{"id":8206,"date":"2011-02-07T10:36:21","date_gmt":"2011-02-07T13:36:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=8206"},"modified":"2011-02-07T10:36:21","modified_gmt":"2011-02-07T13:36:21","slug":"a-musica-burra-da-bahia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/02\/07\/a-musica-burra-da-bahia\/","title":{"rendered":"A M\u00fasica Burra da Bahia"},"content":{"rendered":"<p><img align = \"left\" src = \"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/DEGAS-NOVA.jpg\"\/>Hoje li uma reportagem no jornal ATARDE (<a href=\"http:\/\/www.atarde.com.br\/cultura\/noticia.jsf?id=5683566\" = target = \"_news\"> aqui<\/a>) que falava sobre as m\u00fasicas baianas, agora que estamos a poucas semanas do carnaval. A reportagem d\u00e1 conta de que \u201c<i>nos \u00faltimos anos, as letras, principalmente as de pagode, ficaram mais sexualizadas. \u2018O que explica isso \u00e9 a ditadura do sucesso. Podemos dizer que o ax\u00e9 \u00e9 para dan\u00e7ar e o pagode \u00e9 para esculhambar. O problema \u00e9 que ele entrou num excesso, est\u00e3o repetindo muito a forma\u2019, diz Lu\u00eds Caldas<\/i>\u201d. De fato, parece que a vers\u00e3o picante da m\u00fasica precisa estar em forte evid\u00eancia hoje em dia. N\u00e3o \u00e9 mais um duplo sentido. Muitas vezes \u00e9 um \u00fanico sentido mesmo. O que n\u00e3o \u00e9 ruim, a princ\u00edpio. desde que o texto seja tratado com intelig\u00eancia e bom gosto.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Moramos, mui felizmente, num estado que possui uma identidade cultural muito forte. Talvez \u00edmpar em todo o pa\u00eds. H\u00e1 uma grande percep\u00e7\u00e3o de \u201cestar na Bahia\u201d que nos cerca. O jeito colorido e despojado das pessoas se vestirem, o aroma dos quitutes das baianas e seus tabuleiros, o sotaque, as express\u00f5es, a religiosidade. \u00c9 uma esp\u00e9cie de atmosfera baiana. \u00danica e facilmente identific\u00e1vel.<\/p>\n<p>\nAlguns anos atr\u00e1s incluiria nesta atmosfera a m\u00fasica. O gingado, o ritmo, a alegria dos forr\u00f3s, frevos, <i>reggaes<\/i>, sambas. E, claro, as letras. Incluindo seu duplo sentido e seu erotismo, evidentemente.\n<\/p>\n<p>\nPessoalmente n\u00e3o vejo problema nenhum com letras de duplo sentido. Nem mesmo com letras de sentido \u00fanico. Pode ser engra\u00e7ado, bonito, er\u00f3tico, ou simplesmente agrad\u00e1vel de ouvir e\/ou dan\u00e7ar. Alguns ouvidos podem se incomodar com letras de duplo sentido, ou de sentido \u00fanico. Os meus n\u00e3o. Nem mesmo letras er\u00f3ticas ou meramente pornogr\u00e1ficas me incomodam a princ\u00edpio.\n<\/p>\n<p>\nEntretanto, meus ouvidos se recusam a gostar do verso f\u00e1cil, produzido a toque de caixa, com rimas pobres, for\u00e7adas ou mesmo inexistentes.\n<\/p>\n<p>\nOcorre que o sucesso alcan\u00e7ado pela m\u00fasica baiana nos anos 80 gerou uma grande ind\u00fastria fonogr\u00e1fica que movimenta valores cada vez mais altos. Esta ind\u00fastria, por\u00e9m, precisa de mat\u00e9ria-prima para mover suas engrenagens. M\u00fasica. A partir deste insumo movem-se as r\u00e1dios com seus jab\u00e1s, os blocos e suas cordas, as vendas de CD e DVD. Esta ind\u00fastria da fonografia baiana precisa sempre de novas bandas, novas m\u00fasicas, novas coreografias. Tudo isso em escala industrial, a fim de mover toda a sua engenharia.\n<\/p>\n<p>\nInfelizmente n\u00e3o se produz m\u00fasica plantando, ou numa linha de produ\u00e7\u00e3o. Pelo menos n\u00e3o se produz boa m\u00fasica assim. Isto posto, o resultado dessa demanda \u00e9 a queda da qualidade.\n<\/p>\n<p>\nNada contra o duplo sentido. Mas este precisa ser constru\u00eddo com intelig\u00eancia. O que atrai n\u00e3o \u00e9 o sentido picante, \u00e9 a descoberta deste sentido, inicialmente oculto atr\u00e1s de uma letra mais inocente. \u00c9 o humor, verdadeira &#8220;gin\u00e1stica do c\u00e9rebro&#8221; segundo Juca Chaves. Lembro de Lu\u00eds Caldas cantando \u201c<i>L\u00e1 vem o Guarda, Guarda \/ L\u00e1 vem o Tira, Tira meu bem<\/i>\u201d. Depois que percebemos o duplo sentido, sorrimos. \u00c9 agrad\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 uma apela\u00e7\u00e3o evidente, frente a qual somos convidados a abandonar as faculdades cerebrais como em \u201c<i>Toma Negona, na boca e na Bochecha<\/i>\u201d.\n<\/p>\n<p>\nPor outro lado, pode-se simplesmente abrir m\u00e3o do duplo sentido. A letra pode ser simplesmente er\u00f3tica, com sexualidade evidente. Pode ter palavr\u00f5es, falar de sexo, de c\u00f3pula, de \u00f3rg\u00e3os sexuais. Isso n\u00e3o faz a letra ser ruim. Carlos Drummond de Andrade e M\u00e1rio Quintana nos d\u00e3o alguns exemplos (<a href=\"http:\/\/www.portalsaofrancisco.com.br\/alfa\/carlos-drumond\/a-puta.php\" = target = \"_news\"> aqui<\/a> e <a href=\"http:\/\/mais.uol.com.br\/view\/e8h4xmy8lnu8\/a-criao-da-xoxota-segundo-mario-quintana-04023064C4A90346\" = target = \"_news\"> aqui<\/a>). \u00c9 f\u00e1cil ver a beleza no texto de Drummond e o humor requintado no texto de Quintana. Nada a ver com o apelo simpl\u00f3rio e imediato dos pagodes baianos de hoje.\n<\/p>\n<p>\nA m\u00fasica baiana est\u00e1 sofrendo. Mas n\u00e3o \u00e9 culpa do erotismo, ou da sexualidade. O problema \u00e9 com o verso simpl\u00f3rio, sem criatividade. \u00c9 a letra que n\u00e3o apela ao pensamento, que pretende ser engra\u00e7ada ou er\u00f3tica, mas \u00e9 apenas tola. Um tipo de besteirol musical. Eu, pessoalmente, passo. N\u00e3o me agrada. N\u00e3o \u00e9 nada contra o erotismo, a sexualidade, mesmo o palavr\u00e3o. \u00c9 contra a burrice.\n<\/p>\n<p>\nE, infelizmente, a m\u00fasica da Bahia est\u00e1 ficando burra.\n<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje li uma reportagem no jornal ATARDE ( aqui) que falava sobre as m\u00fasicas baianas, agora que estamos a poucas semanas do carnaval. A reportagem d\u00e1 conta de que \u201cnos \u00faltimos anos, as letras, principalmente as de pagode, ficaram mais sexualizadas. \u2018O que explica isso \u00e9 a ditadura do sucesso. 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