{"id":7129,"date":"2011-01-21T16:38:46","date_gmt":"2011-01-21T19:38:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=7129"},"modified":"2011-01-21T16:38:46","modified_gmt":"2011-01-21T19:38:46","slug":"marli-goncalves-em-sao-paulo-ailoviiu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/01\/21\/marli-goncalves-em-sao-paulo-ailoviiu\/","title":{"rendered":"Marli Gon\u00e7alves em: S\u00e3o Paulo, Ailovii\u00fa"},"content":{"rendered":"<p><i><b><font color = red>Pe\u00e7o desculpas de antem\u00e3o. Ter\u00e1 de ser um pouco maior, t\u00e3o grande quanto a cidade que homenageia. Feche os olhos. Imagine S\u00e3o Paulo. Vou tentar narr\u00e1-la. Ou descrev\u00ea-la como faz\u00edamos em nossa inf\u00e2ncia, na frente de desenhos importados e mal impressos. Aqui est\u00e1 tudo em nossa pr\u00f3pria carne. Impress\u00f5es digitais e na \u00edris, nome de uma flor que voc\u00ea v\u00ea, andando por ela.<\/font><\/b><\/i><\/p>\n<p><img align = \"left\" src = \"http:\/\/lh6.ggpht.com\/_PQy7A06gDto\/TMszWPVuHuI\/AAAAAAAAt3M\/va7UPbq3dc8\/marli%20gon%C3%A7alves%20nova.jpg\" \"_news\"\/>Vejo coisas malucas que s\u00f3 por aqui. Vi uma fila de motoboys, pizzas na m\u00e3o, em frente a um pr\u00e9dio s\u00f3, em dia de chuva. Vejo policiais de bicicleta, de moto, de viaturas, de helic\u00f3pteros. E descal\u00e7os, ao mesmo tempo, com seus sal\u00e1rios de fome. Uma fome que alimenta a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Vejo at\u00e9 guardas florestais com imponentes Lands Rover. S\u00e3o Paulo tem \u00e1reas florestais, sabia?<\/p>\n<p>Na chuva, enchentes. Na seca, narizes sangrando e muito coff-coff-coff. O asfalto queima as patinhas dos c\u00e3es, muitos, vira-latas ou de madames, mas aqui algumas delas p\u00f5em sapatinhos em seus bichinhos.<\/p>\n<p>Cavalos puxam homens e carro\u00e7as. Carro\u00e7as s\u00e3o puxadas por homens e cavalos. \u00c0s vezes homens puxam cavalos e carro\u00e7as. Algumas, apenas o cavalo solto nas estradas, perigo da noite.<\/p>\n<p>Gente que tem muito. E gente que n\u00e3o tem nada. Nem a perder. Nada. E achados e perdidos, que essa cidade tem.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Tem tr\u00e2nsito, tem calmaria (mas s\u00f3 quando a deixam, fugidos, nos feriados). Tem flores de todos os tipos, \u00e1rvores coloridas. Mas voc\u00ea precisa olhar para elas. Os ip\u00eas, mancas, quaresmeiras, as az\u00e1leas, os l\u00edrios e as palmas. As \u00edris, quase violetas.<\/p>\n<p>Aqui j\u00e1 vi, vejo e verei mendigos poliglotas. Loucas elegantes que fazem uso \u00e0 sua moda do que ganham, acham nas latas, ca\u00e7ambas da vida. Nas ca\u00e7ambas dos Jardins acha-se de tudo: estolas, quadros, m\u00f3veis. Eu j\u00e1 vi e catei. Brinquedos. N\u00e3o entendo por que quem joga n\u00e3o \u00e9 capaz de junt\u00e1-los para oferecer e ganhar na troca o olhar lindo de uma crian\u00e7a. \u00c9 S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>J\u00e1 vi at\u00e9 dentro de carrinhos de beb\u00ea. Aqui tem gente que anda nas ruas com c\u00e3es, gatos, papagaios, cacatuas, e at\u00e9 porcos e coelhos. Minha m\u00e3e teve dois galos. Que cantavam nos Jardins.