{"id":7879,"date":"2011-02-01T08:33:28","date_gmt":"2011-02-01T11:33:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=7879"},"modified":"2011-02-01T08:33:28","modified_gmt":"2011-02-01T11:33:28","slug":"pura-expressao-da-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/02\/01\/pura-expressao-da-palavra\/","title":{"rendered":"PURA EXPRESS\u00c3O DA PALAVRA"},"content":{"rendered":"<p><img align = \"left\" src = \"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/HECKEL-NOVA.jpg\"\/>O fato aconteceu e, deu pano pra manga! <\/p>\n<p>\tDe antem\u00e3o, antes de chegarmos aos finalmente, deixo claro minha prefer\u00eancia pela neutralidade a cometer injusti\u00e7a posicionando-me a favor de uma das partes.<\/p>\n<p>\tAdemais apesar de configurar-se num conflito, n\u00e3o merecia o rigor do enquadramento como crime, na pura express\u00e3o da palavra, pelo menos jamais caber\u00e1 analogia com os delitos cometidos por nossas autoridades e pol\u00edticos.   <\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por\u00e9m o bicho pegou justamente nessa \u201cpura express\u00e3o da palavra\u201d.  Para encurtar conversa, vamos l\u00e1: Foi nos idos dos anos 60 em Belmonte e no antigo Banco da Bahia. Dentre outros este banco prestava o servi\u00e7o de cobran\u00e7as, carteira nessa \u00e9poca sob a responsabilidade de Robert Jos\u00e9 que, al\u00e9m de competente funcion\u00e1rio \u2013com excelente performance nos teclados das antigas Remington e Oliveti\u2013, possu\u00eda a fama de falador contumaz.  A clientela, devido ao pequeno porte da cidade, nos assuntos banc\u00e1rios afins relacionava-se diretamente com ele, e era sempre atendida com um acalorado \u201cE a\u00ed Fulano, o que voc\u00ea manda?\u201d. Belo dia um cliente desejoso em quitar uma duplicata da Pfizer Corporation, chega mandando certinho \u201cfaizer corporeicho\u201d, pron\u00fancia da referida firma inglesa.  De pronto Robert inicia a busca nos arquivos, mas nada encontrando na letra \u201cf\u00ea\u201d (assim se pronunciava antigamente) pede ao solicitante que retorne na semana seguinte, tempo de o malote ter chegado da matriz. Na data prevista, como o interessado sabia que o t\u00edtulo estava vencido e se fosse encontrado pagaria juros mais multa etc., calculou o dinheiro do d\u00e9bito e chegou cedo \u00e0 ag\u00eancia, mas tamb\u00e9m com mais uma outra  decis\u00e3o em mente: processar a firma ou o banco pelo preju\u00edzo. Sem saber, evidentemente, das inten\u00e7\u00f5es do cliente, Robert, em sua habitual maneira, serelepe e em alto e bom som foi logo \u201cDiga meu caro, tudo bem? Passei a noite toda vasculhando documentos, mas seu s\u00f3 encontrei da Pifizer Corporation\u201d. Isso mesmo: com sonoros \u201cpifizer\u201d e \u201ccorporation\u201d e o \u201cpifi\u201d e o \u201cration\u201d foneticamente destacados. <\/p>\n<p>Por raz\u00f5es \u00f3bvias s\u00f3 o banco fora processado e o caso foi parar na Justi\u00e7a. Alguns colegas banc\u00e1rios que tiveram cartorial acesso aos autos do processo revelaram que a tese da defesa se prendeu ao purismo da l\u00edngua, enfocando a obrigatoriedade de que em territ\u00f3rio brasileiro \u2013especialmente em reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ou privadas\u2013, qualquer palavra estrangeira deveria ser aportuguesada, com a obriga\u00e7\u00e3o do falante pronunci\u00e1-la como tal.   <\/p>\n<p>Fiquei como disse, naquela de \u201cnem tanto nem t\u00e3o pouco\u201d. Entretanto, no rastro do acontecido, saindo do muro de fininho, vejo o abuso do estrangeirismo na propaganda comercial em lojas de shoppings, num pa\u00eds em que boa parcela da popula\u00e7\u00e3o mal, mal, digere o portuga, como uma pr\u00e1tica subdesenvolvida.  Noutra vertente, se vingasse a tentativa de puristas da l\u00edngua \u2013neologistas por excel\u00eancia\u2013 em transformar o inicial \u201cfootball\u201d em \u201cludop\u00e9dio\u201d, \u201cbal\u00edpodo\u201d ou em \u201cbolap\u00e9\u201d, como desejaram, apostaria que seria arrepiante. J\u00e1 pensou que barato o Pualinho G\u00f3es (do Bradesco) aqui da Capitania dos Ilh\u00e9us telefonando \u201cAl\u00f4 Vado, \u00f3, n\u00e3o v\u00e1 beber amanh\u00e3 n\u00e3o porque tem \u2018bolap\u00e9\u2019 na Avep\u201d, alertando o parceiro insepar\u00e1vel sobre o baba de praia da associa\u00e7\u00e3o!? Sinceramente, de lado a for\u00e7a do costume, para mim \u201cfutebol\u201d como ficou, e transformado pela din\u00e2mica das ruas, tem a sonoridade mil vezes melhor.<\/p>\n<p>Como o juiz do inqu\u00e9rito desde muito se tornou um combatente do Juridiqu\u00eas, n\u00e3o aceitando, por exemplo, termos como \u201cconsorte sup\u00e9rstite\u201d em lugar de simples \u201cvi\u00favo\u201d, nem pomposos como  \u201cexcelso sodal\u00edcio\u201d para Supremo Tribunal Federal, e convencido de que o epis\u00f3dio banc\u00e1rio da literalidade exprime \u2013como o Judici\u00e1rio e a sociedade\u2013 um grande problema de comunica\u00e7\u00e3o, resolveu encaminh\u00e1-lo para uma inst\u00e2ncia superior, onde aguarda-se solu\u00e7\u00e3o.  Ah, o protagonista hoje, invocado agora em usar pseud\u00f4nimo, reside na Canes baiana, e curte literatura, inclusive \u00e9 membro e fundador da academia de letras daquela cidade. <\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\tHeckel Janu\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fato aconteceu e, deu pano pra manga! De antem\u00e3o, antes de chegarmos aos finalmente, deixo claro minha prefer\u00eancia pela neutralidade a cometer injusti\u00e7a posicionando-me a favor de uma das partes. 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