{"id":9068,"date":"2011-02-20T20:01:08","date_gmt":"2011-02-20T23:01:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=9068"},"modified":"2011-02-20T20:02:07","modified_gmt":"2011-02-20T23:02:07","slug":"isabel-vasconcellos-em-os-avos-das-cameras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2011\/02\/20\/isabel-vasconcellos-em-os-avos-das-cameras\/","title":{"rendered":"Isabel Vasconcellos em: &#8220;Os Av\u00f3s das C\u00e2meras &#8220;"},"content":{"rendered":"<p><center><b>CLIQUE PARA AMPLIAR<\/b><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/MONT-CAPA-SITE26.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/MONT-CAPA-SITE26-300x241.jpg\" alt=\"\" title=\"MONT CAPA SITE\" width=\"300\" height=\"241\" class=\"alignnone size-medium wp-image-9070\" srcset=\"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/MONT-CAPA-SITE26-300x241.jpg 300w, https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/MONT-CAPA-SITE26-1024x824.jpg 1024w, https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/MONT-CAPA-SITE26.jpg 1401w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/center><br \/>\n<img align = \"right\" src = \"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/isabel-vasconcellos.jpg\"\/>H\u00e1 momentos em que olho para as muitas m\u00e1quinas de fotografia e cinema que tenho aqui expostas na casa, como rel\u00edquias, e meus olhos se enchem de l\u00e1grimas. S\u00f3 quem, como eu, conviveu com as antigas tecnologias da imagem pode compreender de imediato o absoluto encanto da hist\u00f3ria da fotografia e do cinema.<\/p>\n<p>Cresci num lar dedicado \u00e0 imagem.  Meu pai, Alfredo Fomm de Vasconcellos (1908-1987) foi pioneiro na cinematografia de 16mm na Am\u00e9rica Latina e as m\u00e1quinas de seu laborat\u00f3rio foram, em grande parte, constru\u00eddas por ele pr\u00f3prio. <\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Meu irm\u00e3o, Ronaldo Alvan (1936-2004) foi pioneiro da TV e dirigiu importantes emissoras, desde a Excelsior at\u00e9 algumas afiliadas da Rede Globo e, ainda, a TV Gazeta de S.Paulo.<\/p>\n<p>Na minha estante, muitas m\u00e1quinas antigas: desde c\u00e2meras fotogr\u00e1ficas at\u00e9 a minha velha paillard bolex, que era o m\u00e1ximo do charme nos anos 1960, passando por um velho projetor 16mm Bell Howell. O mais eu doei pra cinemateca.<\/p>\n<p>Mas da cole\u00e7\u00e3o que conservei, emociona-me particularmente uma enorme m\u00e1quina fotogr\u00e1fica 6&#215;6, encorpada e nobre, que se chama Kodak Medalist II;<\/p>\n<p>e me enche de ternura uma outra \u2013 ambas s\u00e3o dos anos 1930 \u2013 que faz fotos em tr\u00eas dimens\u00f5es. Ou seja: ela tem tr\u00eas objetivas que projetam pra dentro dela duas imagens, que, se vc colocar uns \u00f3culos na dist\u00e2ncia focal certa, se transformar\u00e3o em uma \u00fanica, em 3\u00aa. dimens\u00e3o.<\/p>\n<p>James Cameron tinha, sem d\u00favida, onde se inspirar.<\/p>\n<p>Tanto meu pai trabalhou para produzir imagens cada vez de maior qualidade. E, naquele tempo, produzir imagem era uma coisa complicad\u00edssima, um processo louco, de v\u00e1rias e delicadas etapas.<\/p>\n<p>O som, por exemplo, era \u00e0 parte. Era colocado, depois, na pel\u00edcula.<\/p>\n<p>Tudo era muito trabalhoso e sutil, mas, ainda assim, Hollywood produziu efeitos especiais, nas terceira e quarta d\u00e9cada dos anos 1900, que nada ficariam devendo ao que se consegue hoje com os recursos eletr\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Meu pai morreu em 1987, j\u00e1 encantado com os videotapes e repetindo sempre, como me dissera em 1969 quando fiz vestibular para a Escola de Cinema, que o futuro da imagem repousava na eletr\u00f4nica e que, portanto, em vez de escola de cinema, eu deveria cursar engenharia eletr\u00f4nica&#8230;<\/p>\n<p>Meu primeiro filme aconteceu com uma pequena c\u00e2mera amadora que eu levei para a escola prim\u00e1ria e filmei (tudo balan\u00e7ado, como acontece com todos os principiantes mesmo das c\u00e2meras modernas que tem mecanismos para compensar balan\u00e7adas) meus coleguinhas. Tenho o filme at\u00e9 hoje. Foi revelado na \u00fanica m\u00e1quina capaz de revelar filmes coloridos da Am\u00e9rica Latina: a que meu pai constru\u00edra. Nunca foi sonorizado, som mesmo s\u00f3 quando foi transformado em v\u00eddeo (VHS) e eu coloquei nele uma trilha musical.<\/p>\n<p>Fui apresentada, por meu pai, ao fasc\u00ednio da c\u00e2mara escura dos laborat\u00f3rios fotogr\u00e1ficos quando eu tinha apenas 8 anos de idade.<\/p>\n<p>Aprendi a magia de revelar fotos, um processo nada f\u00e1cil, mas absolutamente encantador.