{"id":74559,"date":"2013-10-31T18:22:19","date_gmt":"2013-10-31T21:22:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=74559"},"modified":"2013-10-31T18:22:19","modified_gmt":"2013-10-31T21:22:19","slug":"quem-sao-nossos-herois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2013\/10\/31\/quem-sao-nossos-herois\/","title":{"rendered":"QUEM S\u00c3O NOSSOS HER\u00d3IS ?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/julio-gomes.jpg\" width=\"333\" height=\"356\" \/>A ficha caiu quando assistia a um show de <i>rap<\/i> de Racionais MC. Um aluno do 3\u00ba ano me passou o CD como parte da apresenta\u00e7\u00e3o de um trabalho sobre o negro e a escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme o aluno me falou, no CD havia uma parte intitulada Document\u00e1rio, que versava sobre a escravid\u00e3o. Embora muito ambientado na realidade de S\u00e3o Paulo do S\u00e9culo XIX, o material \u00e9 de fato interessante, tanto pelas fotos dos cativos \u2013 esse privil\u00e9gio de podermos ver como eram os rostos de nossos antepassados, e n\u00e3o ficarmos restritos \u00e0 vers\u00e3o dos pintores &#8211; quanto pelo texto narrado em <i>off<\/i> pelos artistas da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assisti tudo. Pouco mais de uma hora de document\u00e1rio, que n\u00e3o se deteve na escravid\u00e3o, mas avan\u00e7ou pela Rep\u00fablica, falando das precar\u00edssimas condi\u00e7\u00f5es de vida dos descendentes dos escravos at\u00e9 a d\u00e9cada de 1980, al\u00e9m de abordar aspectos ligados \u00e0 cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s cumprir a obriga\u00e7\u00e3o de professor, fiquei livre para assistir ao Show contido no CD. Del\u00edcia. Sempre gostei da banda, desde jovem. Verdade que quando minhas filhas come\u00e7aram a crescer, parei de ouvir Racionais em casa. Tinha muito palavr\u00e3o e eu n\u00e3o queria dar mau exemplo. Mas continuei gostando \u2013 e elas tamb\u00e9m, porque muitas vezes as peguei ouvindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambientado em um cen\u00e1rio de favela, o grupo cantava alguns de seus melhores <i>raps<\/i>, quando percebi mais forte o apelo que toca de fato a juventude: Tendo o criminoso como primeira pessoa, falando de si e de seu mundo, o <i>rap<\/i> de Racionais acaba por coloc\u00e1-lo como o modelo e protagonista principal da juventude negra, pobre e mesti\u00e7a de nossas periferias. O cara!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo tendo a coragem de mostrar que a vida bandida \u00e9 sem futuro, e colocando em suas m\u00fasicas um criminoso que acaba sendo preso ou morto, o apelo mais forte \u00e9 de exalta\u00e7\u00e3o ao crime. O criminoso pode ser covarde, viciado, estuprador, assassino, cruel, mas n\u00e3o \u00e9 um bund\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um cara apagado que abaixou a cabe\u00e7a diante do perigo \u2013 que ele mesmo busca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante boa parte do S\u00e9culo XX o ideal de rebeldia e romantismo da juventude sempre foram os revolucion\u00e1rios de esquerda, dos quais Tche Guevara \u00e9 o \u00edcone, o exemplo mais bem acabado. Eram estes que largavam tudo &#8211; fam\u00edlia, vida burguesa, <i>status<\/i> &#8211; e arriscavam a pr\u00f3pria vida para buscar o sonho de um mundo melhor atrav\u00e9s de uma Revolu\u00e7\u00e3o popular e socialista. Foi assim durante d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da URSS, o sonho socialista sofreu um forte abalo. O caminho ficou escancarado para que o mercado fosse transformado em um Deus com raz\u00f5es, vontade e determina\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias e inquestion\u00e1veis; e o individualismo exacerbado e ego\u00edsta que se instalou na gera\u00e7\u00e3o que veio da d\u00e9cada de 1990 em diante nunca mais nos deixou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje qualquer um que lute pelo bem comum \u00e9, at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, um tremendo idiota. Afinal, o que importa \u00e9 ter o melhor carro, as melhores roupas e frequentar os ambientes mais caros. N\u00e3o h\u00e1 mais lugar para revolucion\u00e1rios!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, a rebeldia e a \u00e2nsia de viver intensamente continuam palpitando no cora\u00e7\u00e3o da juventude! Os jovens de hoje jamais iriam assaltar um banco para financiar uma luta pol\u00edtica, como acontecia nos anos 60, mas muitos deles matariam at\u00e9 aos pr\u00f3prios pais para passar o resto da vida luxando na beira da piscina, como ocorreu no caso Richthofen.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os valores est\u00e3o todos centrados no eu. N\u00e3o h\u00e1 comunidade, h\u00e1 indiv\u00edduos. Os valores morais s\u00e3o coisas do passado e a \u00fanica \u00e9tica compat\u00edvel com a modernidade \u00e9 aquela que conduz ao lucro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o jovem da periferia que, em regra n\u00e3o, tem condi\u00e7\u00f5es de fazer esta an\u00e1lise, a figura rebelde do criminoso \u00e9 mais do que suficiente para galvanizar seu ardor juvenil. Nada de morrer pelo coletivo, \u00e9 melhor assaltar e trocar tiros com a pol\u00edcia. Afinal, isto traz prest\u00edgio, respeito, mulheres e o principal \u2013 d\u00e1 lucro, e muito, a depender do tipo de crime praticado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tragam um imenso trof\u00e9u de idiota para n\u00f3s! Porque todos n\u00f3s \u2013 governos, escolas, empresas, institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, partidos pol\u00edticos, ONG\u2019s, meios de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 todos n\u00f3s o merecemos, com louvor, pois permitimos que o criminoso passasse a ser o <i>self made man<\/i>, o modelo a ser seguido pelo jovem da periferia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que acontecer a partir da\u00ed, tamb\u00e9m ser\u00e1 culpa nossa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Julio Cezar de Oliveira Gomes<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Professor, graduado em Hist\u00f3ria; e Advogado, graduado em Direito, ambos pela UESC \u2013 Universidade Estadual de Santa Cruz.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ficha caiu quando assistia a um show de rap de Racionais MC. Um aluno do 3\u00ba ano me passou o CD como parte da apresenta\u00e7\u00e3o de um trabalho sobre o negro e a escravid\u00e3o no Brasil. 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