{"id":91302,"date":"2015-02-12T08:44:28","date_gmt":"2015-02-12T11:44:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/?p=91302"},"modified":"2015-02-12T08:44:28","modified_gmt":"2015-02-12T11:44:28","slug":"vania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/2015\/02\/12\/vania\/","title":{"rendered":"V\u00c2NIA"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.r2cpress.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/FOTO-ARTIGOS-JULIO-GOMES.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"250\" \/>N\u00e3o me recordo se a conheci em um baile do Renascen\u00e7a, onde a juventude da periferia, sobretudo negra, se reunia para beber, dan\u00e7ar e namorar, naquele clube situado no bairro do Graja\u00fa, na cidade do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>S\u00f3 sei que est\u00e1vamos na d\u00e9cada de 1980, que eu tinha algo em torno de 18 anos e que, al\u00e9m das minhas obriga\u00e7\u00f5es de estudante e de filho, eu \u2013 que n\u00e3o tinha namorada \u201coficial\u201d \u2013 n\u00e3o pensava em muita coisa al\u00e9m de beber, dan\u00e7ar e namorar.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o lembro ao certo como a conheci, sei que \u00e9 imposs\u00edvel esquecer de quando ela foi em minha casa \u2013 onde n\u00e3o havia mais ningu\u00e9m al\u00e9m de n\u00f3s \u2013 e ficamos no corredor ap\u00f3s a porta de entrada, j\u00e1 que a urg\u00eancia do desejo n\u00e3o nos deixou adentrar na casa mais do que dois passos. \u00d3bvio que me lembro de outras coisas deste momento, mas seria indiscreto descrev\u00ea-las.<\/p>\n<p>V\u00e2nia fez parte da minha juventude alegre e livre no Rio de Janeiro. Ela era sobrinha do Escadinha, que era o vulgo de Jos\u00e9 Carlos dos Reis Encina, o traficante mais famoso daquela \u00e9poca no Rio. Mas o que me importava isso?<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Algumas vezes fui na casa dela, no Graja\u00fa. Ela morava no asfalto (ou seja, n\u00e3o morava no morro) em companhia de um av\u00f4 aposentado, que passava boa parte da velhice em frente \u00e0 televis\u00e3o; e com um irm\u00e3o mais velho que andava bem vestido, n\u00e3o trabalhava, mas saia todas as tardes\/noites e dialogava muito bem. Talvez tamb\u00e9m fosse do tr\u00e1fico, mas nunca perguntei nem quis saber. S\u00f3 V\u00e2nia me interessava.<\/p>\n<p>Lembro que uma vez fui \u00e0 casa de V\u00e2nia e ela estava sentada no ch\u00e3o, toda moleca, com um monte de figuras de jogadores de futebol que cortara das revistas espalhadas em torno de si, formando mais do que um time de jogadores de clubes diversos. Falei: \u201c- Eu n\u00e3o sabia que voc\u00ea gostava de futebol?\u201d<\/p>\n<p>Ela respondeu: \u201c- N\u00e3o gosto. Gosto das pernas dos jogadores. Acho lindas.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o briguei. Tal sinceridade afastava qualquer possibilidade de briga. E a proximidade de V\u00e2nia me convidava para ficar ainda mais pr\u00f3ximo dela. Era assim. E era muito bom.<\/p>\n<p>Mas um dia, em 1985, eu vim morar na Bahia, em Ilh\u00e9us, e todo este mundo colorido e feliz ficou para tr\u00e1s: V\u00e2nia, bailes funk do Renascen\u00e7a e do Mackenzie, praias lotadas, Maracan\u00e3 e Escola de Samba Unidos de Vila Isabel. Tudo ficou na lembran\u00e7a. E no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje eu fecho os olhos, lembro, revivo, e tal como o poeta Pablo Neruda, sentencio: Confesso que vivi!<\/p>\n<p>Mas eu vou al\u00e9m de Neruda. Confesso que, na minha juventude, fui muito, muito feliz!<\/p>\n<p><strong>&#8212;\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Julio Cezar de Oliveira Gomes<\/em><\/strong><em> \u00e9 graduado em Hist\u00f3ria e em Direito pela UESC \u2013 Universidade Estadual de Santa Cruz. e-mail: juliogomesartigos@gmail.com<\/em><\/p>\n<p><em>Permitida a reprodu\u00e7\u00e3o total ou parcial, desde que citada a autoria.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o me recordo se a conheci em um baile do Renascen\u00e7a, onde a juventude da periferia, sobretudo negra, se reunia para beber, dan\u00e7ar e namorar, naquele clube situado no bairro do Graja\u00fa, na cidade do Rio de Janeiro. 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