{"id":8154,"date":"2011-02-06T20:33:10","date_gmt":"2011-02-06T23:33:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=8154"},"modified":"2011-02-06T20:40:44","modified_gmt":"2011-02-06T23:40:44","slug":"isabel-vasconcelos-em-despedida-da-medica-pioneira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/02\/06\/isabel-vasconcelos-em-despedida-da-medica-pioneira\/","title":{"rendered":"Isabel Vasconcellos em:  Despedida da M\u00e9dica Pioneira"},"content":{"rendered":"<p><center><b>CLIQUE PARA AMPLIAR<br \/>\n&#8212;<br \/>\n<\/b><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Homenagem.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Homenagem-300x250.jpg\" alt=\"\" title=\"Homenagem\" width=\"300\" height=\"250\" class=\"alignnone size-medium wp-image-8155\" srcset=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Homenagem-300x250.jpg 300w, https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Homenagem.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/center><\/p>\n<p><img align = \"right\" src = \"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/isabel-vasconcellos.jpg\"\/>Maria Elizabeth fora uma das primeiras mulheres a fazer Medicina no pa\u00eds, fora tamb\u00e9m a primeira cirurgi\u00e3, numa \u00e9poca em que as mulheres raramente eram mais do que donas de casa ou prostitutas. Na faculdade fora alvo de esc\u00e1rnio dos colegas e dos professores, tanto que seu pai a acompanhava no trajeto de casa \u00e0 escola, para proteg\u00ea-la das eventuais agress\u00f5es verbais e\/ ou mesmo f\u00edsicas. O valente senhor passou os anos da faculdade a acompanhar a filha na ida e na volta da escola.<\/p>\n<p>\u00c0s pioneiras m\u00e9dicas s\u00f3 era permitido (e mesmo assim muito mal permitido) o exerc\u00edcio de especialidades que mais bem se coadunassem com a sua condi\u00e7\u00e3o de mulher: ginecologia, obstetr\u00edcia e, no m\u00e1ximo, pediatria. Uma cirurgi\u00e3 era uma ousadia e tanto. J\u00e1 era dif\u00edcil para os homens admitir que as mulheres pudessem manipular corpos, \u00f3rg\u00e3os, cad\u00e1veres, que dir\u00e1 abrir um corpo e ter sua vida e sua ess\u00eancia nas m\u00e3os.<br \/>\nMas a Dra.Beth, como era carinhosamente chamada por seus pacientes e admiradores, vencera todos os obst\u00e1culos. <\/p>\n<p>Agora ali estava, aos 70 anos mal completos, pronta a passar sua cadeira de Professora Titular de Cirurgia Geral ao colega mais jovem que a substituiria e assumir o \u201cpr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o\u201d do cargo de professora em\u00e9rita.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Aquela aposentadoria compuls\u00f3ria institu\u00edda pelas Universidades era uma grande injusti\u00e7a, julgava ela. Uma injusti\u00e7a para homens e mulheres que, no auge da sabedoria, se viam afastados de suas fun\u00e7\u00f5es, como se tivessem tornado, com a idade, em vez de s\u00e1bios, decr\u00e9pitos.<\/p>\n<p>Ouvia, com l\u00e1grimas nos olhos, o discurso da jovem m\u00e9dica, na solenidade de entrega do cargo, que exaltava a coragem dela ao lutar contra os preconceitos e impor-se sobre eles para realizar sua verdadeira voca\u00e7\u00e3o. Mas as l\u00e1grimas que dan\u00e7avam em seus olhos e que ela lutava (sempre lutando!) para n\u00e3o deixar escorrer, n\u00e3o eram exatamente resultado da emo\u00e7\u00e3o do momento. Eram muito mais l\u00e1grimas de frustra\u00e7\u00e3o e revolta.<\/p>\n<p>O cargo que, h\u00e1 anos, fora a consagra\u00e7\u00e3o de toda uma vida de conquistas e vit\u00f3rias, aquilo que era de fato a sua vida, o seu cotidiano, a raz\u00e3o de sua exist\u00eancia, escorria-lhe pelos dedos, como areia.<\/p>\n<p>Pela primeira vez Maria Elizabeth sentia-se impotente.<\/p>\n<p>N\u00e3o poderia impedir a destrui\u00e7\u00e3o de seu cotidiano. Estava acabado. A rotina da Universidade agora seria dos mais jovens, que a veriam sempre como uma pe\u00e7a de museu, uma imagem do passado, aprenderiam o respeito que lhe era devido, mas o futuro, a esperan\u00e7a, a conquista j\u00e1 n\u00e3o mais pertencia a ela. Ela se tornara definitivamente passado.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, dentro de si, o que gritava era o presente.