<\/p>\n<p>Ah, barulho tem toda hora. Agora. De noite e de dia. Psiu? Cad\u00ea voc\u00ea, Psiu? Sempre em constru\u00e7\u00e3o. Ou carros e motos acelerando. \u00d4nibus lotados subindo ladeiras, que aqui t\u00eam muitas. E os b\u00eabados da noite, em carros de todo o tipo. Ou nas cal\u00e7adas. Mas as b\u00eabadas s\u00e3o piores, com suas vozes finas, gritantes e lamuriantes.<\/p>\n<p>Nos c\u00e9us, avi\u00f5es, jatinhos e helic\u00f3pteros. Quase Jetsons, n\u00e3o fossem os bal\u00f5es pipocantes que de vez em quando um ser irrespons\u00e1vel solta por a\u00ed. U\u00f3\u00f3\u00f3\u00f3mmm. As sirenas das ambul\u00e2ncias, dos policiais, dos bombeiros, do resgate. E dos idiotas que agora inventaram e usam uma corneta com esse som.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo: seus parques e pra\u00e7as s\u00e3o poucos. Suas \u00e1reas de risco, muitas. Sua periferia, cinza. Suas favelas, at\u00e9 isso, sem gra\u00e7a, sem samba, sem cor.<br \/>\nMas aqui tem para todo o mundo. Para ateus, agn\u00f3sticos e etcs. E todas as religi\u00f5es. Dos rabichos dos Hare Khrishnas, aos dreads dos rastas. Os cachinhos dos judeus ortodoxos, com seus chapel\u00f5es de pelo. As sand\u00e1lias dos franciscanos. Os pesados h\u00e1bitos das carmelitas. O moderno dos Padres Rossi e amigos. As saias &#8220;colunas&#8221; das evang\u00e9licas tradicionais e os terninhos dos pastores. As cabe\u00e7as cobertas das mu\u00e7ulmanas. Centros de cabala, Kaballah, centros de espiritismo. Mesa branca, umbanda, candombl\u00e9, magias de todo o tipo. At\u00e9 feiras de cartomantes h\u00e1! Aqui at\u00e9 fachada de templo evang\u00e9lico gigante parece fachada de centro gay, toda em arco-\u00edris. Verdade!<\/p>\n<p>Ciganas l\u00eaem suas m\u00e3os. Malabaristas passam bolas de cristal pelos bra\u00e7os. Comem fogo e espadas. Jogam Tr\u00eas Marias para cima. Os meninos pobres tentam fazer o mesmo. Ou pegam rodinhos e paninhos sujos para limpar o seu p\u00e1ra-brisa.<\/p>\n<p>Aqui em S\u00e3o Paulo tem rua de tudo. De madeira, noivas, m\u00f3veis, decora\u00e7\u00e3o, roupas, panelas, ferragens de porta, de equipamentos musicais. Agora h\u00e1 tamb\u00e9m ruas, muitas, tomadas por hordas de viciados em crack. E os nomes das suas ruas, S\u00e3o Paulo, nem conto! Queria morar na Rua das Estrelas Fugazes, se houver.<\/p>\n<p>A noite de S\u00e3o Paulo pode ser paga. Ou gratuita, se for s\u00f3 para olhar. Suas manh\u00e3s s\u00e3o agitadas. Tem quem vem de longe. Tem quem v\u00e1 para longe. Ida e volta. Diariamente.<\/p>\n<p>Agora, mas s\u00f3 agora &#8211; n\u00e3o acontecia isso antes, acredite &#8211; vemos gente de shorts e<br \/>\nchinelos nas ruas. Mas ainda n\u00e3o vemos as mulheres de biqu\u00edni nas pra\u00e7as que tem quem queira, n\u00e3o queira, n\u00e3o goste. N\u00e3o possa. Ah!<\/p>\n<p>As avenidas s\u00e3o como rios cortantes para se transpor. \u00c0s vezes a nado. Rezando,<br \/>\nos pedestres. Represas, rios e riachos. C\u00f3rregos borbulhantes e vazantes. Efervescentes, na cidade, tais quais toda sua gente: contorcionistas, voyeurs e exibicionistas, antropof\u00e1gicos, simpatizantes at\u00e9 de tudo muito aquilo para o lado direito.