<\/p>\n<p>Sob uma t\u00edmida luz ambiente vermelha (que n\u00e3o sensibiliza os pap\u00e9is fotogr\u00e1ficos para fotos em preto e branco), colocava-se a tira de filme negativo num aparelho (ampliador) que projetava a imagem negativa numa mesa onde se colocava o papel fotogr\u00e1fico para ser sensibilizado pela luz (o papel continha \u2013 assim como os filmes virgens \u2013 uma emuls\u00e3o sens\u00edvel \u00e0 luz e capaz de registrar as imagens. A base da emuls\u00e3o era a prata, que escurece na luz) e, depois de expor o papel pelo tempo necess\u00e1rio (a arte de saber o tempo necess\u00e1rio&#8230; ah&#8230;), jogava-se a folhinha na primeira banheira (uma vasilha) que continha o l\u00edquido revelador.<\/p>\n<p>Ali \u2013 no escuro e sob apenas a luz vermelha \u2013 tinha-se que saber o momento exato de retirar a foto, pass\u00e1-la pela banheira de \u00e1gua e \u00e1cido ac\u00e9tico \u2013 vinagre&#8211; e, em seguida, jog\u00e1-la no fixador (que como o nome est\u00e1 dizendo era a droga capaz de fixar a imagem e impedir que ela amarelasse ou mesmo sumisse com o tempo).  Depois, caso se desejasse uma foto com brilho, ela ia pra esmaltadeira (uma esp\u00e9cie de grelha el\u00e9trica). Ou para o varal mesmo, para secar.<\/p>\n<p>Com os filmes (de cinema) o processo era basicamente o mesmo. Mas como se tratava de metros e metros de pel\u00edcula (cada 24 quadrinhos \u2013 fotogramas \u2013 de uma imagem filmada fazem um segundo de imagem projetada) era preciso uma m\u00e1quina aonde o filme ia sendo transportado de tanque em tanque de revela\u00e7\u00e3o, lavagem, fixa\u00e7\u00e3o e secagem. <\/p>\n<p>Se o filme fosse colorido, um tanque de revela\u00e7\u00e3o pra cada cor b\u00e1sica. Bela complica\u00e7\u00e3o, n\u00e9? E tudo isso pra se conseguir um filme mudo. O som vinha depois numa trilha \u00f3tica ou magn\u00e9tica que corria ao lado da pel\u00edcula. Mais complica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por todas essas complica\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m, \u00e9 que o advento do v\u00eddeo tape foi uma gl\u00f3ria. A televis\u00e3o, antes do v\u00eddeo, tinha que fazer reportagens em filmes, revelar os filmes, edit\u00e1-los (a gente usava o verbo \u201cmontar\u201d) &#8230; Imagine a trabalheira.<\/p>\n<p>Mas a minha primeira trombada com a realidade do v\u00eddeo aconteceu em 1969, na TV Aratu, ent\u00e3o a afiliada da Rede Globo em Salvador, na Bahia. O meu irm\u00e3o Alvan tinha sido transferido, pelo Boni, do Rio para Salvador e eu estava l\u00e1 em f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Alvan me levou \u00e0 TV para me mostrar a maravilhosa mesa de efeitos eletr\u00f4nicos que acabara de chegar dos EUA. Ent\u00e3o eu descobri que a eletr\u00f4nica fazia em segundos o que se levava horas e horas para realizar em pel\u00edcula, fosse de cinema ou de fotografia&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 a minha m\u00e3e, que viveu o bastante para ver as c\u00e2meras digitais, lamentava que meu pai tamb\u00e9m n\u00e3o tivesse vivido o suficiente para ver os seus sonhos realizados \u2013 todos eles, da capta\u00e7\u00e3o da imagem \u00e0 edi\u00e7\u00e3o final &#8211; num aparelhozinho do tamanho de um ma\u00e7o de cigarros.<\/p>\n<p>As minhas muitas heran\u00e7as da imagem, agora que todos os meus gurus familiares j\u00e1 morreram, est\u00e3o espalhadas pela casa, pelo cotidiano, e eu fico imaginando que eles mereceriam ver os progressos magn\u00edficos do registro da imagem e desfrutar de todas as maravilhas proporcionadas pelo computador e pela grande revolu\u00e7\u00e3o da internet e suas redes sociais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o acontece de eu estar caminhando, como de h\u00e1bito,em alguma manh\u00e3, pela Avenida Paulista e cruzar de repente com alguma crian\u00e7a que me chama a aten\u00e7\u00e3o, por alguma raz\u00e3o inimagin\u00e1vel, e perceber, no olhar e no sorriso que ela me d\u00e1, aquela chama de reconhecimento.<\/p>\n<p>S\u00e3o eles \u2013 eu sonho \u2013 que voltaram para viver de novo e, desta vez, na imagem completamente eletr\u00f4nica.<\/p>\n<p>&#8212;<br \/>\n<em><strong>Escritora, produtora e apresentadora<br \/>\nBand TV, R\u00e1dio Tupi AM<br \/>\nAv.Paulista 960 apto 1206, 01310-100<br \/>\n(11) 83573611<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CLIQUE PARA AMPLIAR H\u00e1 momentos em que olho para as muitas m\u00e1quinas de fotografia e cinema que tenho aqui expostas na casa, como rel\u00edquias, e meus olhos se enchem de l\u00e1grimas. 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