{"id":79748,"date":"2014-03-08T12:11:51","date_gmt":"2014-03-08T15:11:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=79748"},"modified":"2014-03-08T12:11:51","modified_gmt":"2014-03-08T15:11:51","slug":"solidariedade-feminina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2014\/03\/08\/solidariedade-feminina\/","title":{"rendered":"SOLIDARIEDADE FEMININA"},"content":{"rendered":"<p><i>Reproduzimos, a seguir, um artigo publicado no jornal A FOLHA DE S. PAULO a 22 de fevereiro de 2014, numa justa homenagem a esse fant\u00e1stico ser, que \u00e9 verdadeiro baluarte do g\u00eanero masculino. Sabiamente, Dr. Drauzio exp\u00f5e os motivos da eterna depend\u00eancia do homem, que n\u00e3o pode prescindir dos cuidados femininos. Meu beijo a todas.<\/i><\/p>\n<p><i><\/i><i>JUVENTINO RIBEIRO<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>\u00a0SOLIDARIEDADE FEMININA<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Drauzio Varella<\/strong><\/p>\n<p>Se voc\u00ea s\u00f3 tem filhos homens, n\u00e3o tem m\u00e3e nem irm\u00e3s, reza para morrer antes de sua esposa. Se acontecer o contr\u00e1rio, meu amigo, \u00e9 prov\u00e1vel que seus \u00faltimos dias sejam passados com estranhos.<\/p>\n<p>V\u00e1 aos hospitais. A probabilidade de ver um acompanhante do sexo masculino \u00e9 m\u00ednima; ao lado de um doente internado, haver\u00e1 sempre uma mulher, seja filha, esposa, irm\u00e3, m\u00e3e, nora ou amiga.<\/p>\n<p>Sem pretender ofend\u00ea-lo, leitor sens\u00edvel, capaz de cair em pranto convulsivo s\u00f3 de pensar no dia em que seus pais partirem, lamento prever que, ao ficar gravemente enfermos, eles pouco poder\u00e3o contar com voc\u00ea.<\/p>\n<p>N\u00e3o me interprete mal, n\u00e3o digo que v\u00e1 abandon\u00e1-los num leito qualquer, \u00e0 espera da morte. Voc\u00ea ir\u00e1 visit\u00e1-los quase todos os dias, na hora do almo\u00e7o. Perguntar\u00e1 se est\u00e3o bem, se precisam de alguma coisa, se as dores melhoraram, tomar\u00e1 provid\u00eancias pr\u00e1ticas, mas infelizmente precisar\u00e1 voltar para o escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Em dias mais corridos, voc\u00ea deixar\u00e1 para ir no fim do expediente. Pedir\u00e1 desculpas pelos tr\u00eas dias de aus\u00eancia motivada pelo excesso de trabalho, repetir\u00e1 as mesmas perguntas, reclamar\u00e1 do tempo perdido no tr\u00e2nsito, sentar\u00e1 no sof\u00e1 durante quinze minutos, dir\u00e1 que est\u00e1 exausto, morto de fome e que as crian\u00e7as o esperam para o jantar.<\/p>\n<p>Pode ser que voc\u00ea n\u00e3o se identifique com o personagem que acabo de descrever. Talvez voc\u00ea seja do tipo ultrassens\u00edvel, que gosta tanto do papai, que se mortifica ao v\u00ea-lo naquele estado, e que, na hora de visit\u00e1-lo, n\u00e3o encontra for\u00e7as. Aquele que n\u00e3o vai \u00e0 casa da mam\u00e3e velhinha que perdeu o ju\u00edzo, para n\u00e3o ter o cora\u00e7\u00e3o despeda\u00e7ado cada vez que ela o confunde com o verdureiro.<\/p>\n<p>Talvez, ainda, voc\u00ea seja do tipo dur\u00e3o, acostumado a agarrar o boi pelos chifres. Nas visitas-rel\u00e2mpago, voc\u00ea far\u00e1 o poss\u00edvel para anim\u00e1-lo. Insistir\u00e1 em que \u00e9 preciso reagir, que esmorecer \u00e9 desmerecer, que o pessimismo \u00e9 metade do caminho para a sepultura, al\u00e9m de outras p\u00e9rolas retiradas dos calend\u00e1rios seichonoi\u00ea.