{"id":86215,"date":"2014-09-24T00:26:08","date_gmt":"2014-09-24T03:26:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=86215"},"modified":"2014-09-24T00:26:08","modified_gmt":"2014-09-24T03:26:08","slug":"luiz-castro-em-decolores-158","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2014\/09\/24\/luiz-castro-em-decolores-158\/","title":{"rendered":"Luiz Castro em: DECOLORES"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"http:\/\/ocarao.blogspot.com.br\/2009\/11\/ze-quebra-panela.html\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/luiz-castro_novo-emaIL.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"118\" \/><span style=\"color: #0000ff;\">Z\u00c9 QUEBRA PANELA<\/span><\/a><\/strong><\/p>\n<p>Era um matutinho nascido ali perto de Tabira. Comprido, zarolho e desdentado, feio de quebrar resguardo de raposa, mas portador de uma sagacidade e de uma capacidade de enganar o seu semelhante sem limites, andava bem vestido e cal\u00e7ava sapatos de duas cores, um evidente indicativo de malandragem na \u00e9poca para uns, para outros, e um tra\u00e7o de boemia que distinguia os seres iluminados e raros que ousam ser diferentes. Z\u00e9 era o nosso Jo\u00e3o Grilo.<\/p>\n<p>Vendia e comprava tudo, mas gostava mesmo era de negociar com fumo de rolo nas feiras. A banca de fumo, numa feira, era, talvez, a mais simples, uma vez que n\u00e3o tinha sequer uma lona cobrindo; era aquela mesinha feita com velhas t\u00e1buas de caix\u00e3o, acinzentadas pelo sol e pela chuva, com os pregos torcidos e mal pregados, um tronco de pinh\u00e3o ou um peda\u00e7o de corda queimando com o fogo eterno de uma pira sagrada onde os matutos iam acender os cigarros e economizar os f\u00f3sforos, que, como todo produto industrializado, eram caros; o matric\u00f3 era pouco usado, pois dava trabalho para acender , o isqueiro nem pensar, viria muitos anos depois.<\/p>\n<p>Mas Z\u00e9 achava que Deus vivia lhe chamando pra outra miss\u00e3o mais nobre do que envenenar os pulm\u00f5es daqueles desgra\u00e7ados que lhe compravam fumo, e se meteu a fazer imagem de santo, ser o novo Aleijadinho daqueles Paje\u00fas, numa inspira\u00e7\u00e3o que ele considerava ter vindo direta do c\u00e9u.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Passou o nosso Roque Santeiro, a viver dentro das caatingas, juntando troncos secos de imburana, com os quais fazia as imagens, que, por faltar-lhe um m\u00ednimo de jeito para a coisa, estas sa\u00edam todas tronchas e com as fei\u00e7\u00f5es \u201clabrogeiras\u201d, como dizem os matutos.<\/p>\n<p>Aproveitando o \u201cembalo\u201d, quando a ocasi\u00e3o favorecia, vendia tamb\u00e9m lascas de t\u00e1buas de velhos caixotes de sab\u00e3o, que jurava serem milagrosas, por terem sido tiradas do caix\u00e3o do santo \u201cPadim Ci\u00e7o\u201d. Repetia o gesto dos soldados romanos rateando o manto sagrado, quando negociava mulambos de tecido preto afirmando serem garras miraculosas da batina do \u201cMeu Padrinho\u201d.<\/p>\n<p>Um dia, estava ele na feira, comercializando esses produtos completamente heterog\u00eaneos: a banca de fumo e a de santo ali junto, quando chegou uma devota, velhinha com cara de rezadeira e de quem entendia do tra\u00e7ado:<\/p>\n<p>\u2013 Meu senhor, eu conhe\u00e7o um magote de santo, j\u00e1 \u201cfroquentei\u201d muita novena, igreja, o diabo a quatro \u2013 J\u00e1 paguei muita promessa, mas estou aqui \u201cmei atrapaida\u201d, isto aqui \u00e9 S\u00e3o Jos\u00e9 ou Santo Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p>Z\u00e9, com ar professoral, explicou:<\/p>\n<p>\u2013 Olhe, minha senhora, o santo se tiver com o menino no bra\u00e7o direito, \u00e9 S\u00e3o Jos\u00e9, se tiver no bra\u00e7o esquerdo, \u00e9 Santo Ant\u00f4nio, agora se o bicho tiver um par de chifres, um rabo e um espeto comprido na m\u00e3o, n\u00e3o chegue nem perto que isso a\u00ed \u00e9 o satan\u00e1s!<\/p>\n<p>Outra vez, em uma de suas transa\u00e7\u00f5es, um cabra mais sabido \u201cempurrou-lhe\u201d, literalmente, dois rolos de um fumo muito ruim que ele n\u00e3o conseguia vender de jeito nenhum; o matuto chegava, cheirava, \u201carripunava\u201d, ia embora e nada de comprar.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deu por vencido, botou tudo num saco e danou-se para a feira de Sert\u00e2nia, que ficava para outras bandas e onde ningu\u00e9m lhe conhecia as manhas. J\u00e1 no adiantado da hora, a feira<\/p>\n<p>terminando e nada de comprador, Z\u00e9 se aperreou e apelou para um recurso no qual ele era mestre: o seu marketing pessoal.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3ia, pesso\u00e1, quem comprar desse meu fumo agora, vai tudim pro juazeiro comigo, eu levo tudim pra o Juazeiro do meu Padim Ci\u00e7o!<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou muito, e l\u00e1 se foram os dois rolos de fumo. Tamb\u00e9m, quem era besta perder uma promo\u00e7\u00e3o daquelas!?<\/p>\n<p>Um peda\u00e7o aqui, outro ali, e vendeu toda aquela mercadoria de p\u00e9ssima qualidade.<\/p>\n<p>A coisa ia bem, at\u00e9 que chegou uma velhinha apressada:<\/p>\n<p>\u2013 \u00d4, meu senhor, adonde t\u00e1 o caminh\u00e3o mode no\u00eds ir botando os tro\u00e7os em riba?<\/p>\n<p>Z\u00e9 pegou na bucha:<\/p>\n<p>\u2013 Que caminh\u00e3o que nada, dona Maria aonde foi que a senhora j\u00e1 viu pagar \u201cpremessa\u201d de caminh\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 O meu \u201cPadim\u201d n\u00e3o gosta de caminh\u00e3o chegando l\u00e1 n\u00e3o! N\u00f3is vamo tudo \u00e9 \u00e0 p\u00e9.<\/p>\n<p>Promessa \u00e9 promessa!<\/p>\n<p><strong>Colabora\u00e7\u00e3o de Luiz Castro<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bacharel Administra\u00e7\u00e3o de Empresa<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Z\u00c9 QUEBRA PANELA Era um matutinho nascido ali perto de Tabira. 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