{"id":88521,"date":"2014-11-18T12:32:37","date_gmt":"2014-11-18T15:32:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=88521"},"modified":"2014-11-18T12:56:51","modified_gmt":"2014-11-18T15:56:51","slug":"industria-da-seca-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2014\/11\/18\/industria-da-seca-1\/","title":{"rendered":"IND\u00daSTRIA DA SECA \u2013 1"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/juventino-ribeiro-para-site.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/juventino-ribeiro-para-site.jpg\" alt=\"juventino ribeiro para site\" width=\"300\" height=\"225\" class=\"alignright size-full wp-image-88528\" \/><\/a><em><strong>por JUVENTINO RIBEIRO\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #333333;\"><strong><em>A ind\u00fastria da seca \u00e9 um conjunto de expedientes ou procedimentos de poderosos grupos nordestinos que se valem do fen\u00f4meno e, sobretudo, do mito da seca, para <\/em><\/strong><strong><em>colherem benef\u00edcios governamentais em proveito pr\u00f3prio.<\/em><\/strong><\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>Recentemente, revirando alfarr\u00e1bios \u2013 tenho-os em grande quantidade \u2013 deparei-me com uns publicados no Di\u00e1rio da Tarde, de Ilh\u00e9us e no jornal A Tarde, de Salvador, na d\u00e9cada de 90. Um deles estampava o t\u00edtulo \u201cA Industria da Seca\u201d. Revisei, atualizei, acresci e agora republico.<\/p>\n<p>Acho que alfarr\u00e1bios, de origem \u00e1rabe, s\u00e3o malditos \u2013 sem conota\u00e7\u00e3o discriminat\u00f3ria \u2013 e rimam com tosse. Acoitam malditos fungos e \u00e1caros que me t\u00eam torturado h\u00e1 v\u00e1rios dias. Bendita seja a tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, pois o <em>scanner<\/em> \u00e9 um ass\u00e9ptico coadjuvante para perenizar antigos escritos, digitalizando-os e enviando-os \u00e0s nuvens computacionais. Assim, podemos queimar alfarr\u00e1bios e seus malditos habitantes que minam nosso sistema respirat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, seca \u00e9 assunto que me atribula desde quando nasci, em Mirabela, Norte de Minas Gerais. Essa regi\u00e3o integra o famoso Pol\u00edgono das Secas, juntamente com Bahia, Cear\u00e1, Para\u00edba, Pernambuco, Piau\u00ed, Rio Grande do Norte, Sergipe e parte de Alagoas. Nada h\u00e1 mais desolador do que uma paisagem \u00e1rida, sem que se vislumbre no horizonte uma pequena nuvem alentadora para o sertanejo. Passei algum tempo na \u00c1frica e por l\u00e1 vi paisagens semelhantes. \u00c9 tudo muito estarrecedor e todo brasileiro deveria ler mais sobre a seca e suas consequ\u00eancias. Fica a dica aos pais e professores.<\/p>\n<p>O tal artigo tecia uma panor\u00e2mica dos diversos acontecimentos alusivos \u00e0s secas, desde a \u00e9poca do Imperador D. Pedro II, mais precisamente o ano de 1877, per\u00edodo este conhecido como <em>A Grande Seca. <\/em>S\u00f3 o Estado do Cear\u00e1 perdeu mais de 400 mil habitantes, equivalente \u00e0 metade de sua popula\u00e7\u00e3o, naquela \u00e9poca, dizimados por doen\u00e7as e pela fome, consequ\u00eancias da seca. Mesmo se considerar exageros na estimativa, o cen\u00e1rio causou choque em estudiosos dessa \u00e9poca.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O Imperador D. Pedro II chegou a cunhar a c\u00e9lebre frase: &#8220;N\u00e3o restar\u00e1 uma \u00fanica joia na Coroa, mas nenhum nordestino morrer\u00e1 de fome&#8221;. Criou-se uma comiss\u00e3o imperial para desenvolver medidas que pudessem atenuar futuras secas. Desde a importa\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o de camelos, constru\u00e7\u00e3o de ferrovias e a\u00e7udes at\u00e9 a transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco, atrav\u00e9s de um canal de eleva\u00e7\u00e3o para o Rio Jaguaribe, no Cear\u00e1. Entretanto, muito pouco saiu do papel. Ressalta-se, aqui, que a transposi\u00e7\u00e3o do Velho Chico \u00e9 assunto pensado e debatido desde a \u00e9poca do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>H\u00e1 relatos de pesquisadores e historiadores de que tais adversidades datam da \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa na regi\u00e3o. A primeira seca teria ocorrido no per\u00edodo de 1580 a 1583. As duras consequ\u00eancias da falta de \u00e1gua acentuaram um quadro que em diversos momentos da biografia do semi\u00e1rido chega a ser assustador: migra\u00e7\u00e3o desenfreada, epidemias, fome, sede, mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Desse per\u00edodo at\u00e9 a primeira metade do s\u00e9culo XVII, quem ocupava as \u00e1reas mais interioranas do semi\u00e1rido brasileiro era a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Essa regi\u00e3o, equivalente ao Pol\u00edgono das Secas, paulatinamente, foi sendo ocupada por sertanejos, j\u00e1 habituados ao desmatamento.<\/p>\n<p>Essa ocupa\u00e7\u00e3o foi intensificada ap\u00f3s uma Carta R\u00e9gia que proibia a cria\u00e7\u00e3o de gado em uma faixa de dez l\u00e9guas desde o litoral em dire\u00e7\u00e3o aos sert\u00f5es. Teria sido a primeira a\u00e7\u00e3o governamental de que se tem not\u00edcia, visando \u00e0 conten\u00e7\u00e3o de estiagens. Talvez tenhamos a\u00ed tamb\u00e9m a revela\u00e7\u00e3o de um dispositivo legal ancestral, cujo teor, se posto em pr\u00e1tica, se revelaria um marco inicial na preserva\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica (?).<\/p>\n<p>As capitanias tiveram seus engenhos prejudicados, as fazendas sofreram com a falta de \u00e1gua e cerca de 5 mil \u00edndios desceram rumo ao sert\u00e3o em busca de comida. Segundo Irineu Pinto, um dos fundadores do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Paraibano, fiscais da C\u00e2mara chegaram a pedir ao Rei de Portugal que enviasse escravos, pois os que habitavam a regi\u00e3o haviam morrido de fome. (<strong>continua&#8230;<\/strong>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por JUVENTINO RIBEIRO\u00a0 A ind\u00fastria da seca \u00e9 um conjunto de expedientes ou procedimentos de poderosos grupos nordestinos que se valem do fen\u00f4meno e, sobretudo, do mito da seca, para colherem benef\u00edcios governamentais em proveito pr\u00f3prio. 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