<\/p>\n<p>Ir\u00e1 embora irritado, decepcionado com a passividade do progenitor, convencido de que ele se acha naquela situa\u00e7\u00e3o porque \u00e9 \u2013 e sempre foi \u2013 antes de tudo um fraco.<\/p>\n<p>Existe uma caracter\u00edstica comum a esses cavalheiros, sejam sens\u00edveis, ultrassens\u00edveis ou dur\u00f5es: s\u00e3o cidad\u00e3os respons\u00e1veis, t\u00e3o dedicados ao trabalho que n\u00e3o lhes sobra tempo para nada. Se n\u00e3o passam uma noite sequer com a m\u00e3e hospitalizada \u00e9 porque precisam correr atr\u00e1s do ganha-p\u00e3o.<\/p>\n<p>Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, os circunstantes aceitam e repetem essa justificativa, como se as mulheres n\u00e3o passassem de um bando de desocupadas, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos doentes.<\/p>\n<p>Mesmo quando ela \u00e9 arrimo de fam\u00edlia, casada com um daqueles cidad\u00e3os que esganaria o inventor do trabalho, fosse-lhe dada a oportunidade de encontr\u00e1-lo, \u00e9 ela que passar\u00e1 a noite ao lado do sogro acamado. A explica\u00e7\u00e3o? Os homens s\u00e3o desajeitados para essas coisas.<\/p>\n<p>Em mais de quarenta anos de medicina, assisti a tantas demonstra\u00e7\u00f5es de empatia e solidariedade feminina com as pessoas doentes, que aprendi a considerar as mulheres seres mais evolu\u00eddos do que n\u00f3s. S\u00e3o capazes de esquecer a pr\u00f3pria vida, para lutar pela sa\u00fade de um ente querido. Nem falo no caso de um filho, j\u00e1 que o amor materno \u00e9 instinto visceral, mas de gente mais distante: tios, primas e amigas que, se dependessem de nossa companhia, estariam solit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Apesar de me render \u00e0 grandeza da alma feminina, reconhe\u00e7o a parcela de culpa que cabe \u00e0s mulheres, na g\u00eanese do egocentrismo masculino nessas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No af\u00e3 de proteger o filhinho, as m\u00e3es procuram mant\u00ea-lo distante de tudo que lhe possa trazer tristeza. T\u00e3o naturais e inevit\u00e1veis como o dia e a noite, a doen\u00e7a e a morte s\u00e3o entendidas por elas como experi\u00eancias extremas das quais o pimpolho deve ser poupado.<\/p>\n<p>Estranhamente, a filha n\u00e3o \u00e9 educada da mesma maneira. Desde pequena \u00e9 estimulada a cuidar das bonecas doentes, a ajudar a m\u00e3e quando o irm\u00e3ozinho est\u00e1 gripado. Essa exposi\u00e7\u00e3o precoce \u00e0s vicissitudes de nossa exist\u00eancia interage com o esp\u00edrito feminino, deixando marcas que se refletir\u00e3o na forma peculiar como as mulheres lidam com o sofrimento humano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reproduzimos, a seguir, um artigo publicado no jornal A FOLHA DE S. PAULO a 22 de fevereiro de 2014, numa justa homenagem a esse fant\u00e1stico ser, que \u00e9 verdadeiro baluarte do g\u00eanero masculino. Sabiamente, Dr. Drauzio exp\u00f5e os motivos da eterna depend\u00eancia do homem, que n\u00e3o pode prescindir dos cuidados femininos. Meu beijo a todas. 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