<\/p>\n<p>A arte est\u00e1 nas ruas, em grafites, adesivos, carimbos. Em cada um por todos. Todos por um.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de igrejas, templos e bibocas, h\u00e1 restaurantes para todos os gostos e nacionalidades, desejos, gostos, bolsos. Agora at\u00e9 em motos nas ruas, comida. Em S\u00e3o Paulo, cachorro-frito j\u00e1 acharam, com gato no churrasco, cavalos no aperitivo. Aqui se vende bem caro at\u00e9 espuma, novidade gastron\u00f4mica. Chame diferente: iogurte vira frozen; molhos viram nomes extraordin\u00e1rios.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo fala todas as l\u00ednguas, sotaques, dialetos, g\u00edrias. Com r, s, ou estalados nos dentes, no c\u00e9u da boca. O rrrrr comprido dos caipiras, que aqui habitam e mant\u00eam o clima, o charme do sotaque, &#8220;sutaque&#8221;, uai, tch\u00ea, guri, guria, painho, mainha. \u00d3xente, cabra da peste!<\/p>\n<p>24 horas aqui tem p\u00e3es, sexo, sex-shop, pet-shop, materiais de constru\u00e7\u00e3o, mercados at\u00e9 hiper, massas e carnes, sopas e \u00e1lcool, nos postos, convenientes, junto com a gasolina.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, fren\u00e9tica, violenta, caridosa, e ruidosa. Esburacada e recapeada. Antiga e antigamente, caindo aos peda\u00e7os, indo ao ch\u00e3o e erguendo-se, do nada, inteligentes e inacess\u00edveis. Arranha o c\u00e9u!<\/p>\n<p>Al\u00e9m de especialidades m\u00e9dicas, doen\u00e7as e males estranhos.<\/p>\n<p>Antenas, muitas. E antenados. Interfer\u00eancias, todas, e gente desplugada, perdida,<br \/>\nmich\u00ease michados. Apag\u00f5es aqui e ali. At\u00e9 de intelig\u00eancia. Rua que \u00e9 estrada, avenida que \u00e9 rua.<\/p>\n<p>Aqui tem festa suingueira, festa fechada, festa aberta. Fetiches, Sado e Mas\u00f4. E ainda os sertanejos dos fuscas tunados. H\u00e1 os meninos e as meninas, em seus clubes dos bolinhas e luluzinhas. No Arouche tem footing gay nas tardes de domingo. Na Augusta em que nasci e vivi, tem todo dia, toda hora. Augusta dos 60, dos 70, dos 80, dos 90, dos cem em diante. 120 por hora.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo: sua bandeira e a do Brasil tremulam orgulhosas. Voc\u00ea \u00e9 preta, vermelha, branca. E verde e amarela. Aqui se v\u00ea de tudo e se faz muito pouco do que d\u00e1. Cada vila, bairro, uma cidade, uma ciranda. Milh\u00f5es de hist\u00f3rias para contar.<\/p>\n<p>Feliz Anivers\u00e1rio, minha v\u00e9ia!<\/p>\n<p>Daqui de S\u00e3o Paulo, janeiro de 2011<\/p>\n<p>\u2022 (*) Marli Gon\u00e7alves \u00e9 jornalista. E paulistana. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe\u00e7o desculpas de antem\u00e3o. Ter\u00e1 de ser um pouco maior, t\u00e3o grande quanto a cidade que homenageia. Feche os olhos. Imagine S\u00e3o Paulo. Vou tentar narr\u00e1-la. Ou descrev\u00ea-la como faz\u00edamos em nossa inf\u00e2ncia, na frente de desenhos importados e mal impressos. Aqui est\u00e1 tudo em nossa pr\u00f3pria carne. 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