<br \/>\nE o presente ainda clamava por ela. Ainda havia muito a discutir, muito a refletir, muito porque lutar dentro da carreira m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, assim como dizem que a vida desfila diante dos nossos olhos no momento da morte, suas lutas passadas desfilaram por ela num breve instante: as humilha\u00e7\u00f5es sofridas na faculdade e as respostas que soubera dar a elas; a incr\u00edvel transforma\u00e7\u00e3o da Medicina nas \u00faltimas d\u00e9cadas com o advento de in\u00fameros medicamentos de efic\u00e1cia surpreendente, os procedimentos modernos n\u00e3o invasivos, os sofisticados exames que auxiliavam o m\u00e9dico em diagn\u00f3sticos muito mais precisos&#8230; <\/p>\n<p>Mas nem tudo era avan\u00e7o. <\/p>\n<p>Em contrapartida \u00e0s deslumbrantes conquistas cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas, estava a excessiva especializa\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico, que afastava a vis\u00e3o hol\u00edstica do ser humano e a compreens\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o entre o biol\u00f3gico, o psicol\u00f3gico e o social. <\/p>\n<p>Estava o alto custo dos diagn\u00f3sticos e procedimentos sofisticados de tecnologia de ponta, que acabavam elevando muit\u00edssimoos custos da Medicina e gerando uma guerra surda entre as diversas partes do sistema: laborat\u00f3rios, hospitais, m\u00e9dicos e empresas de assist\u00eancia m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Estavam ainda o alto custo dos modernos medicamentos; a transforma\u00e7\u00e3o de grande parte dos m\u00e9dicos de profissionais liberais em assalariados mal pagos; a inomin\u00e1vel inefici\u00eancia, corrup\u00e7\u00e3o e incompet\u00eancia da sa\u00fade p\u00fablica; a prolifera\u00e7\u00e3o de escolas m\u00e9dicas sem a m\u00ednima infraestrutura necess\u00e1ria, escolas montadas unicamente como m\u00e1quinas de produzir dinheiro&#8230; <\/p>\n<p>Tudo isso estava ali, diante dos olhos dela, clamando por propostas, investimentos, reivindica\u00e7\u00f5es&#8230; Tanto a fazer, tanto porque lutar e ela sendo arrancada de seu status m\u00e9dico. Era de desesperar.<br \/>\nA ensurdecedora chuva de aplausos a trouxe de volta \u00e0 realidade do momento.<\/p>\n<p>Supostamente, uma homenagem de seus colegas e alunos.<\/p>\n<p>Na realidade, muita gente feliz por v\u00ea-la fora do cargo. Gente que discordava de seus m\u00e9todos, gente que queria derrubar v\u00e1rios dos procedimentos que ela criara em seu departamento. Alguns sinceramente imbu\u00eddos de um esp\u00edrito inovador, mas talvez equivocado. Outros por teimosia ou inveja.<\/p>\n<p>Maria Elizabeth percebe, no entanto, que ainda ter\u00e1 armas com as quais lutar: seu prest\u00edgio, o respeito que conquistara ao longo da carreira, seus ideais, o conhecimento que ainda pode transmitir aos jovens doutores, as quest\u00f5es que ainda pode levantar.<\/p>\n<p>E, pensando nisso, a dureza da express\u00e3o do seu rosto se desfaz como que por encanto e, abrindo o seu melhor sorriso, ela inclina o corpo, num abrangente agradecimento.<\/p>\n<p><em>PS: esta \u00e9 uma hist\u00f3ria de fic\u00e7\u00e3o, baseada nas pioneiras m\u00e9dicas Elizabeth Blackwell, a primeira americana diplomada, nas brasileiras pioneiras Maria Augusta Estrela e Rita Lobato e dedicada \u00e0s m\u00e9dicas do Brasil, Profa.Dra.Angelita Gama, Profa. Dra.Albertina Duarte e \u00e0 m\u00e9dica e escritora Dra.Yvonne Capuano.<\/em><\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\n<b>Isabel Vasconcellos Caetano<\/b> \u00e9 escritora e apresentadora de R\u00e1dio e TV, pioneira em programas m\u00e9dicos na TV, atualmente com o programa Sexo Sem Vergonha na r\u00e1dio Tupi AM.<br \/>\nisabel@isabelvasconcellos.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CLIQUE PARA AMPLIAR &#8212; Maria Elizabeth fora uma das primeiras mulheres a fazer Medicina no pa\u00eds, fora tamb\u00e9m a primeira cirurgi\u00e3, numa \u00e9poca em que as mulheres raramente eram mais do que donas de casa ou prostitutas. 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