{"id":85661,"date":"2014-09-05T10:20:56","date_gmt":"2014-09-05T13:20:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=85661"},"modified":"2014-09-08T07:55:46","modified_gmt":"2014-09-08T10:55:46","slug":"um-kuarup-tupinakya","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2014\/09\/05\/um-kuarup-tupinakya\/","title":{"rendered":"Um Kuarup Tupinakya"},"content":{"rendered":"<div style=\"color: #222222;\">\n<div>\n<div>\n<p>Fui ao Banco do Brasil da Paranagu\u00e1 fazer um dep\u00f3sito para Suzi, l\u00e1 encontrando um velho conhecido, o taxista E., de quem conhecia a sua hist\u00f3ria de vida, a mim contada em uma das muitas corridas que fizemos da Cayr\u00fa ao Pontal.<\/p>\n<p>Foi na demorada fila de espera ao atendimento que me bateu a ideia de aqui contar esta hist\u00f3ria, associando a vida do E. ao caso talvez ver\u00eddico contado por Ant\u00f4nio Callado no seu livro Quarup, de leitura quase obrigat\u00f3ria pelos esquerdistas, &#8220;escoceses&#8221; ou n\u00e3o, dos anos setenta. Nunca tive o prazer em ler o livro, mas Ant\u00f4nia, colega minha no Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico, sediado no Pelourinho, o leu e ostentava orgulhosamente a sua capa sempre que subia as escadas ao sal\u00e3o de trabalho dos arquitetos e estagi\u00e1rios encarregados dos projetos de restaura\u00e7\u00e3o daqueles antigos edif\u00edcios corro\u00eddos pelo tempo.<\/p>\n<\/div>\n<p>Foi ela quem me contou a primeira parte da hist\u00f3ria que aqui relato, relacionando aquela narrada por Callado \u00e0 do nosso taxista ilheense.<\/p>\n<\/div>\n<p>No romance de Callado, talvez baseado em fato real, um pequeno \u00edndio de uma aldeia xinguana foi levado \u00e0 cidade por religiosos\u00a0 de alguma ordem mission\u00e1ria cat\u00f3lica, ali estudando e demonstrando possuir um grande talento intelectual. Na adolesc\u00eancia, foi levado a Roma, onde continuou seus estudos, se formando e se p\u00f3s-graduando em Teologia, com altos louvores. Na maturidade, voltou ao Brasil, justo na \u00e9poca da festa do &#8220;Kuarup&#8221;, uma das importantes festividades religiosas daqueles \u00edndios, baseada na comemora\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o do mundo por uma certa entidade m\u00edtica que, um certo dia, cortou peda\u00e7os do tronco da \u00e1rvore &#8220;Kuarup&#8221;, as fincando no terreiro da grande pra\u00e7a central de uma taba, prometendo aos \u00edndios que estes peda\u00e7os de tronco se transformariam em novos seres humanos, desde que todos voltassem \u00e0s suas ocas, n\u00e3o podendo nenhum casal dar uma durante a noite. Um casal quebrou o compromisso, quebrando-se, ent\u00e3o, o encantamento, e os troncos nunca mais se transformaram em homens de verdade&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<div style=\"color: #222222;\"><\/div>\n<div style=\"color: #222222;\">\n<p>A importante festividade, at\u00e9 hoje comemorada, relembra aos \u00edndios este epis\u00f3dio lend\u00e1rio, servindo como elemento de coes\u00e3o grupal de suma import\u00e2ncia. Cantam e dan\u00e7am os homens, em grandes rodas, com corpos maquiados especialmente para tal festividade. Foi numa destas comemora\u00e7\u00f5es que volta \u00e0 sua aldeia o \u00edndio que quase j\u00e1 n\u00e3o mais falava o portugu\u00eas ou a sua antiga l\u00edngua natal.