{"id":6704,"date":"2011-01-16T16:48:55","date_gmt":"2011-01-16T19:48:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=6704"},"modified":"2011-01-16T16:48:55","modified_gmt":"2011-01-16T19:48:55","slug":"marli-goncalves-nossos-novos-medos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/01\/16\/marli-goncalves-nossos-novos-medos\/","title":{"rendered":"Marli Gon\u00e7alves \/ Nossos novos medos."},"content":{"rendered":"<p><font color =red><i><b>Diariamente temos medos, muitos medos. Antes, eram os regulares, aqueles contra os quais nos defend\u00edamos como pod\u00edamos, com seguros &#8211; de fogo, de vida, de acidentes. Mas agora parece que tudo mudou, e a cada dia temos mais medos e do que a gente nem sabe o qu\u00ea, nem de onde vem. Mas pressente estar pr\u00f3ximo. E n\u00e3o h\u00e1 seguro poss\u00edvel para se prevenir.<\/b><\/i><\/font><font><\/p>\n<p><img align = \"left\" src = \"http:\/\/lh6.ggpht.com\/_PQy7A06gDto\/TMszWPVuHuI\/AAAAAAAAt3M\/va7UPbq3dc8\/marli%20gon%C3%A7alves%20nova.jpg\"\/>Duvido que exista um s\u00f3 brasileiro que n\u00e3o esteja arrasado pelo que viu, est\u00e1 vendo ou acompanhando uma vez que tenha sabido das trag\u00e9dias devastadoras ocorridas no Rio de Janeiro e, de certa forma, tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo. \u00c9 um misto de compreens\u00e3o dos des\u00edgnios de Deus, para os que cr\u00eaem, e de absoluto inconformismo de quem observa com vista privilegiada, e aponta a incompet\u00eancia, o descaso e o esc\u00e1rnio de autoridades, administradores e pol\u00edticos, ano ap\u00f3s ano.<\/p>\n<p>2011 come\u00e7ou mostrando uma cara muito feia. Mas houve beleza na cena da Dona Ilair, a mulher que conseguiu salvar-se com a ajuda de vizinhos, e o que tentou agarrada ao seu vira-lata pretinho. Nunca sair\u00e1 da minha mem\u00f3ria. E sei que tamb\u00e9m n\u00e3o esquecerei o cachorrinho perdido, levado pela enxurrada dos bra\u00e7os de sua dona, em desespero. Coisas assim a gente n\u00e3o esquece; acontece com todos os jornalistas que fazem essas coberturas e acabam marcados. Passa ano, vem ano, e se come\u00e7a a chover forte, meu cora\u00e7\u00e3o ainda prev\u00ea essas trag\u00e9dias que j\u00e1 viu in loco, vistas, acompanhadas, previstas. Trag\u00e9dias naturais amplificadas por uma inexplic\u00e1vel leni\u00eancia.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Mas veja que agora todos est\u00e3o desassossegados. Antes, em geral, enchentes e deslizamentos atingiam &#8220;pobres&#8221;, derrubando e desmoronando casas de &#8220;pobres&#8221;. No m\u00e1ximo, encharcando carros incautos transitando ocasionalmente em \u00e1reas &#8220;pobres&#8221;, e n\u00e3o derrubando e matando tamb\u00e9m milion\u00e1rios em f\u00e9rias em suas mans\u00f5es, haras, fazendas.<\/p>\n<p>Percebo ent\u00e3o o quanto estamos cercados de novos medos e amea\u00e7as, e que parece n\u00e3o haver mesmo mais nenhum lugar seguro. Nem com n\u00f3s mesmos. Esse \u00e9 o tema.<\/p>\n<p>Shoppings centers? Assaltos, tiroteios, brigas de gangue, seguran\u00e7as mal treinados, carros que podem voar dos estacionamentos que eles improvisaram subindo pr\u00e9dios, esticando curvas, fazendo puxadinhos.<\/p>\n<p>Apartamentos? O elevador pode cair. Arrast\u00f5es, porteiros descontentes que viram assassinos, s\u00edndicos enlouquecidos que matam em elevadores. Obras descontroladas que podem fazer ruir por terra os sonhos de toda uma vida, com areia ao inv\u00e9s de cimento, canos de &#8220;papel\u00e3o&#8221; ou coisa parecida.<\/p>\n<p>F\u00e9rias paradis\u00edacas? Tsunamis, maremotos, furac\u00f5es e terremotos, enchentes e deslizamentos. Greves pol\u00edticas incendi\u00e1rias. Fora os cruzeiros mareados, o caos a\u00e9reo, claro, e outros problemas, menos nobres.<\/p>\n<p>Carros blindados? Blindagens de embusteiros, falsas blitz que obrigam que as portas se abram, com seguran\u00e7as coniventes, sequestros e mortes. E os outros: pessoas sem habilita\u00e7\u00e3o ou condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas em ve\u00edculos idem, b\u00eabados, irrespons\u00e1veis de toda sorte furando sinais e brincando de rachas em ruas, avenidas ou estradas mal conservadas, tanto quando alguns de seus usu\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ruas? Pontos de \u00f4nibus invadidos por procuradoras b\u00eabadas. Crian\u00e7as esmagadas por ferragens, de quem se ferra e que ferram outros. Travessias radicais &#8211; o outro lado da rua pode significar ir para o outro lado da vida. Fora as guias e cal\u00e7adas esburacadas que podem te mandar para o ortopedista.