1 anos, perguntou-me: \u201cComo vai nosso amigo Tonho?\u201d. Respondi: \u201c A situa\u00e7\u00e3o dele \u00e9 a mesma, bem dif\u00edcil\u201d. Os amigos Seixas e Z\u00e9 Laurindo s\u00e3o sempre os que me d\u00e3o not\u00edcias dele.<\/p>\n<p>Prostrado na cama h\u00e1 muito tempo.\u00a0 Reconhece\u00a0 os entes queridos, os amigos Seixas e Z\u00e9 Laurindo, n\u00e3o se mexe. \u201cTudo a fam\u00edlia tem feito\u00a0 para tir\u00e1-lo dessa situa\u00e7\u00e3o\u201d, disse Z\u00e9 Laurindo. \u201cO quadro \u00e9 triste, d\u00f3i, como d\u00f3i\u201d, disse Seixas. N\u00e3o suportaria v\u00ea-lo minguando nas for\u00e7as, outrora t\u00e3o din\u00e2micas, sem que eu pelo menos possa\u00a0 suavizar um pouco as cores desse quadro triste, sem sentido.\u00a0 Prefiro v\u00ea-lo como marido exemplar, pai cuidadoso, fazendeiro operoso. Filho de quem os pais tanto se orgulhavam. Homem com olhares positivos quando reconhecia com prazer\u00a0 as qualidades do outro no mundo. Gostava de valorizar suas origens neste ch\u00e3o engastado na mem\u00f3ria do tempo a que se chama vida.<\/p>\n<p>Prefiro v\u00ea-lo dentro das lembran\u00e7as boas, cativantes, solid\u00e1rias, desinteressadas, que s\u00f3 um verdadeiro amigo pode deixar como um legado que n\u00e3o tem pre\u00e7o. Dono de sonhos e beijos, esperan\u00e7as e conquistas,\u00a0 como ele sempre teve.\u00a0 No rio da vida do qual somos parte sob o curso inexplic\u00e1vel do mist\u00e9rio. Nesse perfume vindo de uma roseira que plantamos com os nossos gestos, sentimentos e raz\u00f5es. Nossos ideais\u00a0 que pulsaram ardentes\u00a0 no cora\u00e7\u00e3o do menino, no jovem e no homem. No torvelinho de\u00a0 manh\u00e3s\u00a0 e tardes sem a trai\u00e7oeira inven\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>*Cyro de Mattos \u00e9 escritor premiado no Brasil e exterior, em concursos expressivos. Distinguido com a Comenda do M\u00e9rito do Governo do Estado da Bahia.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Antonio Menezes Amigo\u00a0 Prefiro v\u00ea-lo garoto jogando pelada comigo no campo da Pra\u00e7a Camac\u00e3, pr\u00f3ximo \u00e0 beira do rio. Cabelos finos assanhados, o rosto agitado, o corpo suado\u00a0 no vaiv\u00e9m do jogo. 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