<\/p>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<div style=\"color: #222222;\">\n<p>Na hora da festa, o \u00edndio maduro tirou a sua batina e, pelado, pintou o seu corpo como os seus irm\u00e3os. Entrou na roda, cantou, dan\u00e7ou, e algo l\u00e1 dentro da sua alma o fez relembrar os antigos c\u00e2nticos na sua l\u00edngua ancestral. Depois da festa, o nosso padre cat\u00f3lico recusou-se a vestir,\u00a0 novamente, a sua batina negra, mantendo-se pelado como os seus irm\u00e3os da aldeia e nunca mais quis voltar a Roma ou ao convento em que fora criado. A mem\u00f3ria adormecida da sua l\u00edngua materna voltou imediatamente \u00e0 tona, voltando ele a ser 100% \u00edndio, ali ficando, vivendo como \u00edndio, at\u00e9 a sua morte&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"color: #222222;\">\n<p>O caso do meu conhecido E. foi bastante semelhante a esta aqui narrada, nas suas linhas gerais.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"color: #222222;\">\n<p>Na sua pr\u00e9-adolesc\u00eancia, acompanhou a sua m\u00e3e \u00e0 Alemanha, com o padrasto alem\u00e3o com quem esta se casara. Logo, aprendeu um l\u00edmpido falar alem\u00e3o, na sua conviv\u00eancia di\u00e1ria com os amigos de uma pequena cidade daquele pr\u00f3spero pa\u00eds. Depois de muitos anos, ali vivendo como alem\u00e3o, com documenta\u00e7\u00e3o quase totalmente regularizada, volta ao Brasil numa \u00e9poca de fim-de-ano para passar um carnaval aqui na Terra de S\u00e3o Jorge.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"color: #222222;\">\n<p>Chegado o dia de se apresentar no nosso aeroporto para o seu retorno, uma for\u00e7a interior mais profunda o fez desistir de subir no avi\u00e3o para a volta \u00e0 sua casa materna. E foi ficando, ficando, at\u00e9 o dia de perder o direito de voltar a ser alem\u00e3o; n\u00e3o conhe\u00e7o bem este ponto da sua hist\u00f3ria de vida mas, parece que esteve num consulado daquele pa\u00eds para resolver algum detalhe burocr\u00e1tico e, o seu fino dom\u00ednio da l\u00edngua germ\u00e2nica fez os funcion\u00e1rios consulares o oferecerem um &#8220;jeitinho brrasilerro&#8221; para que este voltasse ao mais pr\u00f3spero pa\u00eds europeu, onde apenas 2% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada pobre. N\u00e3o quis. Uma energia ancestral o prendeu \u00e0 sua terra, preferindo ficar por aqui, onde voltou a ser mais um ilheense da classe m\u00e9dia, vivendo do que ganha, dirigindo um t\u00e1xi da Pra\u00e7a Cayr\u00fa.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"color: #222222;\">Naquela demorada fila ao atendimento dos caixas do Banco do Brasil, pedi ao E. permiss\u00e3o para aqui contar a sua hist\u00f3ria, o que me foi dado sem problemas&#8230;<\/div>\n<div style=\"color: #222222;\">A mesm\u00edssima hist\u00f3ria do \u00edndio xinguano, aqui revivida pelo nosso taxista bil\u00edngue.Ein sehr guten Tag, Lieber Freund, Das ist Sie\u00a0Mutter Land!\u00a0 Willkommen hier!<\/p>\n<div class=\"yj6qo ajU\">\n<div id=\":3f\" class=\"ajR\" tabindex=\"0\" data-tooltip=\"Ocultar conte\u00fado expandido\"><img class=\"ajT\" src=\"https:\/\/ssl.gstatic.com\/ui\/v1\/icons\/mail\/images\/cleardot.gif\" alt=\"\" \/><\/div>\n<div class=\"ajR\" tabindex=\"0\" data-tooltip=\"Ocultar conte\u00fado expandido\"><em><strong><span style=\"color: #000000;\">&#8212;<\/span><\/strong><\/em><\/div>\n<div class=\"ajR\" tabindex=\"0\" data-tooltip=\"Ocultar conte\u00fado expandido\"><em><strong><span style=\"color: #000000;\">Guilherme Albagli de Almeida<\/span><\/strong><\/em><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui ao Banco do Brasil da Paranagu\u00e1 fazer um dep\u00f3sito para Suzi, l\u00e1 encontrando um velho conhecido, o taxista E., de quem conhecia a sua hist\u00f3ria de vida, a mim contada em uma das muitas corridas que fizemos da Cayr\u00fa ao Pontal. 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