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda o perigo dos raios, das bombas que explodem para chamar a aten\u00e7\u00e3o do mundo, mas destroem fam\u00edlias, alheias, postas involuntariamente no cen\u00e1rio de guerras. H\u00e1 as doen\u00e7as, v\u00edrus e bact\u00e9rias novas, algumas trazidas na bagagem de forasteiros, migrando com suas malinhas para um pa\u00eds onde se desenvolvem e se criam, fortes e sem serem incomodados. Como moluscos africanos.<\/p>\n<p>A vida passa a ser a transposi\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de uma sucess\u00e3o imprevis\u00edvel de acontecimentos e de supera\u00e7\u00e3o de medos, inseguran\u00e7as e fatalidades.<br \/>\nTemos medo. Temos medo tamb\u00e9m de virar um n\u00famero entre tantos. Temos medos, receios, certezas e d\u00favidas. Estamos todos muito sens\u00edveis, precisando desabafar, mas n\u00e3o conseguimos mais respirar aliviados nem com o desenvolvimento da vida virtual que nos isolou em c\u00e1psulas aparentemente seguras.<\/p>\n<p>Agora, por conta, temos ainda novos medos, particulares. Paran\u00f3icos. De ofender os amigos por n\u00e3o conseguir responder a um e-mail (ou de ter respondido, sim, mas em mensagens perdidas por provedores e sistemas). Temos medo de n\u00e3o reconhecer a mensagem de SMS daqueles que parecem ter certeza que seu telefone \u00e9 adivinho. E ele n\u00e3o \u00e9, por mais moderno que seja. Temos medo que nossos computadores &#8220;fofoquem&#8221; para quem mandou que deletamos mensagens que, muitas vezes, n\u00e3o deletamos n\u00e3o. Temos medo de que nossas mensagens sejam mal interpretadas, se interceptadas por quem procura motivos, pelos ci\u00fames dos amores ou maridos e esposas que na calada da noite violam sigilos e individualidade dos nossos destinat\u00e1rios. Vamos acabar secos, frios, formais. Ou dissimulados demais, cheios de c\u00f3digos e senhas indecifr\u00e1veis, criptografadas.<\/p>\n<p>Temos novos medos. Novas n\u00f3ias. E muita dificuldade de lidar com todas elas, mesmo que s\u00f3 nos nossos \u00edntimos, como m\u00e3es que envelhecem pensando no perigo que seus filhos possam estar correndo nesse exato momento. Incapazes que s\u00e3o e se sentem, de criar mantos protetores, coura\u00e7as inexpugn\u00e1veis.<\/p>\n<p>Vamos ficar loucos desse jeito. Procuraremos videntes, alguns, simplesmente cr\u00e1pulas? Procuraremos sinais do Universo? Diremos tudo aos analistas, psic\u00f3logos, psiquiatras e psicanalistas, que proliferar\u00e3o, tamb\u00e9m buscando as mesmas respostas, j\u00e1 que ele vivem nesse mesmo mundo, neste mesmo tempo?<\/p>\n<p>Ou simplesmente deixaremos o barco nos levar, sabendo-se l\u00e1 que dia e como ser\u00e1?<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, de um Brasil inteiro, consternado. De um mundo todo em transi\u00e7\u00e3o. 2011 em diante.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p><strong>\u2022 (*) Marli Gon\u00e7alves \u00e9 jornalista.<\/strong> Nunca se esqueceu de uma entrevista que fez, 27 anos atr\u00e1s. Era uma m\u00e3e muito pobre e de muitos filhos que acabara de perder um deles, atropelado na ferrovia. Ela tinha muito que fazer e continuar. Apenas virou para um dos outros filhos e pediu que ele fosse ao local do acidente buscar a cabe\u00e7a do irm\u00e3o, que havia sido decepada. Ela apenas queria enterrar o passado e continuar a enfrentar aquele seu futuro, muito real. N\u00e3o havia tempo para dramas. <\/font><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diariamente temos medos, muitos medos. Antes, eram os regulares, aqueles contra os quais nos defend\u00edamos como pod\u00edamos, com seguros &#8211; de fogo, de vida, de acidentes. Mas agora parece que tudo mudou, e a cada dia temos mais medos e do que a gente nem sabe o qu\u00ea, nem de onde vem. Mas pressente estar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[12],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6704"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6704"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6704\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6708,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6704\/revisions\/6708"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}