{"id":84428,"date":"2014-08-01T17:02:54","date_gmt":"2014-08-01T20:02:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=84428"},"modified":"2014-08-01T17:02:54","modified_gmt":"2014-08-01T20:02:54","slug":"caro-anatole","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2014\/08\/01\/caro-anatole\/","title":{"rendered":"Caro Anatole"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Paiva Netto<\/strong><\/p>\n<div style=\"width: 190px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/Jos%C3%A9-de-Paiva-Netto-fevereiro-2011_.jpg\" alt=\"\" width=\"180\" height=\"229\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Paiva Netto<\/p><\/div>\n<p>O velho Anatole France (1844-1924) foi um cr\u00edtico implac\u00e1vel dos costumes e da sociedade do seu tempo. Combatia com tenacidade os desmandos de que era testemunha, como a farsa contra o capit\u00e3o Alfred Dreyfus (1859-1935). De origem judaica, o militar franc\u00eas tornou-se v\u00edtima de um dos maiores erros judiciais da hist\u00f3ria moderna. Ele foi, de maneira p\u00e9rfida, acusado de passar informa\u00e7\u00f5es secretas aos germ\u00e2nicos, as quais tinham caligrafia for\u00e7adamente semelhante \u00e0 sua. Por esse motivo, foi exilado na Ilha do Diabo, situada na costa da Guiana Francesa. Os debates a respeito do caso arrastaram-se at\u00e9 o capit\u00e3o ser totalmente inocentado, em 1906. Logo ap\u00f3s, retornou ao ex\u00e9rcito, participando da Primeira Guerra Mundial. Foi promovido, em 1918, a tenente-coronel da reserva e, um ano depois, eleito oficial da Legi\u00e3o de Honra. A exemplo de Rui Barbosa (1849-1923), \u00c9mile Zola (1840-1902) foi igualmente um defensor extremado de Dreyfus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Consci\u00eancias dedicadas \u00e0 Paz<\/strong><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Estomagado com a frieza de sentimentos que percebia \u00e0 sua volta, partindo de cora\u00e7\u00f5es nos quais deveria habitar a conc\u00f3rdia, Anatole escreveu que \u201ca paz universal se realizar\u00e1 um dia, n\u00e3o porque os homens se tornar\u00e3o melhores (n\u00e3o \u00e9 permitido esper\u00e1-lo), mas porque uma nova ordem de coisas, uma ci\u00eancia nova, novas necessidades econ\u00f4micas h\u00e3o de impor-lhes o estado pac\u00edfico, assim como outrora as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es da sua exist\u00eancia os punham e os mantinham no estado de guerra\u201d.<\/p>\n<p>Meu caro Jacques-Anatole-Fran\u00e7ois Thibault (seu verdadeiro nome), com a sua consistente forma\u00e7\u00e3o humanista \u2014 afastados, por sua conhecida veia po\u00e9tica, os desgostos que lhe causaram as observa\u00e7\u00f5es de uma sociedade a gravitar em torno de uma exasperante egolatria \u2014, seu brilhante esp\u00edrito imortal haver\u00e1 de entender que, para n\u00e3o se transformar em tormento perene dos povos, o mundo precisa de consci\u00eancias dedicadas \u00e0 paz. Portanto, de almas iluminadas pela raz\u00e3o, pela justi\u00e7a, mas tamb\u00e9m pelo amor, que \u00e9 sin\u00f4nimo de caridade, de modo que exista uma \u201cnova ordem de coisas, numa ci\u00eancia nova\u201d, para que \u201ca paz universal\u201d venha a se realizar \u201cum dia\u201d. A an\u00e1lise limitada dos fatos humanos, pol\u00edticos e sociais pela restrita vis\u00e3o de espa\u00e7o-tempo terrenos tende a mostrar, mesmo \u00e0s mais sagazes cerebra\u00e7\u00f5es, uma perspectiva sociol\u00f3gica desfocada, consequentemente desalentadora, dos acontecimentos. H\u00e1 algo mais, por\u00e9m, a come\u00e7ar pela exist\u00eancia de uma lei universal, chamada de causa e efeito, que dirige os destinos da Terra. Por isso, faz-se t\u00e3o importante a compreens\u00e3o desses estatutos divinos, os quais, levando em conta nosso direito ao livre-arb\u00edtrio, concedem a cada um de acordo com o pr\u00f3prio merecimento, segundo a lei da reencarna\u00e7\u00e3o \u2014 definida por um respeitado sacerdote como \u201co Judici\u00e1rio de Deus\u201d. Sem a evolu\u00e7\u00e3o do sentimento humano, toda e qualquer proposta de paz fomentar\u00e1, com certeza, o ceticismo de homens inteligentes como voc\u00ea.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o temer o lobo<\/strong><\/p>\n<p>William Ralph Inge (1860-1954) declarou que \u201cn\u00e3o adianta os cordeiros proclamarem o vegetarianismo enquanto o lobo mant\u00e9m opini\u00e3o diversa\u201d. No entanto, n\u00e3o podemos prosseguir continuamente temendo essa expectativa castradora de nossas iniciativas, porque o tempo urge. Ainda existe muita gente a querer tocar fogo no planeta, tal qual novo Nero (37-68). Para avan\u00e7ar, \u00e9 preciso n\u00e3o temer o lobo, mas revestir-se das armas da paci\u00eancia e da determina\u00e7\u00e3o e fortalecer, nas horas de perigo, a alma, como, por exemplo, nesta s\u00faplica de Santo Agostinho (354-430): \u201c\u00d3 Deus! Permiti que o resplendor da Vossa Luminosidade clareie os rec\u00f4nditos do meu cora\u00e7\u00e3o\u201d (&#8230;). Orar concede tranquilidade e for\u00e7a ao esp\u00edrito. Dessa forma, aclara a mente, de modo que conceba processos pragm\u00e1ticos para que suplante toda dificuldade. Anote, por favor, caro Anatole, esta li\u00e7\u00e3o do seu compatriota Honor\u00e9 de Balzac (1799-1850), autor de \u201cA Com\u00e9dia Humana\u201d: \u201cTodo poder \u00e9 um composto de paci\u00eancia e tempo\u201d.<\/p>\n<p>A paz s\u00f3 vigorar\u00e1 neste orbe quando o ser humano finalmente entender e aceitar que ela apenas poder\u00e1 surgir do cora\u00e7\u00e3o sublimado das criaturas. O restante \u00e9 o que se tem visto: ideologias fortemente cerebrais, t\u00e3o em voga no seu tempo, cuja consequ\u00eancia geral voc\u00ea conhece: muita expectativa e resultado a desejar. \u00c9, portanto, urgente unir c\u00e9rebro e cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 de Paiva Netto \u2014 Jornalista, radialista e escritor.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"mailto:paivanetto@lbv.org.br\"><strong>paivanetto@lbv.org.br<\/strong><\/a><strong> \u2014 <\/strong><a href=\"http:\/\/www.boavontade.com\/\"><strong>www.boavontade.com<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paiva Netto O velho Anatole France (1844-1924) foi um cr\u00edtico implac\u00e1vel dos costumes e da sociedade do seu tempo. Combatia com tenacidade os desmandos de que era testemunha, como a farsa contra o capit\u00e3o Alfred Dreyfus (1859-1935). De origem judaica, o militar franc\u00eas tornou-se v\u00edtima de um dos maiores erros judiciais da hist\u00f3ria moderna. 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